Geral

A história da motorista de ônibus que inspira crianças e ensina lições aos adultos

Espaço conquistado

Há dois anos Gabriela dirige os coletivos do Grupo Forquilhinha

Por Thiago Hockmüller08 de março de 2021 5 min de leitura
Thiago Hockmüller/Portal Engeplus

O Dia Internacional da Mulher, celebrado nesta segunda-feira, dia 8, traz reflexões sobre os desafios diários vividos pelas mulheres, sobretudo na luta por um espaço justo e igualitário no mercado de trabalho. O 8 de março representa um marco histórico na luta das mulheres por mais oportunidades e reconhecimento, além de estar relacionado por historiadores com a data de um incêndio ocorrido em 1911, em Nova York, no qual 125 mulheres morreram em uma fábrica têxtil.

A luta por espaço, visibilidade, oportunidades e igualdade é diária. Gabriela Fernandes de Jesus Mello Sá, 25 anos, é a prova disso. A criciumense, moradora do bairro Renascer, atua há dois anos como motorista de ônibus no Grupo Forquilhinha. Começou como manobrista na garagem da empresa e hoje conduz coletivos do transporte escolar e também da linha troncal, o famoso amarelinho.

Está surpreso? Se a resposta for sim, não há vergonha para isso. Mas é bom ir se acostumando. “Tem a surpresa, mas não vejo como ato de preconceito. Outras empresas da região também estão contratando mulheres (motoristas). Já presenciei quatro mulheres durante o trajeto”, comemora Gabriela, que também é mãe do jovem Miguel Fernandes Sá, 4 anos.

A surpresa entre passageiros, motoristas e pedestres não é incomum para a motorista. Ela entende que por muitos anos e ainda hoje este é um espaço masculino, mas que está abrindo as portas para as mulheres. Na verdade, Gabriela acredita que a oportunidade é a principal ferramenta para derrubar o preconceito e tornar qualquer atividade um lugar para todos.

“Falta oportunidade. Não são em todas as empresas, mas em algumas ainda encontramos (vagas). Quando derem a oportunidade e ver que o resultado é igual, aí as empresas também crescerão e servirão de exemplo para outras. Hoje me sinto orgulhosa de todo o processo que passei até chegar aqui. Me sinto realizada de poder ser exemplo para outras mulheres e de uma forma indireta as incentivar”, explica.

Início de um sonho

Gabriela viajava de caminhão com o marido, Juliano Mello Sá, e tomou gosto pelo ramo. Mais tarde, Juliano largou as estradas e passou a atuar justamente como motorista de ônibus no Grupo Forquilhinha. Já Gabriela, incentivada pelo marido, decidiu que era hora de alterar a categoria da Carteira Nacional de Habilitação (CNH). Participou de um programa do Sest Senat, idealizado para inserir motoristas no transporte, foi contemplada por um sorteio e ganhou a troca de categoria.

“Depois surgiu a oportunidade de vir para a empresa, por outro programa, e estou até hoje. Estou orgulhosa de estar na linha de frente, estou realizada e feliz. Hoje na empresa sou a única, mas na região tem outras. Aqui teve outras antes, mas sou a que mais tempo ficou”, orgulha-se.

Na condução do coletivo, a realização não é apenas a de ser motorista, afinal, o sonho sempre foi mais profundo: cuidar de pessoas. Na infância, esse era o desejo de Gabriela.

“Por incrível que pareça eu tinha outro sonho. Era trabalhar cuidando de pessoas, independente se fosse enfermagem, medicina, socorrista… hoje trabalho cuidando de pessoas, de outras formas, levando em segurança para o seu destino, seu trabalho, sua casa e estudo. De uma forma ou outra, está relacionado. Acredito que um sonho quando se é criança, se idealiza de outras formas, mas com o mesmo objetivo”, pondera.

Deu tudo certo

Gostaria que não abandonassem os sonhos. Que se qualifiquem, corram atrás e ergam a cabeça. O não sempre vai existir, mas cada uma vence com sua persistência e força de vontade

Gabriela Fernandes, motorista de ônibus
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Gabriela conta que tem o respeito dos colegas de profissão. E com trabalho e competência, também mostrou para passageiros desconfiados que possui habilidade para realizar o serviço. Ela lembra de uma passageira que entrou no ônibus e não escondeu o preconceito. “Uma motorista mulher, eu não vou entrar”, disse a passeira.

Mas Gabriela não baixou a cabeça. Apenas trabalhou. No fim da viagem, provou para a passageira que sim, mulher também é motorista. “Eu fiquei meio receosa, mas quando desceu ela deu os parabéns e disse que eu dirigia muito bem. É isso, temos que mostrar o resultado, tanto para a empresa, quanto para aquela pessoa que ficou surpresa”, argumenta.

Se por um lado há preconceito, por outro há sim apenas surpresa e admiração. Gabriela lembra de uma menina que estava no ônibus, na linha do Paço Municipal, com a mãe. E quando viu que a motorista era uma mulher, não teve dúvidas:

“Ela disse que quando crescer vai ser motorista. Começou a elogiar o meu cabelo, a condução... a mãe disse que ela queria ser tanta coisa, mas ela disse que agora queria ser motorista de ônibus e que não queria mais ser de carreta. É gratificante ver esse retorno. Ela viu que realmente tem espaço, que pode ser isso”, comemora Gabriela.

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