Comitê é criado para impulsionar ações de acessibilidade em Criciúma e região
Inclusão e autonomia
Primeiro encontro reuniu diversas pessoas comprometidas com a pauta

A acessibilidade em Criciúma e região passará a ser discutida por um comitê formado por pessoas cegas e com baixa visão, criado no último sábado, dia 4. A vontade de transformar a realidade local e construir um movimento autêntico, participativo e comprometido com os direitos e a autonomia das pessoas com deficiência visual foi o que uniu os membros ao movimento, conforme Francis Guimarães, de 32 anos, que está à frente do comitê como coordenador.
O primeiro encontro oficial reuniu diversas pessoas comprometidas com a pauta e contou com a presença do vice-presidente da Associação Catarinense para Integração do Cego (Acic), Jairo da Silva. “Percebo que Criciúma e região tem um potencial muito grande para se desenvolver em questões de acessibilidade. Essas coisas funcionam sobre demanda, e como Criciúma não tem uma associação ativa, faltou informação para a sociedade em modo geral, as pessoas estão desassistidas”, afirmou.
Silva relatou ainda que a Acic, que é referência na defesa de direitos e nos processos de habilitação e reabilitação de pessoas cegas, está dando apoio para a mobilização, com intuito de que seja criada uma estrutura de capacitação. “Uma possível nova associação para consolidar de uma forma significativa. Criciúma também pode se tornar referência”, frisou.
O vice-presidente também relembrou um dos relatos mais fortes feitos durante a reunião. “Diz respeito às crianças e aos adolescentes, que estão desassistidos e sem perspectiva de futuro por falta de um norte”, disse.
Segundo o comitê, Criciúma e região ainda têm um longo caminho a percorrer quando se trata de acessibilidade, inclusão e respeito às pessoas com deficiência visual. “O capacitismo, que é o preconceito e discriminação contra pessoas com deficiência, ainda é muito presente, e em grande parte é fruto do desconhecimento sobre nossos direitos e da ausência de políticas públicas efetivas”, afirmou o grupo.
Entre as principais dificuldades já levantadas pelo comitê está a falta de acessibilidade em espaços físicos, digitais, educacionais e culturais. “Temos a convicção de que poderíamos viver em uma região mais inclusiva, que realmente acolha a diversidade humana e reconheça nossas capacidades”, pontuou.
O comitê quer garantir acesso às tecnologias inovadoras, incluindo inteligência artificial, leitura em braille, técnicas de orientação e mobilidade, educação continuada e acesso ao mercado de trabalho. “Não buscamos assistencialismo. Queremos que a sociedade nos reconheça como cidadãos plenos, consumidores, profissionais e protagonistas das nossas trajetórias”, frisou.
Finalidade e áreas de atuação
O comitê tem como finalidade compreender e transformar a realidade das pessoas cegas e com baixa visão de Criciúma e região, promovendo uma cultura de acessibilidade, inclusão e autonomia. O grupo busca dialogar com o poder público, entidades, empresas e toda a sociedade civil, mostrando que as pessoas com deficiência visual podem e devem ocupar todos os espaços.
O trabalho envolve defesa e garantia de direitos, assegurados pela Constituição Federal, pela Lei Brasileira de Inclusão (LBI) e por diversas outras legislações nacionais e internacionais que tratam da igualdade de oportunidades e da eliminação de barreiras; educação, com foco na habilitação e reabilitação, “áreas que hoje não contam com oferta na região”.
O grupo entende que, embora exista o Atendimento Educacional Especializado (AEE), o serviço não é suficiente, pois não oferece formação em tecnologias assistivas, orientação e mobilidade, nem atividades da vida diária, fundamentais para a plena emancipação da pessoa cega. “Além disso, o AEE atende apenas quem está matriculado em escolas, deixando de fora muitas pessoas que perdem a visão na vida adulta e que também necessitam desse apoio”, destacou o comitê.

O comitê apontou ainda que não existe em Criciúma o ensino e acompanhamento no uso de tecnologias, como computadores, celulares e ferramentas digitais que proporciona liberdade, independência e inclusão.
Por fim, que é necessário promover ações educativas, formativas e de mobilização social no fomento à cultura da acessibilidade e combate ao capacitismo.
‘Nada sobre nós, sem nós’
Segundo o comitê, o principal objetivo é construir uma nova entidade representativa das pessoas cegas e com baixa visão, baseada no protagonismo real e na participação democrática. O lema que inspira o grupo é o da Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência: ‘Nada sobre nós, sem nós’.
A futura entidade pretende atuar na defesa e garantia de direitos, habilitação e reabilitação, formação profissional, consultoria em acessibilidade e na promoção de uma cultura inclusiva, justa e participativa.
Primeiras ações
O comitê já realizou algumas ações. Entre elas, um processo de escuta com cerca de 30 pessoas com deficiência visual, a fim de compreender seus desafios, necessidades e desejos coletivos.
“A partir dessa escuta, ficou evidente o anseio por um espaço legítimo de representatividade e pertencimento, o que levou à criação oficial do comitê e ao início do planejamento estratégico para construir uma nova instituição sólida, democrática e autônoma”, afirmou.
Desafios atuais
O grupo reconhece que Criciúma é uma cidade acolhedora e com grande potencial humano, mas ainda carece de formação e compromisso coletivo com a acessibilidade e a inclusão.
O principal desafio, neste momento, segundo o comitê é ampliar a rede de apoio, encontrando pessoas, instituições e organizações que acreditem e colaborem com a construção de um Sul de Santa Catarina mais justo, acessível e inclusivo.
O comitê busca parcerias com o poder público, a sociedade civil e a iniciativa privada, para consolidar um movimento ético, participativo e inovador. "Logicamente precisamos de um espaço, parceiros e recursos para iniciar nosso trabalho, mas não queremos ser aquele modelo de entidade que vive de assistencialismo. Queremos que a sociedade tenha clareza de que nosso grupo é novo, que traz ideias e conceitos novos, e que está realmente comprometido com a construção de novos tempos. Sabemos que a acessibilidade e a inclusão são construções sociais contínuas. Temos clareza de que nossas especificidades muitas vezes são desconhecidas justamente porque não são apresentadas à sociedade. Queremos que, junto com a sociedade, possamos pavimentar este caminho e construir um tempo mais inclusivo, acessível e melhor para todos nós", finalizou.
Conheça o comitê
Francis Guimarães de 32 anos. Analista de qualidade digital, pedagogo pós-graduado em educação especial, especialista em tecnologia assistiva e atual secretário de tecnologia e acesso à informação da Organização Nacional de Cegos do Brasil (ONCB).
Renan Dalponte Cardoso de 30 anos. Analista de qualidade em acessibilidade digital, graduado em gestão da tecnologia da informação.
Daniella Stols Fortunato de 44 anos. Deficiente visual há 9 anos, atleta de bocha pelo Para Desporto.
Dayane Rodrigues de 38 anos. Deficiente visual total, consultora de áudio descrição e acessibilidade, atleta de bocha pelo Para Desporto.
Ana Júlia Vieira de 21 anos. Corredora de rua, estudante de psicologia e vice-presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência de Içara.
Leonardo Apolinário Inácio de 34 anos. Advogado e servidor público do município de Joinville, atuando no cargo de agente administrativo. Natural de Criciúma, viveu na cidade até os 21 anos, onde iniciou sua graduação em direito. Durante esse período, foi presidente da Associação Sul Catarinense de Cegos (ASCC), tendo atuado ativamente na defesa dos direitos das pessoas com deficiência. Participou do Conselho Municipal de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência de Criciúma e do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência de Santa Catarina, consolidando seu engajamento no movimento em prol da inclusão e acessibilidade.
Vittor Teixeira de 27 anos. É o único integrante sem deficiência visual, mas com forte vínculo afetivo com a causa. Vittor é neto de Nei Teixeira, professor de orientação e mobilidade que contribuiu de forma significativa para o desenvolvimento das pessoas cegas de Criciúma e região. Atualmente atua como Superintendente da Juventude no Munícipio de Criciúma.



