Graffiti, picho e pixo: um olhar além do vandalismo
UniSatc
As três práticas são feitas nos muros da cidade, mas apenas o grafitti é visto como arte

O debate em torno do graffiti e do picho transcende a questão do vandalismo, inserindo-se na recusa social em reconhecer a voz e a estética das classes populares no espaço público. Para as classes marginalizadas, o graffiti é descrito como uma forma de reivindicar o espaço negado pelas instituições. A intervenção nos muros é frequentemente interpretada como um desafio à ordem urbana e à estética dominante, posicionando o artista ou o pichador como um agente de desorganização.
O picho, em particular, é visto por seus praticantes como uma maneira de afirmar identidade e registrar presença. É uma intervenção intencional que busca comunicar, confrontar e provocar reflexão utilizando a alta visibilidade dos espaços urbanos. Dessa forma, a discussão sobre graffiti e picho aborda não apenas a legalidade da pintura, mas a questão de quem tem permissão para deixar sua marca.
Para os pichadores e grafiteiros Vatos e Keor, o ato é uma constante de questionamento social e uma afronta direta ao sistema de exclusão. Embora tenham desenvolvido os estilos de picho e graffiti nos cadernos escolares, foi apenas na adolescência, integrados à "cena", que passaram a ocupar as paredes. A união de seus talentos, Vatos focado nas frases e Keor nos desenhos, resultou na criação de sua própria crew. O significado, contam eles, é intrinsecamente pessoal: "Eu lembro quando fui trabalhar em Manaus, quando eu conseguia eu pichava meu nome, então tem um pedaço da minha história lá", relatou Vatos. Tais memórias reforçam a essência do picho: deixar uma marca pessoal e histórica, sinalizando que a existência de críticas é prova da existência de problemas sociais.
Para o artista e professor de história Vilocs, além da ilegalidade, o problema do preconceito voltado a essa arte reside na origem marginal do movimento. “O grafismo que a gente conhece hoje, ele vai pegar o seu auge no século 20, nos anos 70, nos Estados Unidos, principalmente em Nova Iorque, que vai vir também com a comunidade negra. Na minha visão, é aí que começou a vir essas proibições”. O estilo, a tipografia e a própria cultura do spray carregam o estigma da periferia, refletindo o elitismo que, historicamente, desvaloriza a arte nascida nas comunidades negras e nas favelas.
Por isso, mesmo um mural aclamado pode ser visto com desconfiança se a estética remeter à crueza e à urgência do picho, perpetuando o ciclo onde a arte só é considerada legítima quando feita pela elite. Segundo Vilocs, essa é uma crítica que se estende até mesmo à arte indígena, frequentemente reduzida à categoria de "artesanato". Nesse contexto, o muro se torna um campo de batalha onde se disputa não apenas espaço, mas quem tem o direito de afirmar sua presença e escrever a história da cidade.
O picho é o grito da resistência
O picho representa uma forma de intervenção mais crua, direta e intencional do ambiente urbano. Para muitos, está longe de ser apenas um rabisco, mas sim uma ação que busca comunicar e provocar reação, utilizando a máxima visibilidade dos espaços da cidade como seu suporte. Não se trata de embelezamento, mas de uma linguagem de urgência. O picho é, fundamentalmente, um ato político e social de retomada de território. Para comunidades e indivíduos que são sistematicamente marginalizados e invisibilizados, a assinatura (tag), escrita nas alturas ou em pontos de destaque, é a ferramenta mais eficaz para demarcar a sua existência.
O muro, nesse contexto, deixa de ser patrimônio passivo e se torna o único palanque acessível, onde a mensagem não pode ser filtrada. O picho, se considera então, é a forma que a periferia encontra de afirmar, com letras pontiagudas e desafiadoras, que aquele espaço, físico e social, também lhe pertence. Ele seria a história não oficial da cidade, escrita de baixo para cima.
A análise do picho é essencial para desmistificar a arte urbana, um trabalho que Joici Clemencia Machado, professora de arte e idealizadora do projeto Ação Mural, realiza em sua atuação ligada à cultura hip-hop. Uma das ações do projeto, realizadas no bairro Renascer, foi revitalizar a parede de entrada do projeto Nunca Pare de Sonhar, e as próprias crianças que frequentam o espaço participaram do processo. “Nós representamos várias casinhas lado a lado, e muitos se identificaram com o cenário. Para trazer vida e esperança, pintamos cada casa com uma cor diferente, simbolizando uma comunidade diversa e vibrante. Essa foi uma forma de valorizar um território que, muitas vezes, é negligenciado pelo poder público e estigmatizado por questões sociais, lembrando que ali existem pessoas, com suas culturas, suas histórias, seus sonhos e afetos”, afirmou.
Joici também destaca que um dos objetivos centrais do seu trabalho é justamente ajudar o público a compreender melhor as diferenças entre picho e graffiti, apresentando sua construção histórica e problematizando as motivações que atraem os jovens. “(No projeto) Tivemos a participação de um adolescente de 12 anos que foi acompanhado dos pais que permaneceram até o fim. No intervalo, o pai nos contou que agora tudo fazia sentido, pois compreendeu as motivações culturais e históricas por trás dessas expressões”, destacou.
Enquanto o projeto Ação Mural oferece um processo experimental, controlado e seguro para a criação artística, a intervenção na rua carrega o que é chamado de ato transgressor, ir contra regras impostas em prol da liberdade de expressão, sendo, portanto, um ato efêmero, marginal e instantâneo. Contudo, ao discutir “por que” essas manifestações existem, e ao reconhecer que o graffiti envolve contextos históricos, disputas, problemas sociais e territorialidades, o projeto consegue desconstruir a visão superficial.
Picho, pixo e grafitti
No cenário artístico urbano brasileiro existem três termos que são utilizados para nomear as manifestações registradas nas paredes e muros das cidades: Graffiti, Picho e Pixo. Esses três termos são frequentemente utilizados, mas carregam significados, técnicas e intenções completamente diferentes. Longe de serem sinônimos, eles expressam diferentes tipos de manifestações feitas com diferentes objetivos, que vão desde embelezar a cidade com desenhos, formas e cores, até denunciar alguma negligência estatal ou preconceito e injustiça social, utilizando de frases, desenhos e rabiscos que priorizam transmitir o desconforto da mensagem a seguir o padrão de beleza artístico.
Picho: É uma forma generalizada e ampla de se referir a frases, desenhos e rabiscos que sejam feitos em espaços urbanos. “O picho é algo natural do ser humano, os registros nas épocas das cavernas é uma forma de picho, e hoje em dia nós ainda carregamos esse hábito”, explicou Vilocs. É caracterizado como picho todo o tipo de expressividade urbana que não segue regras de estética, seja assinar uma tag (assinatura do pichador) em um muro com spray ou escrever um poema na porta de um banheiro público. E por ser uma forma que pessoas à margem da sociedade utilizam para obter voz, grande parte das pichações são feitas sem permissão, o que caracteriza a maioria das pichações como atos de vandalismo. O picho não requer nenhum tipo de material específico para ser feito, portanto os pichadores utilizam dos materiais que estiverem à sua disposição no momento, sejam eles tintas em spray, canetas, marcadores ou qualquer outro material que os permita registrar a sua mensagem.

Graffiti: Apesar de também ser uma forma de expressão e protesto nos muros da cidade, por ter o potencial de se tornar uma profissão e se enquadrar mais nos padrões de beleza artística, utilizando de cores, formatos e desenhos, o grafitti acaba por ter uma melhor reputação perante a sociedade. “O grafitti a sociedade gosta porque é um desenho coloridinho, enquanto o outro (picho) que é a expressão mais pura da sociedade, mais sujo, as pessoas querem dizer que não é arte, sem nunca terem estudado sobre isso”, ressaltou o grafiteiro Caju. Sendo assim, o grafitti acaba recebendo validação como uma manifestação artística que busca colorir e revitalizar os espaços urbanos, que muitas vezes acabam por ser muros ou paredes pichadas. O grafiteiro utiliza tintas, sprays, rolos e diversos materiais para criar imagens e mensagens que são apreciadas pelo público.

Pixo: Trata-se de um movimento específico e organizado, que surgiu nas periferias de São Paulo na década de 1960 devido à Ditadura Militar, onde pessoas que eram contra o regime utilizavam o muro como forma de protesto ao cenário que o país estava enfrentando. Diferentemente do picho comum, que não segue um padrão de estilo, o pixo nascido em São Paulo possui uma configuração de letra específica, chamada de pixo reto, um estilo de letra que se desenvolveu tendo como influência as capas de discos de punk e metal da época. “O pixo reto é um picho que só tem no Brasil, porque nasceu em São Paulo, lá na Venezuela tem tags e picho, mas o pixo reto é só aqui”, explicou Vatos. A estética do pixo reto é caracterizada por tags feitas com grandes letras, que possuem um estilo próprio conhecido como tag paulistano, e é frequentemente pintado com rolo, tinta e spray em prédios e viadutos, buscando lugares em que a sua mensagem ou tag possa causar o máximo de impacto. Além disso, o pixo é feito de forma coletiva, sendo praticado por grupos organizados, chamados de crews, enquanto o picho é, muitas vezes, um ato individual.

O picho e o afronte político
O picho, em sua forma mais intencional e direta, transcende o simples ato de rabiscar muros. Ele se afirma como uma ferramenta de crítica e enfrentamento social, sobretudo por meio de frases que condensam urgência, revolta e reivindicação. É através dessa linguagem de choque que artistas urbanos confrontam o sistema de exclusão e inscrevem pautas sociais no espaço público.
Para artistas como Vatos, o picho sempre foi um modo de interrogar a sociedade e desafiar estruturas que historicamente marginalizaram a periferia. Dentro de sua crew, sua principal contribuição é justamente a criação de frases que transformam o muro em um espaço de denúncia, exposição e provocação. Expressões como “Somos marionetes da moda!!” e “Almas vendidas por: Dr***, se** e armas”, entre tantas outras, surgem espalhadas pela cidade como lembretes inconvenientes de contradições que muitos preferem ignorar. Para ele e Keor, esse é o papel essencial do picho: “O picho é para incomodar; se ele existe, é porque existe algo de errado”.
A função de denúncia também orienta o trabalho de Vilocs, que utiliza o picho para levantar bandeiras de relevância social, como no grito “Vidas Negras Importam”. Essas frases não são apenas manifestações de resistência, são a materialização da experiência de quem busca visibilidade e escreve sua própria narrativa em uma cidade que, muitas vezes, não a reconhece.
Texto escrito por Lorraine Mazucheli e Nicoly Santos (acadêmicas do curso de Jornalismo do UniSatc – Centro Universitário SATC), sob supervisão da professora Nádia Couto.



