MPSC firma TAC para regularização de loteamento clandestino em São João do Sul
Mercado imobiliário
Acordo prevê regularização, fim de vendas e R$ 184 mil em indenizações à fiscalização

Um casal, responsável pela implementação de um loteamento irregular em São João do Sul, terá que pagar uma indenização de R$ 184 mil, destinados à fiscalização do Município e ao Fundo para Reconstituição de Bens Lesados (FRBL). A decisão foi adotada através de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado pelo Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), por meio da 3ª Promotoria de Justiça de Sombrio.
Segundo o MPSC, os envolvidos promoveram o parcelamento irregular de uma área, localizada na Rua Manoel Borges Vieira, e que já haviam comercializado terrenos no local sem a devida regularização exigida pela legislação.
A medida foi adotada após a apuração, em um inquérito civil, de que os dois promoveram o parcelamento irregular da área e já haviam comercializado terrenos no local sem a devida regularização exigida pela legislação.
Pelo acordo firmado com a Promotoria de Justiça, os responsáveis se comprometeram a regularizar integralmente o loteamento no prazo de um ano, contado a partir da assinatura do TAC, realizada em 18 de setembro.
Para isso, deverão providenciar, por conta própria, todos os projetos, licenças, autorizações e documentos exigidos pelo Município de São João do Sul e pelos demais órgãos competentes, até a aprovação definitiva do empreendimento e seu respectivo registro em cartório. Além disso, enquanto a regularização não for concluída, o casal deverá manter suspensa qualquer venda, promessa de venda, reserva ou transferência de terrenos na área.
Sem a aprovação dos órgãos competentes e sem o registro do loteamento no Cartório de Registro de Imóveis, pessoas que adquirem os lotes irregulares normalmente não conseguem obter a escritura definitiva do imóvel, o que significa que não se tornam proprietários perante a lei.
Além disso, podem surgir dificuldades para financiar o imóvel, vendê-lo futuramente, obter licenças para construir e, em alguns casos, até para acessar serviços públicos essenciais como água e esgoto. Dependendo da situação, o comprador também pode enfrentar longos processos de regularização ou até disputas judiciais envolvendo a posse e a propriedade da área.
Reparação dos danos
Além das medidas de regularização, o TAC prevê o pagamento de aproximadamente R$ 64,2 mil a título de reparação por danos ambientais. O valor será destinado ao Município de São João do Sul para a aquisição de equipamentos que auxiliem na fiscalização urbanística e ambiental, como computadores, notebooks, tablets, celulares, impressoras, mesas de trabalho e armários. O objetivo é fortalecer a estrutura municipal responsável por identificar e combater loteamentos irregulares, evitando que situações semelhantes voltem a ocorrer.
O acordo também estabelece o pagamento de R$ 120 mil por danos morais coletivos ao Fundo para Reconstituição de Bens Lesados (FRBL), que financia projetos de interesse da sociedade, em áreas como a do meio ambiente, da cidadania, dos consumidores e segurança pública.
A 3ª Promotoria de Justiça de Sombrio acompanhará o cumprimento de todas as obrigações assumidas. Em caso de descumprimento injustificado, o TAC prevê multa diária de R$ 1 mil, além da possibilidade de execução judicial das medidas acordadas.
“Os loteamentos irregulares ainda são uma realidade que precisamos enfrentar e a solução passa pela fiscalização com os inúmeros procedimentos que temos na Promotoria de Justiça para responsabilização e regularização das áreas, e também pela conscientização. Temos buscado fomentar uma mudança de cultura, para que a regularização não seja vista como algo a ser resolvido somente depois da ocupação e da venda dos terrenos. O cuidado precisa existir antes. É importante que o cidadão procure informações antes de comprar, que os responsáveis pelos empreendimentos cumpram as exigências urbanísticas e ambientais desde o início e que os Municípios fiscalizem. Assim, conseguimos prevenir prejuízos às famílias, ao meio ambiente e ao próprio planejamento das cidades", explicou a Promotora de Justiça Andréia Tonin.
Fiscalização passou a ser exigida do Município
A identificação do loteamento irregular foi possível através de outro Termo de Ajustamento de Conduta firmado anteriormente entre a 3ª Promotoria de Justiça e o Município de São João do Sul. Esse acordo foi celebrado em agosto após o Ministério Público constatar que o Município não realizava a fiscalização adequada da regularidade urbanística e ambiental antes de autorizar novas ligações de energia elétrica e água.
Pelo TAC, o Município assumiu o compromisso de estruturar um setor específico para fiscalizar pedidos de ligação de serviços essenciais, verificando previamente se os imóveis atendem às exigências urbanísticas e ambientais previstas em lei.
A atuação do MPSC começou a partir de um procedimento instaurado para verificar quais exigências eram adotadas pelos municípios de Passo de Torres, Praia Grande, São João do Sul e Balneário Gaivota antes da autorização de ligações de energia elétrica em imóveis atendidos pela Cooperativa de Eletrificação Rural de Praia Grande (CEPRAG).
Ao final da análise, verificou-se que Passo de Torres, Praia Grande e Balneário Gaivota já possuíam legislação específica e mecanismos de fiscalização adequados. Em São João do Sul, porém, o cenário era diferente. Segundo o MPSC, havia indícios de que as autorizações para ligações estavam sendo concedidas sem a necessária verificação da regularidade urbanística e ambiental dos imóveis. A partir dessa constatação foi instaurado um inquérito civil, que resultou na celebração do TAC com o Município.
Por que essa fiscalização é importante?
Antes de autorizar uma nova ligação de energia elétrica ou água, o Município pode verificar se o imóvel está localizado em uma área regular, se respeita as regras de parcelamento do solo e se não ocupa áreas de preservação ambiental ou espaços destinados ao uso público.
Quando esse controle não existe, loteamentos clandestinos e ocupações irregulares podem acabar recebendo serviços públicos sem qualquer análise prévia. Com o passar do tempo, essas ocupações tendem a se consolidar, tornando mais difícil a organização da cidade, a proteção do meio ambiente e a própria regularização dos imóveis.
Segundo a Promotora de Justiça, a intenção não é prejudicar famílias que já vivem em áreas ocupadas há muitos anos, mas evitar que novas irregularidades continuem acontecendo. "O TAC não prevê o desligamento de imóveis que já possuem energia elétrica ou abastecimento de água. Ao contrário, o documento reconhece a necessidade de um período de transição para ocupações já existentes em núcleos urbanos consolidados, buscando conciliar a regularização urbanística com o direito da população ao acesso aos serviços essenciais. O foco das medidas é aperfeiçoar a fiscalização das novas autorizações e incentivar que a população procure a regularização da sua propriedade e não compre imóveis em locais em que o parcelamento do solo está irregular", completou a Promotora de Justiça.
O que é o FRBL?
O Fundo para Reconstituição de Bens Lesados (FRBL) recebe recursos provenientes de condenações, multas e acordos relacionados a danos causados à coletividade. Os valores são utilizados para financiar projetos voltados à proteção do meio ambiente, da cidadania, dos consumidores e do patrimônio público, beneficiando diretamente a sociedade catarinense.
O Fundo é administrado por um Conselho Gestor composto por representantes de órgãos públicos e entidades da sociedade civil, sob a presidência do Ministério Público de Santa Catarina.



