Geral

Fauna e cultura: como os animais silvestres contribuem na identidade cultural do Sul de SC?

Preservação

Tema vem sendo destacado pelo biólogo e pesquisador Vitor Bastos

Por Patrick Stüpp11 de agosto de 2025 3 min de leitura
Thiago Hockmüller/Arquivo/Portal Engeplus

Além de elementos da biodiversidade, os animais silvestres também podem ser considerados expressões vivas da identidade cultural de uma determinada região, pois fazem partes de músicas, lendas, mitos e histórias. O assunto vem sendo destacado pelo biólogo e pesquisador Vitor Bastos, responsável por afirmar que, no Sul de Santa Catarina, esta relação entre fauna e cultura está sendo um tema esquecido, principalmente no município de Criciúma.

O profissional desenvolve um trabalho de Educação Ambiental e mapeamento voltado aos animais silvestres do Sul catarinense, utilizando armadilhas fotográficas e registros informais de moradores. Desde o início da pesquisa, o biólogo já documentou o reaparecimento de espécies como bugios-ruivos, gatos-do-mato, veados-catingueiros, graxains-do-mato e iraras.

“Recuperar esse vínculo pode ser essencial, não apenas para preservar espécies ameaçadas, mas também para resgatar uma identidade regional esquecida. Determinadas crianças de Criciúma e cidades vizinhas nunca viram um animal nativo da região. Elas reconhecem leões, elefantes e girafas, mas não sabem o que é uma irara ou um gato-do-mato-pequeno. Isso revela um apagamento profundo da nossa identidade ecológica e cultural”, afirmou.

Pesquisador desenvolve trabalhos de Educação Ambiental em Criciúma. (Foto: Divulgação)

Processo de ‘extinção cultural’

O biólogo destacou que esta ausência da fauna regional nos espaços urbanos e no imaginário das pessoas é chamada de ‘extinção cultural’. Para Bastos, isso acontece quando determinado animal desaparece não apenas fisicamente, mas também na memória coletiva dos moradores de determinada região. Com isso, o pesquisador acrescentou que este processo tem impactos diretos sobre o modo como a sociedade valoriza os animais remanescentes da fauna local.

“O Sul de Santa Catarina vive hoje esta realidade. Mesmo em cidades rodeadas por morros, matas e unidades de conservação, como Criciúma, Morro da Fumaça, Içara e Siderópolis, existe uma desconexão entre os moradores e os animais que ainda residem em fragmentos florestais. Isso é resultado do desmatamento da Mata Atlântica, o crescimento urbano sem planejamento e a ausência de políticas de educação ambiental voltadas à fauna local. O problema, porém, não é somente ecológico, é também cultural”, contou.

Tamanduá-mirim é registrado entrando em uma mina pelas câmeras de monitoramento. (Foto: Divulgação)

Importância da preservação

Diferente do Sul de Santa Catarina, o biólogo ressaltou que a relação simbólica entre fauna e cultura ocorre, por exemplo, no Rio Grande do Sul, nas áreas do bioma Pampa. Nesta região, animais como bugios, veados, graxains e jaguatiricas são constantemente mencionados em músicas, poesias e narrativas regionais. Dessa forma, tornando as espécies como parte da identidade da cultura gaúcha.

“Outro exemplo é em São Francisco de Assis, município do interior do Rio Grande do Sul. No local, os bugios-ruivos já se tornaram parte cotidiana da vida urbana. Os animais circulam livremente por áreas arborizadas da cidade, são reconhecidos por seus sons e respeitados pela população. Além disso, em determinados bairros, moradores relatam encontros diários, tomam cuidado ao dirigir para não atropelá-los e contam histórias de convivência com orgulho e admiração”, pontuou.

Aqui em Criciúma, por outro lado, o pesquisador ressaltou que parece os animais, geralmente, não fazem parte das referências culturais. “A fauna não é apenas um objeto de estudo da biologia. Ela é expressão cultural, identidade local e elo com o território. O desaparecimento dos animais silvestres do Sul catarinense revela mais do que uma crise ecológica. Revela uma ruptura simbólica, um vazio afetivo e um empobrecimento do imaginário coletivo. Recuperar esse vínculo é urgente para a natureza, para as cidades e para a cultura”, reforçou.

O trabalho de preservação ambiental do biólogo pode ser acompanhado na página do Instagram Faunativa, clicando aqui.

Compartilhar:

Notícias relacionadas