Criciúma anuncia criação de complexo para integrar atendimento à população em situação de rua
Central do Recomeço
Novo espaço estará localizado no bairro Capão Bonito

O prefeito Vagner Espindola anunciou na manhã desta segunda-feira, dia 15, a construção da Central do Recomeço, um complexo integrado de atendimento voltado às pessoas em situação de rua. O projeto será implantado no bairro Capão Bonito e reunirá, em um único espaço, políticas públicas de assistência social, saúde, capacitação profissional e encaminhamento ao mercado de trabalho.
O anúncio foi feito pelo chefe do Poder Executivo, acompanhado da secretária de Assistência Social, Dudi Sônego, e do secretário de Saúde, Deivid de Freitas Floriano. Segundo o prefeito, a iniciativa surge a partir da constatação de que os modelos atuais de atendimento já não respondem de forma eficaz à realidade atual da população em situação de rua.
“Há uma sensação generalizada entre as equipes técnicas de que estamos enxugando gelo. As ferramentas que os municípios dispõem hoje já não conseguem ser resolutivas, especialmente diante de um cenário que mudou muito nos últimos 20 ou 30 anos”, afirmou Espíndola.

O prefeito relembrou a experiência que viveu quando esteve pessoalmente nas ruas. “Eu quis estar onde as pessoas estão, respirar o mesmo ar, sentir o que elas sentem e entender se as políticas públicas de acolhimento, tratamento e encaminhamento estavam, de fato, funcionando”, disse.
A partir dessas ações, o município ampliou de 40 para 150 vagas de desintoxicação, encerrando o ano com mais de 450 pessoas que passaram ou continuam em tratamento em clínicas de recuperação. Paralelamente, foram reforçadas as equipes técnicas, com ampliação do número de assistentes sociais e a criação de uma equipe especializada de abordagem social, estrutura que, segundo o prefeito, poucos municípios possuem.
Os resultados, de acordo com a administração, já começaram a aparecer. Cerca de 25 pessoas restabeleceram vínculos familiares, outras dezenas retornaram às suas cidades de origem com passagens custeadas pelo município, e várias foram encaminhadas para programas de capacitação e emprego, além de acompanhamento pelos Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD).
Apesar dos avanços, a gestão identificou que os serviços seguem dispersos fisicamente. A partir de visitas técnicas a outros municípios, surgiu a proposta de centralizar todos os atendimentos em um único espaço. “Essa é uma resposta que Criciúma espera há quase 30 anos, desde a implantação da Casa de Passagem”, afirmou o prefeito.
Para viabilizar o projeto, a Prefeitura encaminhará à Câmara de Vereadores um projeto de lei para aquisição de uma área de 2,1 hectares, avaliada em R$ 750 mil, localizada no bairro Capão Bonito. O projeto deve ser votado nesta sexta-feira, dia 19. O terreno já possui edificações. Mas, após as reformas e construção de novos espaços, o local contará com dormitórios com capacidade inicial para até 40 pessoas, galpões, refeitório e áreas que permitem expansão, além de características rurais e agrícolas.
A Central do Recomeço reunirá serviços atualmente ofertados pelo Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro POP), Casa de Passagem (República), CAPS AD e Central de Emprego. Além do acolhimento noturno, o espaço contará com atendimento psicológico e psiquiátrico, acompanhamento de saúde, capacitação profissional, atividades laborais e apoio para reinserção social.
Entre as parcerias previstas estão instituições como a Abadeus, o Bairro da Juventude, com cursos técnicos, e empresas locais, que poderão utilizar máquinas instaladas nos galpões para treinar e empregar os acolhidos. Também estão previstas atividades agrícolas, como cultivo de hortas, ocupando os usuários de forma produtiva durante o dia.
“Essas pessoas, após a alta da clínica de desintoxicação, muitas vezes retornam às ruas por falta de opção. Agora, elas terão um local para capacitação, trabalho, acompanhamento psicológico e saúde mental, até que alcancem autonomia”, explicou o prefeito.
A secretária de Assistência Social, Dudi Sônego, destacou que mais de 90% das pessoas em situação de rua no município enfrentam dependência química, o que justificou a ampliação das vagas de tratamento logo no início do ano. Ela ressaltou a importância do acompanhamento pós-tratamento, especialmente para aqueles que não possuem mais vínculos familiares.

“Sem apoio e incentivo, a pessoa acaba voltando para a rua. Esse complexo garante acolhimento, capacitação, saúde, empregabilidade e moradia temporária, até que essas pessoas consigam caminhar com as próprias pernas”, afirmou. Segundo Dudi, cerca de 20 pessoas por mês já são encaminhadas ao mercado de trabalho por meio da República, mas ainda havia uma lacuna no atendimento aos que não possuem rede de apoio familiar.
O secretário de Saúde, Deivid de Freitas Floriano, explicou que o município prioriza as internações voluntárias, por apresentarem melhores resultados e menor custo. “O CAPS AD, que hoje funciona no Complexo Santo Agostinho, será transferido para dentro da Central do Recomeço, levando toda a assistência em saúde mental, enfermagem e acompanhamento médico e psiquiátrico para o local”, explicou o secretário.

Protocolos
Conforme o prefeito, o projeto não funcionará como um abrigo sem regras. Haverá protocolos, critérios de permanência e acompanhamento individualizado, com tempo médio de permanência estimado em até três meses, respeitando as particularidades de cada caso. A ocupação será rotativa, permitindo o atendimento contínuo de novos usuários.
A expectativa da administração municipal é de que, após a aprovação do projeto de lei e a regularização documental do terreno. O prazo estimado para a implantação completa do complexo é de até 10 meses.
“Não é algo do dia para a noite. Mas estamos dando um passo histórico para oferecer uma resposta mais eficiente, humana e digna a um problema complexo, com base em dados, indicadores e resultados”, pontuou.



