Saúde

Alzheimer: quando os esquecimentos merecem atenção?

Saúde cerebral

Neurologista explica como diferenciar alterações naturais de sinais da doença

Por Leonardo Minatto20 de setembro de 2026 6 min de leitura
Magnific.com/Ilustração

Repetir perguntas, esquecer conversas ou compromissos, perder objetos e ter dificuldade para aprender novas informações são sinais que podem ser relacionados à idade, porém, podem indicar o desenvolvimento da Doença de Alzheimer. Além do esquecimento, a enfermidade também pode causar dificuldades para encontrar palavras, organizar tarefas ou tomar decisões.

Muitas vezes a família pode interpretar inicialmente como “coisa da idade”. Segundo o neurologista Guilherme Soratto, no envelhecimento normal, é comum que a pessoa esqueça uma informação e posteriormente se lembre, especialmente quando recebe alguma pista. Porém, no Alzheimer, o esquecimento é mais frequente e progressivo.

“A doença começa a interferir na autonomia e nas atividades do dia a dia. Quando a alteração de memória deixa de ser apenas uma queixa ocasional e começa a se repetir, piorar e interferir na rotina, isso representa um sinal de alerta. Um sinal é quando familiares percebem mudanças que a própria pessoa não consegue mais compensar adequadamente. Quando isso acontece, é importante procurar um neurologista”, afirmou.

Desenvolvimento e agravantes

O principal fator de risco para o desenvolvimento do Alzheimer é a idade, mas fatores cardiovasculares e metabólicos também impactam. “Problemas como hipertensão, diabetes, obesidade e colesterol elevado, além de tabagismo, sedentarismo e traumatismo craniano, são outros fatores que precisam de cuidado”, explicou Soratto.

O isolamento social e a depressão também têm um grande efeito no desenvolvimento da Doença de Alzheimer, já que estão relacionados ao declínio cognitivo. O neurologista destacou que manter relações sociais, atividades intelectuais e participação em atividades significativas são importantes para preservar a saúde cerebral. “É importante lembrar que associação não significa que isolamento ou depressão, isoladamente, sejam necessariamente a causa do Alzheimer”, alertou.

Diagnóstico: um desafio para a pessoa e família

De acordo com Soratto, uma das maiores adversidades enfrentadas após o diagnóstico da doença é compreender que o Alzheimer é uma enfermidade progressiva, que compromete a autonomia, comportamento e capacidade funcional do indivíduo de forma gradual.

“A família precisa se adaptar às diferentes fases da doença, organizar cuidados, segurança, medicações e questões financeiras e legais, além de cuidar da saúde do próprio cuidador. Não existe um momento exato em que a pessoa necessita de alguém a supervisionando. Isso depende da evolução da doença. Quando o paciente começa a ter dificuldade para realizar atividades básicas, como tomar banho, se alimentar e tomar medicamentos, aumenta a necessidade de supervisão. Nas fases mais avançadas, pode ser necessário cuidado contínuo”, ressaltou.

O agravamento do Alzheimer é um momento delicado e, em diversos casos, a pessoa enferma pode se esquecer de seus familiares. Para evitar conflitos, o neurologista orienta que, se o indivíduo não reconhece um familiar, insistir repetidamente em “corrigir” pode aumentar a ansiedade. Neste momento, o correto é acolher, tranquilizar e redirecionar a atenção. Mudanças importantes de comportamento também devem ser discutidas com o médico, porque podem existir causas tratáveis, como dor, infecção, alterações do sono ou efeitos de medicamentos.

“Há outros erros que devem ser evitados ao lidar com uma pessoa com Alzheimer. Um deles é tratar o paciente como se ele estivesse fazendo as coisas de propósito. Também devemos evitar discussões, confrontos constantes, excesso de cobranças e retirar toda a autonomia precocemente. O ideal é preservar a independência possível, mas dentro de um ambiente seguro”, pontuou Soratto.

Diagnóstico, tratamento e cuidados

Conforme Soratto, o diagnóstico precoce da Doença de Alzheimer permite identificar causas potencialmente tratáveis, controlar fatores de risco e iniciar medidas terapêuticas mais cedo. “Hoje existem tratamentos específicos para determinados pacientes em fases iniciais da doença. Isso torna o diagnóstico precoce ainda mais importante”, frisou.

A identificação do Alzheimer tem início por meio da avaliação clínica e cognitiva, associada à investigação de outras causas de comprometimento cognitivo. A neuroimagem (uso de diferentes técnicas tecnológicas para visualizar, de forma direta ou indireta, a estrutura, a função e a atividade do sistema nervoso) ajuda a excluir outras doenças e avaliar o padrão de alterações cerebrais.

“Hoje também existem os biomarcadores, como exames no líquor, uma Tomografia por Emissão de Pósitrons (PET, pela sigla em inglês) e, mais recentemente, alguns exames de sangue, que conseguem identificar alterações relacionadas à doença de Alzheimer”, disse.

Quanto à prevenção, o neurologista afirmou que, como a doença é causada por fatores genéticos e relacionados ao envelhecimento, não há como prevenir todos os casos. Porém, uma parcela importante do risco está relacionada a fatores modificáveis, como controle de pressão arterial, diabetes e colesterol. “É indicado não fumar, praticar atividade física, manter peso adequado, tratar perda auditiva e manter uma vida social e cognitivamente ativa", salientou.

Hoje em dia, existem diferentes medicamentos utilizados para desacelerar ou estabilizar os sintomas cognitivos e funcionais causados pelo Alzheimer, como donepezila, rivastigmina, galantamina e memantina, mas ainda é necessária a prática de exercícios físicos, uma alimentação balanceada, sono adequado, estimulação cognitiva e o tratamento dos fatores de risco.

“Tivemos uma mudança importante com os anticorpos monoclonais contra beta-amiloide, como lecanemab e donanemab. Diferentemente dos medicamentos tradicionais, eles atuam sobre uma das alterações biológicas da doença e demonstraram capacidade de reduzir a velocidade do declínio cognitivo em pacientes cuidadosamente selecionados. São destinados principalmente a pessoas com doença de Alzheimer em fases iniciais, com confirmação da patologia amiloide, e exigem avaliação rigorosa dos riscos e benefícios, inclusive pelo risco de alterações relacionadas ao amiloide no cérebro”, informou Soratto.

Panorama da Doença de Alzheimer em Criciúma

Segundo dados da Secretaria de Saúde de Criciúma, o município possui, atualmente, 96 pacientes cadastrados no Código Internacional de Doenças (CID) com diagnóstico de Alzheimer no Sistema Único de Saúde (SUS). Porém, de acordo com o secretário, Deivid Freitas, o número não representa a quantidade de pessoas que possuem a enfermidade.

“O CID não é um cadastro obrigatório para um paciente, então um médico pode não colocar, por isso é difícil mensurar quantas pessoas têm essa doença. O número que temos é com base no SUS, mas ainda há aqueles atendidos pela rede particular. Então, com certeza, são muito mais casos”, declarou.

Por fim, Soratto relatou que hoje a procura por avaliação de memória e a preocupação com o Alzheimer estão crescendo, principalmente devido a uma maior atenção da população sobre a saúde cerebral e a possibilidade de investigar alterações cognitivas.

“Mesmo assim, percebo dois cenários. Alguns pacientes chegam mais cedo, o que é positivo. Porém, ainda é relativamente comum receber pacientes quando o comprometimento cognitivo já interfere significativamente na autonomia. Muitas famílias passam bastante tempo atribuindo os sintomas simplesmente ao envelhecimento. Por isso, é importante estar atento”, finalizou.

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