Saúde

Fibromialgia: conheça a doença crônica que provoca dor muscular, fadiga e alterações cognitivas

Diagnóstico

Condição atinge principalmente mulheres entre 30 e 50 anos

Por Jessica Rosso Crepaldi30 de setembro de 2025 7 min de leitura
Ilustração/Freepik

Conviver diariamente com dores intensas, fadiga e limitações físicas é a realidade de muitas pessoas diagnosticadas com fibromialgia. A história da personal trainer Bruna Adriano de Souza, de 36 anos, ilustra uma dessas batalhas, marcada por superação, descobertas e adaptações.

Natural de Criciúma, ela sofre com dores desde os 28 anos de idade e sempre que tem crises por conta da doença crônica precisa ficar em casa e se medicar. Há quatro anos recebeu o diagnóstico que lhe fez compreender o que de fato estava acontecendo com seu corpo, que é também a sua ferramenta de trabalho.

“Eu relatava para a minha ginecologista e ela falava que essa dor era normal devido ao ciclo menstrual, por ficarmos mais sensíveis. Achei que era normal, mas as dores começaram a ficar mais contínuas e foi quando eu resolvi procurar um reumatologista”, lembrou.

Na ocasião, Bruna fez os exames de sangue, mas o profissional só lhe receitou antidepressivos e remédios para dor, que não resolveram. “Ao longo desses anos fiz vários exames para tentar descobrir o porquê de tantas dores, pois eu sou uma pessoa super ativa e já estava perdendo minha qualidade de vida”, frisou.

Após uma consulta com uma médica especializada, ela recebeu o diagnóstico. “Me pediu vários exames e fez alguns testes através de perguntas”, disse.

Gravidade

A preparadora física não tinha conhecimento sobre a gravidade da doença e somente quando descobriu o que lhe causava as dores é que soube que teria que passar por um tratamento específico, e que não seria somente com remédios.

Entre os principais sintomas que ela apontou ter estão a fadiga muscular, principalmente na região das coxas e pernas, formigamento nos calcanhares, tonturas e dor ao toque.

Ela relatou ainda como é a sensação de dor que sente. “Quando alguém encosta em mim com mais força, parece que essa pessoa me deu um soco ou amarrou aquele local, é uma dor de pancada forte com sensação de queimação. Dependendo da crise de dor tenho muita dor de cabeça com náuseas, sem conseguir abrir os olhos direito e perco as forças, todos os meus músculos doem e meus tendões ficam enrijecidos”, relatou.

Atualmente ela faz tratamentos com fitoterápicos, e segue uma alimentação sem glúten, sem leite e sem açúcar refinado. “O que fez eu parar de ter crises contínuas foi tirar 100% o glúten, leite e açúcar da minha rotina”, contou. Além disso, ela faz caminhada leve e utiliza da meditação para controlar a ansiedade. “É um dos fatores que me ataca a fibromialgia”, afirmou.

Uma doença comum

Segundo a fisioterapeuta Fernanda Casagrande Velho Mattioli, que coordena o setor de fisioterapia da Secretaria de Saúde de Criciúma, estima-se que entre 2% e 3% da população brasileira tenha fibromialgia, mas que por ser uma condição subdiagnosticada, os números podem estar mascarados e serem ainda maiores.

“A fibromialgia é uma síndrome de dor crônica generalizada caracterizada por dor musculoesquelética difusa, acompanhada de fadiga, distúrbios do sono, alterações cognitivas, como dificuldade de concentração, e sintomas emocionais. A sua origem está no sistema nervoso central. É como se o cérebro entendesse qualquer estímulo de dor amplificado”, explicou Fernanda.

Além da dor generalizada, os sintomas mais frequentes são: fadiga intensa, mesmo após dormir; distúrbios do sono; névoa mental, gerando dificuldade de concentração, lapsos de memória; rigidez muscular matinal; formigamentos ou sensação de queimação; ansiedade e depressão; dores de cabeça, síndrome do intestino irritável, sensibilidade à luz, ruídos e temperaturas.

Foto: Ilustração/Freepik

Segundo Fernanda, 80 a 90% dos casos são mulheres, sendo mais comum entre os 30 e 50 anos, mas pode ocorrer em qualquer idade, inclusive em crianças e idosos. Além disso, pode causar alguns impactos, como causar o isolamento social e afetar o emocional, com baixa autoestima. A fibromialgia pode ainda causar problemas gastrointestinais como síndrome do intestino irritável, alterações hormonais e de humor; dificuldade em manter rotinas simples e impacto na vida sexual e familiar.

No dia a dia, a doença pode afetar diretamente a vida profissional e pessoal. “Diminuição da produtividade e absenteísmo no trabalho tendo como consequências trocas frequentes de emprego por não conseguir manter a rotina. Dificuldade em realizar atividades domésticas, cuidar de filhos ou se exercitar, gerando impacto nos relacionamentos afetivos por incompreensão da doença”, detalhou a fisioterapeuta.

Opções de tratamento

A profissional explicou que o tratamento é multidisciplinar e individualizado e que inclui medicamentos como: antidepressivos (como duloxetina, amitriptilina); anticonvulsivantes (como pregabalina e gabapentina); analgésicos e relaxantes musculares em alguns casos e suplementos (como magnésio e vitamina D, se houver deficiência). Além disso, o tratamento é feito também com exercício físico regular e orientado, psicoterapia utilizando terapia cognitivo comportamental (TCC); técnicas de relaxamento, meditação, acupuntura e educação do paciente e apoio familiar.

Ela relatou ainda que o exercício físico é essencial no tratamento. “Melhora a circulação e a resistência muscular, aumenta a produção de endorfinas que são os analgésicos naturais, melhora o sono, humor e disposição”, afirmou.

O que esperar do futuro?

A fisioterapeuta afirmou que pesquisas recentes estão aprofundando o entendimento sobre os mecanismos da fibromialgia. “Isso pode levar a diagnósticos mais rápidos e precisos e a tratamentos mais direcionados. Novos medicamentos estão em desenvolvimento para atuar de forma mais eficaz nos sintomas centrais, como dor crônica, fadiga e distúrbios do sono”, enfatizou.

Mas segundo ela, mudanças no estilo de vida continuarão sendo fundamentais. “Sono adequado, alimentação anti-inflamatória e exercícios de baixo impacto, como caminhada e natação”, acrescentou.

Foto: Ilustração/Freepik

Serviço público

Em Criciúma, pacientes diagnosticados com fibromialgia são encaminhados pelas Unidades Básicas de Saúde (UBS), com recomendação do seu médico especialista para iniciar o tratamento disponibilizado pelo serviço público.

Associação busca ajudar

No Extremo Sul Catarinense existe a Associação Girassóis Fibromiálgicos do Extremo Sul Catarinense. Atualmente ela possui 1.300 membros e promove encontros entre profissionais da saúde e pacientes com diagnóstico de fibromialgia.

O intuito de acordo com a presidente Giselli Cunha é buscar sempre a conscientização da população sobre a fibromialgia, promovendo ações nas praças como o Maio Roxo, que foi realizado no dia 12 de maio deste ano, o Seminário Estadual, Simpósio e Seminários Regionais. “Estamos sempre na luta por políticas públicas de qualidade aos fibromiálgicos”, afirmou.

A associação está presente em 15 cidades da região. “Lutamos por um atendimento que é o ideal a todos os fibromiálgicos. Em Criciúma temos o ‘Integralmente’, com as práticas integrativas que tratam da dor crônica, um espaço com terapias que fazem a diferença e é mantido pelo município”, frisou.

Histórico da associação

Durante a pandemia de Covid-19, em agosto de 2020 foi criado um grupo de mulheres de WhatsApp com fibromialgia, com a intenção de acolhimento e desabafo. O grupo ganhou força traçando objetivos e surgiu a necessidade da criação de uma associação para alcançar mais mulheres com as mesmas condições. A partir disso, os membros procuraram a Prefeitura de Criciúma e a Unesc e foi implantado o Ambulatório de Atenção à Saúde da Pessoa com Fibromialgia (Amasf).

A Associação levou o nome de Girassol, que significa ‘luz’, e hoje é denominada de Associação Girassóis Fibromiálgicos do Extremo Sul Catarinense.

Novos grupos foram sendo criados na região Sul, e com a isso a associação ganhou uma proporção ainda maior, afirmou Giselli. “Temos tantas outras coisas que ainda temos a conquistar, mas o que já conseguimos, nos traz além de uma vida melhor, muita esperança, de leis, de tratamento, de visibilidade, projetos públicos e de respeito pela nossa síndrome que é invisível aos olhos, mas as dores e nós somos reais”, concluiu.

Entre os benefícios já conquistados pela associação estão o cordão do girassol; a carteirinha de prioridade, a carteirinha de estacionamento de vaga com deficiência; parcerias com médicos especializados e compra do cannabis com preço acessível; consultas on-line com médicos de forma mais acessível, aposentadoria, isenção de alguns impostos e medicamentos pelo SUS.

Mais informações sobre a associação podem ser encontradas na página oficial.

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