Endometriose: entenda a doença que atinge mulheres e é tema no Março Amarelo
Dores limitantes
Diagnóstico precoce preserva a fertilidade e transforma a qualidade de vida

Durante o período menstrual, as mulheres costumam perceber mudanças no corpo e, na maioria das vezes, cólicas. Em boa parte dos casos, as dores são algo normal, mas a partir do momento em que passam a ser fortes, a ponto de a mulher não suportar, um alerta deve ser ligado. Esse é um dos principais sintomas da endometriose, doença que é tema de conscientização durante o Março Amarelo.
A endometriose acomete cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva – representando aproximadamente 190 milhões de pessoas no mundo. No Brasil, os dados do SUS entre 2022 e 2024 registraram crescimento de 76,2% no número de casos. “Esse aumento reflete, principalmente, a melhoria dos protocolos diagnósticos, o avanço da conscientização sobre os sintomas e um fator importante: a mudança nos padrões reprodutivos”, destacou a ginecologista e obstetra, Lisandra Radaelli.
Por engravidarem menos e mais tardiamente, elas ficam expostas a um número maior de ciclos menstruais ao longo da vida. Fator que favorece tanto a manifestação quanto a progressão da doença. “A endometriose ainda permanece subdiagnosticada, com atraso médio de 7 a 10 anos entre o início dos sintomas e o diagnóstico definitivo”, revelou a profissional.
Por isso a importância de um mês específico que trate de forma mais profunda sobre a doença. Principalmente no combate ao subdiagnóstico e na quebra de tabus que ainda cercam a endometriose. “Campanhas de educação em saúde são fundamentais para que mulheres reconheçam seus sintomas, deixem de normalizar a dor menstrual e busquem atendimento em tempo hábil. A campanha também sensibiliza profissionais de saúde, gestores e a sociedade em geral, favorecendo políticas públicas voltadas ao diagnóstico precoce e ao acesso ao tratamento adequado”, destacou a médica.
Como funciona a doença?
Conforme a profissional, a endometriose é uma doença crônica e inflamatória caracterizada pelo crescimento de tecido semelhante ao endométrio (revestimento interno do útero) fora de sua localização habitual. As teorias mais aceitas para explicar seu surgimento incluem a menstruação retrógrada, a metaplasia celômica e a disseminação linfovascular.

“Os focos mais frequentes são os ovários, intestino, bexiga e os ligamentos uterinos. Em casos mais avançados e incomuns, a doença pode acometer estruturas extraabdominais, como o diafragma, os pulmões e, raramente, o coração”, enfatizou.
Além das cólicas menstruais excessivas, outros sinais também são característicos, variando de paciente para paciente e nem sempre refletindo a extensão da doença.
“Os sintomas mais frequentes são: cólicas menstruais de forte intensidade (por vezes incapacitantes), dor durante ou após a relação sexual, dor pélvica crônica (presente ao longo de todo o ciclo), infertilidade (decorrente do comprometimento tubário e ovariano), e sintomas intestinais e urinários cíclicos, como dor ao evacuar ou disúria (especialmente no período menstrual)”, revelou Lisandra.
É importante ressaltar que uma parcela significativa das mulheres é assintomática, sendo a doença identificada apenas durante a investigação de infertilidade.
Diagnóstico e tratamento
O diagnóstico para a doença é clínico-cirúrgico e, se feito precocemente, pode mudar completamente o prognóstico, preservar a fertilidade e transformar a qualidade de vida. “O tratamento é sempre individualizado. Considera fatores como a idade da paciente, o desejo de gestação, os órgãos acometidos e a gravidade dos sintomas. As principais modalidades são: tratamento hormonal, videolaparoscopia e reprodução assistida”, frisou.
A endometriose é progressiva e, sem diagnóstico e tratamento adequados, pode evoluir com complicações importantes como a infertilidade, que está presente em 50% das mulheres com a doença.
“Além disso, ela pode causar complicações como: aderências pélvicas (o processo inflamatório crônico distorce a anatomia e pode afetar órgãos vizinhos), obstrução intestinal, hidronefrose (acometimento ureteral, com risco de perda de função renal) e impacto na saúde mental. Por isso, o cuidado precisa ser integral – não apenas o controle da doença, mas também suporte psicológico e acompanhamento contínuo da fertilidade”, ressaltou Lisandra.
Qual o primeiro passo ao ter uma suspeita?
A médica destacou que o primeiro passo, quando se tem uma suspeita, é buscar atendimento com um ginecologista capacitado, preferencialmente com experiência em endometriose ou em reprodução assistida. “A consulta deve incluir uma anamnese detalhada – com atenção às características da dor, ao padrão menstrual e ao histórico de fertilidade”, explicou.
“A mensagem mais importante é desmistificar a ideia de que cólica forte é normal. A dor não deve ser silenciada – ela é um sinal que precisa ser investigado. Toda mulher que convive com dores limitantes no período menstrual, dificuldade para engravidar ou dor na relação sexual merece uma avaliação cuidadosa”, concluiu Lisandra.



