Inflamações na gengiva ampliam risco cardiovascular
Saúde
Doença periodontal está associada ao maior risco de eventos cardiovasculares

Uma gengiva que sangra durante a escovação costuma ser interpretada como um incômodo banal do cotidiano. Contudo, o sinal aparentemente discreto pode indicar um processo inflamatório com repercussões que ultrapassam a cavidade oral e dialogam com outras áreas do organismo.
A Organização Mundial da Saúde (OMS), aponta que as formas graves de doença periodontal afetam mais de um milhão de pessoas no mundo. Ela ainda eleva em 19% o risco de doenças cardiovasculares, percentual que pode alcançar 44% entre pessoas abaixo de 65 anos de idade. Esse conjunto de indicadores reforça a centralidade do cuidado preventivo e amplia o diálogo entre diferentes áreas da saúde.
O Dia Mundial da Saúde Bucal, celebrado nessa sexta-feira, dia 20, reforça a conscientização sobre a importância da higiene oral e a prevenção de doenças que afetam 3,5 bilhões de pessoas no mundo, segundo o Conselho Federal de Odontologia (CFO).
A data destaca, ainda, que uma boca saudável é fundamental para o bem-estar geral, influenciando a saúde do corpo todo.
A boca como parte do organismo
Durante muito tempo, a Odontologia concentrou o olhar clínico em dentes e gengiva de forma isolada. Esse paradigma começou a mudar a partir da década de 1990, quando estudos passaram a evidenciar a conexão entre inflamações bucais e outras condições do organismo.
“A área odontológica era vista principalmente como voltada para dentes e gengiva de forma isolada. Nos últimos anos começaram a surgir estudos mostrando que doenças da gengiva estavam associadas a complicações como diabetes, doenças cardiovasculares e complicações na gestação”, afirma a cirurgiã-dentista Thaise De Stefani.
Conforme a profissional, esse acúmulo de evidências conduziu a Odontologia a ampliar o campo de análise clínica. “Hoje entendemos a boca como parte do organismo. Inflamações crônicas na gengiva não ficam restritas à cavidade oral e podem repercutir no corpo todo”, observa.
A ligação central entre a doença periodontal e as doenças cardiovasculares reside no processo inflamatório. Quando a gengiva permanece inflamada, bactérias e mediadores inflamatórios podem alcançar a corrente sanguínea e circular por diferentes tecidos e sistemas do organismo. “Essas bactérias e mediadores inflamatórios podem entrar na corrente sanguínea e contribuir para processos inflamatórios em outras partes do corpo, inclusive nos vasos sanguíneos”, explica Thaise.
Inflamação e risco cardiovascular
Esse mecanismo inflamatório também é observado na prática clínica da cardiologia. O médico cardiologista Christian Dal Pont destaca que estudos populacionais e meta-análises apontam associação significativa entre doença periodontal e maior risco de doenças cardiovasculares.
“Existe associação entre saúde bucal precária, especialmente a doença periodontal, e aumento do risco de doença arterial coronariana, acidente vascular cerebral e mortalidade cardiovascular”, afirma.
De acordo com Dal Pont, indivíduos com periodontite moderada ou grave apresentam maior probabilidade de desenvolver eventos cardiovasculares, mesmo quando se consideram fatores de risco tradicionais, como tabagismo, obesidade e hipertensão.
“Estudos indicam que a presença de periodontite está associada a uma razão de chances de 1,24 para doença cardiovascular aterosclerótica em adultos. A perda dentária e a gengivite também aumentam o risco de acidente vascular cerebral e doença cardiovascular, especialmente em pessoas acima de 50 anos, obesas ou fumantes”, explica.
Apesar dessa associação consistente, o cardiologista ressalta que a doença periodontal não atua como único possível fator dos eventos cardíacos. O processo inflamatório sistêmico, contudo, integra o conjunto de fatores que contribuem para o desenvolvimento dessas enfermidades.
Sinais silenciosos da doença periodontal
Outro fator que sustenta a doença periodontal como desafio de saúde pública é o caráter silencioso de sua evolução. Em muitos casos, os sintomas surgem apenas quando a inflamação já alcança estágios mais avançados.
Entre os principais sinais de alerta estão sangramento durante a escovação ou uso do fio dental, gengiva avermelhada ou inchada, mau hálito persistente, retração gengival e sensibilidade dentária. “Um ponto importante é que sangramento gengival é um sinal comum de inflamação e merece avaliação. Muitas pessoas consideram normal sangrar ao escovar os dentes, mas isso pode indicar inflamação. Nos quadros mais avançados, a doença pode comprometer a sustentação dos dentes e provocar mobilidade dentária”, alerta Thaise.
Prevenção desde a infância
A construção de hábitos de higiene bucal desde a infância integra a estratégia de prevenção dessas doenças ao longo da vida. O acompanhamento precoce permite consolidar práticas de cuidado que reduzem a incidência de problemas bucais na vida adulta.
“A infância é o momento em que se formam os hábitos de saúde. Crianças que crescem com acompanhamento odontológico e orientação adequada tendem a chegar à vida adulta com menos doenças bucais”, afirma.
No cotidiano, medidas simples sustentam a base da prevenção. Escovar os dentes pelo menos duas vezes ao dia com creme dental fluoretado, utilizar fio dental diariamente e realizar consultas odontológicas periódicas compõem o conjunto de práticas que ajudam a manter a saúde bucal.
“O fio dental desempenha papel central nesse processo. A escova não consegue alcançar completamente as áreas entre os dentes. Nessas regiões a placa bacteriana se acumula com mais facilidade e pode iniciar processos inflamatórios”, enfatiza.
Cuidado integrado
A relação entre saúde bucal e cardiovascular também começa a influenciar a forma como médicos e dentistas conduzem a prevenção. Avaliações odontológicas já integram, em muitos casos, exames pré-operatórios e acompanhamentos clínicos.
“Existe hoje uma visão muito mais integrada entre Medicina e Odontologia. Identificar e controlar inflamações bucais passa a ser parte importante da prevenção”, destaca Thaise.
Essa integração também aparece nas recomendações de instituições médicas internacionais e de sociedades científicas. A American Heart Association indica que o controle da doença periodontal e a redução da inflamação oral podem contribuir para estratégias de prevenção cardiovascular.
Colaboração: Marciano Bortolin



