Geral

Do Chuí ao Oiapoque: de passagem pelo Sul de SC, mineiro percorre o litoral do Brasil de caiaque

Viajante no mar

Em três anos, Diogo Aguiar planeja concluir percurso de mais de 8,4 mil quilômetros

Por Lucas Renan Domingos16 de março de 2026 6 min de leitura
Arquivo Pessoal/Divulgação

O sonho de viver produzindo conteúdos sobre viagem fez o mineiro de Diamantina (MG), Diogo Aguiar, embarcar em uma aventura. A bordo de um caiaque, ele deseja realizar uma experiência inédita em sua vida. As remadas iniciaram em maio de 2025 e, em um período de três anos com pausas estratégicas, o objetivo é cruzar a costa brasileira entre o Chuí (RS) e o Oiapoque (AP), municípios nos extremos Sul e Norte do país, respectivamente.

Desde dezembro do ano passado, ele está em Araranguá. O canoísta precisou “ancorar” o seu caiaque no Sul de Santa Catarina para angariar recursos e seguir a viagem. Durante a alta temporada de verão, ele trabalhou como vendedor de sorvetes e picolés em Ubatuba (SP), município onde morava com a irmã. No fim de fevereiro, retornou para o Sul do país para retomar a viagem nos próximos dias, dependendo apenas das condições climáticas.

“Minha meta é tentar remar pelo menos 30 quilômetros por dia, mas claro que tudo isso depende das condições do mar, do vento, podendo ser mais ou menos. Estou aguardando os próximos dias para ver como estará o clima. A próxima parada será a praia da Cigana, perto do Farol de Santa Marta. É um local mais abrigado, onde consigo acampar”, conta o mineiro.

Viajante desde criança

A paixão pelas viagens não é algo recente na vida de Aguiar. Desde criança ele é acostumado a embarcar em um município e desembarcar em outro na sua própria companhia. Era assim que ainda pequeno, somente com oito anos, o mineiro visitava parentes em cidades do interior de Minas Gerais. Não por coincidência, a profissão escolhida por ele também sempre o levou de um ponto a outro.

“A minha profissão é motorista. Já trabalhei com caminhão, ônibus. Fui manobrista, motorista particular e de aplicativo”, conta. “Sempre viajei muito e quis essa sensação de liberdade, de viajar. Até sou um pouco desprendido da família. Sou apaixonado por eles, mas gosto muito de viajar e ficar alguns dias ou meses longe não me afeta tanto”, afirma.

O caiaque de pesca de Diogo Aguiar no Chuí, começo da viagem. (Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação)

Faltou experiência e sobrou coragem

Navegar por todo o litoral do Brasil não é uma tarefa simples nem para os mais experientes. Para Aguiar, nem se fala. Antes de chegar a Barra do Chuí a sua experiência em um caiaque tinha sido apenas como lazer, em embarcações alugadas por amigos para atividades recreativas.

Além disso, ele fez testes. O primeiro, em um percurso de 14 quilômetros. Depois indo mais para o mar aberto, remou outros 22 quilômetros. E, por fim, foi pescar em um barco em alto-mar para ter certeza que não enjoaria com ondulações maiores. E foi assim que ele resolveu colocar o sonho em prática.

Para dificultar o desafio, comprou um caiaque de pesca para iniciar a viagem. A embarcação, apesar de estável não é recomendada para a travessia e exige mais esforço de quem a conduz. Aguiar ainda optou por outro fator de risco: fazer o caminho no sentido menos comum, do Sul para o Norte.

“O mar do Sul do Brasil é a parte mais perigosa da viagem. Além disso, o vento predominante na nossa costa é o nordeste, ou seja, contra o sentido que estou indo. E quando o vento Sul ou Sudeste aparece, apesar de me ajudar, agita ainda mais o mar”, detalha.

Dicas de uma referência

A ideia, desde o princípio, era fazer todo o trajeto no Sul do Brasil pelo mar, mas logo no primeiro dia o aventureiro teve uma dica de quem entende de expedições em caiaques. Ao sair do Chuí, ele foi recepcionado por Adelson Rodrigues, na praia do Hermenegildo, em Santa Vitória (RS). Rodrigues foi o primeiro brasileiro a remar todo o litoral do Brasil, do Oiapoque ao Chuí, e agora está em uma jornada saindo do Norte do Brasil até o Ushuaia, na Argentina.

O mineiro e Adelson Rodrigues, uma referência em expedição com caiaques. (Foto: Arquivo pessoal/Divulgação)

Levando em conta a inexperiência do novo colega e sendo um conhecedor do mar do Sul brasileiro, Rodrigues aconselhou Aguiar a fazer o trajeto no Rio Grande do Sul por dentro do estado, percorrendo as lagoas. Foi esse o percurso feito por ele mesmo e pela alemã Freya Hoffmeister. Ouvindo quem entende do assunto, o mineiro acolheu a indicação da sua referência em expedições.

“Ele me levou até o Lagoa Mirim e dali eu fui. Passei o Canal São Gonçalo, a Lagoa dos Patos, depois passei as lagoas do Norte do estado, a Lagoa Itapeva e cheguei em Torres, onde o mar já é um pouco mais calmo”, detalha Aguiar.

No meio do trajeto, ele conheceu outros canonistas, como Cristian Fuchs, um dos pioneiros do Brasil na canoagem oceânica. Também teve aulas com o instrutor Leonardo Esch em Maquiné (RS). Trocou o caiaque de pesca por um oceânico, embarcação comprada com o dinheiro da venda do modelo de pesca, somado a ajuda de outros canoístas e com o patrocínio da empresa vendedora. E assim chegou ao Sul de Santa Catarina.

Distância longa e velocidade baixa

Aguiar calcula que entre o Chuí e Oiapoque, sua viagem terá 8,4 mil quilômetros. “Isso sem contar alguns deslocamentos. Aqui em Araranguá, por exemplo, eu remei pelo menos uns 80 quilômetros no rio Araranguá”, soma. Para chegar ao Norte do Brasil, ele passará por 17 estados. O maior litoral é o da Bahia, com mais de mil quilômetros de extensão.

A velocidade máxima de deslocamento em a ajuda do vento é de seis quilômetros por hora, calcula o canoísta. “Agora se for de vento em popa, pode chegar a dez quilômetros por hora, um pouco mais. Só que isso acontece quando tem um vento Sul ou Sudeste, que ao mesmo tempo deixam o mar mais agitado”, explica.

%galeria%

Pelo caminho ele também atravessou dificuldades. E é assim que tem ganhado experiência na canoagem, aumentando a quilometragens de remada e tirando lições com as próprias vivências. “Navegando, uma das coisas que aprendi é que se você tem algo para resolver, resolva sozinho e rápido, sem procurar desculpas. Porque se você parar para esperarem que resolvam por você não vai dar certo. Tem que fazer. Está difícil, mas sou só eu. Então tenho que resolver”, aconselha.

Em Araranguá, Aguiar está finalizando a manutenção de seu caiaque. A expectativa é de que até o dia 20 de março ele vá novamente para o mar, focando sempre no mesmo objetivo: um dia sair da embarcação e pisar no chão do Oiapoque.

Compartilhar:

Notícias relacionadas