Leitura

A Cena Interior, uma imersão na dor coletiva

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Autor é um detetive literário com pena de poeta

Por Nei Manique06 de dezembro de 2024 1 min de leitura

Desconheço se é possível escrever em silêncio, na mais ampla acepção, como se as palavras não representassem qualquer som. Contudo, essa foi a minha sensação diante do livro "A cena interior", do francês Marcel Cohen (Editora 34, 2017), com tradução de Samuel Titan Jr.

Cohen é filho de judeus turcos que imigraram para Paris, pouco antes da 2ª Guerra Mundial e, quando tinha pouco mais de cinco anos, teve os pais, avós, tios e a irmã de poucos meses deportados para Auschwitz, o mais célebre dos campos de concentração nazistas.

As lembranças são tênues e Cohen as reconstrói a partir de sensações olfativas, frases esparsas, algumas fotos, objetos de uso pessoal - e vagas, mas marcantes convivências.

Cohen é um detetive literário, com pena de poeta. Escreve em silêncio, mas as palavras reverberam. O texto é comovente e doloroso, em proporções superlativas. A maior lição é a de imergir na dor de famílias definitivamente dilaceradas pela perversidade humana.

Nos condoemos quando nos deparamos com imagens dos comboios ferroviários que levavam pessoas em condições piores que o transporte de gado, na direção do flagelo extremo ou da morte. No entanto, é o sofrimento amiúde, descrito com lupa, que nos aterroriza.

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