Déficit de natureza: saúde mental na infância e na adolescência
Estudos demonstram que a interação com o meio ambiente pode reduzir sintomas de ansiedade

A interação de crianças com as telas ocorre cada vez mais cedo e de forma ampla. Cerca de um terço dos usuários da internet no mundo é de crianças de adolescentes, segundo dados da pesquisa TIC Kids online, produzida pelo Comitê Gestor da Internet (CGO.br). Ao todo, 95% das crianças e adolescentes de nove a 17 anos acessaram a internet em 2023. Nas classes AB, 93% acessaram a internet mais de uma vez por dia, nas classes D e E esse percentual caiu para 71%, sendo que a média foi de 83%. Em 2023, 24% dos entrevistados relataram ter começado a se conectar à internet desde o período da primeira infância, ou seja, antes dos seis anos. Em 2015, essa proporção era de 11%. Entre as crianças de nove a 10 anos, 68% disseram ter perfis em redes sociais.
Num mundo cada vez mais digital, a saúde mental das crianças e adolescentes tornou-se uma preocupação central. O uso crescente de telas por essa faixa etária tem levantado questões urgentes, com dados alarmantes indicando um aumento nas taxas de lesões autoprovocadas. Segundo a Secretaria de Políticas Digitais da Secretaria de Comunicação Social (Secom) entre 2019 e 2023, houve um crescimento de 64% nas taxas de lesões autoprovocadas intencionalmente por crianças e adolescentes. Esse dado está diretamente relacionado ao uso de telas conectadas à internet por esse público.
O pediatra Daniel Becker descreve um estudo com 7 mil crianças que mostra que o uso de telas, em menores de um ou dois anos, leva prejuízos ao desenvolvimento motor, cognitivo e emocional, mais tarde nessa criança mais velha. São distúrbios de aprendizado, de fala e de atenção, por exemplo. A arquitetura que privilegia vídeos curtos, comuns às redes sociais, fragmenta a capacidade de concentração das crianças. "Ela vai perdendo a habilidade fundamental da leitura, não consegue fixar a atenção numa fala que dure um pouco mais de tempo porque passa a estar acostumada com a hiper estimulação da troca de conteúdo muito rápida, alerta o especialista.
Paralelamente, é essencial reconhecer o fenômeno do Transtorno de Déficit de Natureza, que destaca os efeitos adversos do distanciamento das crianças do ambiente natural. Estudos demonstram que a interação com a natureza pode reduzir sintomas de distúrbios como déficit de atenção e ansiedade, além de promover um desenvolvimento saudável. Segundo Richard Louv, autor do livro "A Última Criança na Natureza", meninos e meninas que passam mais tempo em frente a telas eletrônicas são menos ativos do que aqueles que desfrutam do contato com a natureza.
Louv baseia-se na hipótese da biofilia de Edward Osborne Wilson, da Universidade de Harvard, que afirma que os seres humanos têm uma tendência inata de se conectar com a natureza, sugerindo que obedecer a essa conexão traria benefícios ao organismo. Biofilia tem uma explicação etimológica bastante literal: do grego, philia significa amor, enquanto bio significa vida. Logo, podemos traduzir em um primeiro momento como “amor à vida".
Nesse sentido, é fundamental promover atividades ao ar livre e incorporar elementos da natureza no cotidiano das crianças. Aqui estão algumas ideias acessíveis para pais e educadores ajudarem no desenvolvimento cognitivo e social dos jovens:
1. Exploração de Parques e Áreas Verdes: Incentive passeios em parques locais, reservas naturais ou áreas verdes próximas.
2. Atividades ao Ar Livre: Organize brincadeiras ao ar livre, como caça ao tesouro, piqueniques ou acampamentos no quintal.
3. Horta Doméstica: Cultivar uma horta em casa, seja em um pequeno espaço no quintal ou até mesmo em vasos na varanda, proporciona uma conexão direta com a natureza.
4. Observação da Fauna e Flora: Encoraje as crianças a observar e aprender sobre a vida selvagem local, seja identificando pássaros, plantas ou insetos.
5. Exploração Sensorial: Permita que as crianças explorem a natureza com todos os sentidos, tocando, cheirando e ouvindo os sons ao seu redor.
6. Atividades Artísticas ao Ar Livre: Promova atividades artísticas, como pintura ou desenho, em um ambiente ao ar livre, inspirando-se na natureza que as cerca.
7. Leitura ao Ar Livre: Estimule a leitura de livros sobre a natureza enquanto desfrutam do ar livre, criando um ambiente propício para a aprendizagem e a apreciação do meio ambiente.
Ao integrar essas práticas simples no cotidiano das crianças e adolescentes, podemos não apenas equilibrar os efeitos negativos do déficit de natureza, mas também promover um desenvolvimento cognitivo, emocional e social saudável, preparando-os para um futuro mais sustentável.



