Medicamento promete retardar a progressão do Alzheimer
Embora não cure a doença, testes indicam aumento na qualidade de vida dos pacientes
Por Roberta Mânica
4 min de leitura

A pesquisa sobre a doença de Alzheimer no Brasil tem avançado significativamente nos últimos anos, contribuindo para uma melhor compreensão dessa condição devastadora e abrindo novas perspectivas para tratamentos mais eficazes. Cientistas brasileiros estão na vanguarda dos estudos que investigam as causas, os mecanismos e as possíveis intervenções terapêuticas para o Alzheimer, uma das principais causas de demência no mundo.
Nesta terça-feira (2/7), a Food and Drug Administration (FDA), a agência federal do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, aprovou o "donanemab", um anticorpo concebido para retardar a progressão da doença de Alzheimer sintomática precoce. Aindas em fase de testes e com preços elevados, será vendido por aproximadamente R$ 70 mil para um tratamento de seis meses ou cerca de R$ 181 mil por um ano, dependendo do paciente.
Embora donanemab não seja capaz de curar a doença, os ensaios clínicos demonstraram que ele retarda a progressão da doença, permitindo ao paciente viver uma vida independente e com autonomia por mais tempo e participar com segurança em atividades cotidianas. Durante os ensaios, 2% dos pacientes experimentaram eventos adversos graves, comparado a 1,7% no grupo placebo. A empresa farmacêutica ajustou o protocolo dos ensaios para incluir uma ressonância magnética adicional antes da segunda dose para evitar complicações.
Alzheimer Precoce: desafios no diagnóstico
Enquanto a maioria das pessoas com Alzheimer experimenta perda de memória como o primeiro sinal da doença, indivíduos com Alzheimer precoce tendem a apresentar outros sintomas. Essa versão da doença pode surgir a partir dos 30 anos e inclui dificuldade de atenção, menor capacidade de imitar gestos das mãos e piora da consciência espacial. Esses sintomas frequentemente são percebidos como temporários, atrasando a procura por avaliação médica. Além disso, profissionais de saúde podem interpretar erroneamente o nervosismo exacerbado como indicação de outras condições.
Progressão e impacto do Alzheimer precoce
Estudos indicam que indivíduos com Alzheimer de início precoce apresentam mudanças mais rápidas no cérebro, sugerindo que a condição pode ser mais agressiva do que a de início tardio. Isso também explicaria porque pessoas com demência precoce tendem a ter uma expectativa de vida cerca de dois anos menor do que aquelas com Alzheimer de início tardio. Adicionalmente, a ansiedade é um sintoma comum entre aqueles com Alzheimer precoce, muitas vezes devido à consciência das mudanças cognitivas sem uma explicação clara.
Avanços recentes na pesquisa sobre Alzheimer no Brasil
1. Identificação de Biomarcadores
- Em 2022, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) descobriram proteínas específicas no sangue associadas ao início da doença. Esses biomarcadores podem prever o desenvolvimento do Alzheimer antes dos sintomas, possibilitando diagnósticos mais precoces e intervenções mais eficazes.
2. Estudo dos Mecanismos Celulares
- Pesquisas do Instituto do Cérebro do Rio Grande do Sul, realizadas em 2021, revelaram como as células gliais desempenham um papel crucial na inflamação cerebral associada ao Alzheimer. Esse entendimento pode levar a novas abordagens terapêuticas que retardem a progressão da doença.
3. Desenvolvimento de Terapias Inovadoras
- Em 2023, pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) exploraram o uso de nanopartículas para administrar medicamentos diretamente ao cérebro. Ensaios clínicos preliminares mostraram que essa técnica pode melhorar as funções cognitivas em pacientes com Alzheimer.
4. Genética e Fatores de Risco
- Estudos genéticos realizados no Brasil, como o de 2020 pela Fiocruz, identificaram variantes genéticas que aumentam o risco de desenvolver Alzheimer. Esses dados são essenciais para desenvolver terapias personalizadas e estratégias de prevenção mais eficazes.
Perspectivas Futuras
Com a aprovação de donanemab e os avanços na pesquisa, o futuro parece promissor para o combate ao Alzheimer. A continuidade dos estudos e o apoio a iniciativas de pesquisa são fundamentais para que essas descobertas sejam traduzidas em benefícios reais para os pacientes. O Brasil, com sua crescente colaboração internacional e inovação tecnológica, está bem posicionado para liderar avanços significativos para oferecer mais dignidade aos pacientes e seus cuidadores.
Referências
1. Universidade de São Paulo (USP). (2022). "Proteínas específicas no sangue associadas ao Alzheimer". Journal of Alzheimer's Disease.
2. Instituto do Cérebro do Rio Grande do Sul. (2021). "O papel das células gliais na inflamação cerebral associada ao Alzheimer". Neurobiology of Aging.
3. Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). (2023). "Uso de nanopartículas para tratamento do Alzheimer". Nanomedicine.
4. Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). (2020). "Variantes genéticas associadas ao Alzheimer no Brasil". Genetics and Molecular Research.



