Fauna e cultura: como os animais silvestres contribuem na identidade cultural do Sul de SC?
Preservação
Tema vem sendo destacado pelo biólogo e pesquisador Vitor Bastos

Além de elementos da biodiversidade, os animais silvestres também podem ser considerados expressões vivas da identidade cultural de uma determinada região, pois fazem partes de músicas, lendas, mitos e histórias. O assunto vem sendo destacado pelo biólogo e pesquisador Vitor Bastos, responsável por afirmar que, no Sul de Santa Catarina, esta relação entre fauna e cultura está sendo um tema esquecido, principalmente no município de Criciúma.
O profissional desenvolve um trabalho de Educação Ambiental e mapeamento voltado aos animais silvestres do Sul catarinense, utilizando armadilhas fotográficas e registros informais de moradores. Desde o início da pesquisa, o biólogo já documentou o reaparecimento de espécies como bugios-ruivos, gatos-do-mato, veados-catingueiros, graxains-do-mato e iraras.
“Recuperar esse vínculo pode ser essencial, não apenas para preservar espécies ameaçadas, mas também para resgatar uma identidade regional esquecida. Determinadas crianças de Criciúma e cidades vizinhas nunca viram um animal nativo da região. Elas reconhecem leões, elefantes e girafas, mas não sabem o que é uma irara ou um gato-do-mato-pequeno. Isso revela um apagamento profundo da nossa identidade ecológica e cultural”, afirmou.

Processo de ‘extinção cultural’
O biólogo destacou que esta ausência da fauna regional nos espaços urbanos e no imaginário das pessoas é chamada de ‘extinção cultural’. Para Bastos, isso acontece quando determinado animal desaparece não apenas fisicamente, mas também na memória coletiva dos moradores de determinada região. Com isso, o pesquisador acrescentou que este processo tem impactos diretos sobre o modo como a sociedade valoriza os animais remanescentes da fauna local.
“O Sul de Santa Catarina vive hoje esta realidade. Mesmo em cidades rodeadas por morros, matas e unidades de conservação, como Criciúma, Morro da Fumaça, Içara e Siderópolis, existe uma desconexão entre os moradores e os animais que ainda residem em fragmentos florestais. Isso é resultado do desmatamento da Mata Atlântica, o crescimento urbano sem planejamento e a ausência de políticas de educação ambiental voltadas à fauna local. O problema, porém, não é somente ecológico, é também cultural”, contou.

Importância da preservação
Diferente do Sul de Santa Catarina, o biólogo ressaltou que a relação simbólica entre fauna e cultura ocorre, por exemplo, no Rio Grande do Sul, nas áreas do bioma Pampa. Nesta região, animais como bugios, veados, graxains e jaguatiricas são constantemente mencionados em músicas, poesias e narrativas regionais. Dessa forma, tornando as espécies como parte da identidade da cultura gaúcha.
“Outro exemplo é em São Francisco de Assis, município do interior do Rio Grande do Sul. No local, os bugios-ruivos já se tornaram parte cotidiana da vida urbana. Os animais circulam livremente por áreas arborizadas da cidade, são reconhecidos por seus sons e respeitados pela população. Além disso, em determinados bairros, moradores relatam encontros diários, tomam cuidado ao dirigir para não atropelá-los e contam histórias de convivência com orgulho e admiração”, pontuou.
Aqui em Criciúma, por outro lado, o pesquisador ressaltou que parece os animais, geralmente, não fazem parte das referências culturais. “A fauna não é apenas um objeto de estudo da biologia. Ela é expressão cultural, identidade local e elo com o território. O desaparecimento dos animais silvestres do Sul catarinense revela mais do que uma crise ecológica. Revela uma ruptura simbólica, um vazio afetivo e um empobrecimento do imaginário coletivo. Recuperar esse vínculo é urgente para a natureza, para as cidades e para a cultura”, reforçou.
O trabalho de preservação ambiental do biólogo pode ser acompanhado na página do Instagram Faunativa, clicando aqui.



