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Nova história: o relato de quem experimentou as ruas e a miséria

Vencendo as drogas

Ex-dependentes químicos relembram as dificuldades e a luta por um futuro melhor

Por Patrick Stüpp18 de julho de 2023 9 min de leitura
Divulgação

Para alguns, todo processo durante a infância contribui para seguir uma vida presa ao vício e às ruas. Mas no caso de Tiago Júnior Domingues tudo começou a mudar quando decidiu morar em Santa Catarina. Nascido em Porto Alegre, o gaúcho que trabalhava como eletricista recebeu uma proposta de emprego em uma empresa na cidade de Içara.

Toda mudança é um desafio, e não foi diferente para Domingues. No início da sua vinda para o Estado, sua única opção era morar dentro de seu carro. “Eu me lembro que no início, dia 2 de novembro, eu estava sem dinheiro. Não tinha nada. Eu tinha recém-saído da empresa do Rio Grande do Sul, então eu acabava fazendo hora extra, para poder ganhar um valor suficiente para pedir um lanche. Aquela era minha comida do dia”, conta.

Segundo ele, o período morando dentro do seu carro foi de dois meses, até juntar dinheiro suficiente e conseguir dividir uma quitinete com um colega. Foi então que ele conheceu sua atual esposa e logo iniciou o relacionamento. Para ele, tudo desmoronou quando seu amigo de trabalho lhe ofereceu cocaína.

“Eu fiquei curioso. A partir daquele dia eu vivenciei uma das piores fases da minha vida. Porque me viciei. Naquela madrugada não consegui voltar para casa, fiquei a noite toda usando drogas e bebendo. E assim minha vida virou um ciclo, eu estava gastando todo meu dinheiro nisso”, relata Domingues.

Todo dinheiro economizado até então foi gasto com drogas e bebidas. Domingues conta que passou o dia 24 de dezembro inteiro se drogando, e foi naquele momento que decidiu dar “um ponto final” para tudo aquilo. "Eu senti muito forte uma voz que dizia que eu iria superar tudo, mas que eu precisava tomar uma atitude e mudar. Então eu voltei para o Rio Grande do Sul, onde estava minha família, para tentar me recuperar. Quando voltei para Içara em janeiro de 2014 nunca mais usei nenhum tipo de drogas”, explica.

Hoje, Domingues, junto com sua esposa e seus dois filhos, vive uma nova história. Após se recuperar totalmente do vício das drogas, ele iniciou um trabalho voluntário, onde permaneceu durante seis anos, ajudando outras vidas com histórias próximas da sua a saírem da situação de dependência química.

“Tudo que eu passei, eu usei como combustível para me manter de pé. Eu e minha esposa começamos a ajudar algumas pessoas em Criciúma, Içara e Araranguá. Nós levávamos comida, violão, e ali cantávamos e falávamos de Deus para eles. Então nós usamos tudo isso que nós passamos para ajudar outras pessoas”, ressalta.

Esse relato é só um dos mais de 280 mil casos de pessoas que vivem na rua ou já viveram (dados do Instituto de Pesquisa Aplicada do Brasil). Segundo Domingues, o fator crucial na vida dele foi uma tomada de decisão para mudar de vida. “Eu busquei essa mudança em Deus, nunca fui para centro de recuperação nem fiz tratamento, eu digo que meu tratamento foi algo divino, um processo árduo”, finaliza.

Nem tudo começa bem, mas pode terminar diferente

Ao contrário de Tiago Domingues, o funileiro automotivo Everton Lima não cresceu em um ambiente estruturado e acolhedor. Lima não teve contato com a mãe desde os primeiros anos de vida e foi criado pelo pai, que usava entorpecentes. Para ele, sua criação desde pequeno não poderia ser considerada boa. “Ora eu morava na casa de um tio, ora na casa de uma avó. Sempre jogado de um lado para o outro. Como eu não tinha muitas amizades e nem um amor de mãe, cresci muito revoltado”, declara.

Com 15 anos Lima já estava no mundo das drogas e do alcoolismo. Aos 18 anos iniciava a vida no tráfico de ilícitos. Segundo ele, os problemas familiares e com as autoridades fizeram com que perdesse as forças para sair do ciclo no qual se envolveu. “Quando eu fiz amizades surgiram as más companhias, quando me dei conta estava longe da minha família e traficando. Comecei usando a cocaína e foram surgindo drogas mais fortes. Eu também andava fugindo da polícia, mas eu não queria ter nascido assim. Sentia que aquela vida não era pra mim”, relata.

Alguns familiares ainda mantinham a fé na mudança de vida do rapaz, que um dia se sentiu motivado a sair do mundo crime e das drogas. “Estava pensando dentro de mim, fazendo a minha oração, conversando com Deus e vi uma placa com um versículo que dizia que ao me entregar a Deus ele tudo faria. Quando eu li esse verso, automaticamente me iluminou. Entendi que precisava entregar toda a minha vida para Deus, mudá-la. No outro dia eu abandonei tudo que eu fazia de errado”, explica Lima, após se recuperar totalmente do seu passado.

Para a psicóloga Emili Amorim, não existe um motivo único e central para as pessoas viverem em situação de rua e vício. Diversos são os fatores que acarretam esses casos. “Depende de contextos, tem indivíduos que estão nesta situação pois passaram por algum trauma, perda familiar, desemprego ou frustração. Mas não podemos esquecer que muitos têm uma vida estável financeiramente e familiar, mesmo assim acabam vivenciando esse meio”, relata. Ela ainda ressalta que muitas pessoas idealizam as ruas como seu refúgio para fugir desses problemas pessoais.

A especialista em saúde mental ainda reitera que é necessário uma melhora nas políticas públicas no âmbito nacional e ensinar o indivíduo a viver em sociedade novamente. “É um problema cheio de ramificações. Não é só tirá-lo da rua, é dar condições para que mantenha uma vida, para que tenha qualidade de vida. Vamos tirar esse sujeito da rua e vamos colocar onde precisa para ensiná-lo a viver em sociedade de novo”, afirma Emili.

Desafio Jovem: os pioneiros no estado

Em 1978 o pastor Vânio de Oliveira junto à Igreja iniciava um processo de prevenção ao uso de drogas e marcava presença nos colégios palestrando para os alunos. Com o aumento da demanda de pessoas que buscavam auxílio, o pastor reconheceu a necessidade de criar um espaço que abrigasse pessoas dependentes químicas e alcóolicas, e foi em 1985 que oficialmente nascia o Desafio Jovem de Criciúma.

Com 45 anos de instituição, já são aproximadamente 10 mil acolhidos em toda história e mais de 2 mil pessoas reintegradas na sociedade. Oliveira relata que as questões de estrutura e financeiras foram desafiadoras no início do projeto. “Imagina nós numa casa de 100 metros quadrados no máximo aqui e tendo 40 internos. No início é complicado mesmo. As contas de água e de luz já tentaram cortar, pois tínhamos problemas financeiros, e sempre fiz de tudo para impedir. Hoje nossa estrutura tem academia, campo de areia e outras áreas de lazer, além de contar com mais apoiadores”, afirma.

No princípio, o Desafio Jovem contava com a participação de pastores e voluntários, e segundo Oliveira sofriam críticas, pois o único método usado na recuperação era a espiritualidade. Atualmente conta com dois psicólogos, um assistente social e três monitores. “Nós ainda usamos o método espiritual no tratamento, mas foi bom esse aperfeiçoamento, pois profissionalizamos nosso serviço, hoje já são mais de 200 clínicas terapêuticas no estado que se inspiraram na gente”, ressalta.

Para ele, o ideal no tratamento é de no mínimo nove meses para a reestruturação da vida social. Oliveira afirma que qualquer prazo menor que este pode ser de risco para o dependente ou morador de rua. “Este processo não acaba só com a vida da pessoa que mora na rua ou que usa entorpecentes, mas também de toda família. Quem está ao redor nunca está preparado para saber dessa notícia e também passa por um processo de conscientização, mas tudo isso vale a pena. Eu fico alegre em ver muitos desses hoje com uma vida renovada e liberta de tudo isso, pastores, empresários, formados e pais de famílias. Esta é nossa missão, ajudar na transformação”, enfatiza.

O acolhimento das ruas de Criciúma

A Secretaria de Assistência Social e Habitação de Criciúma junto à Adepo (Associação de Assistência Social Deus Provedor) presta um serviço de extrema importância para os munícipes em situação de fragilidade social. A República conhecida como Casa de Passagem é o lugar onde é feito o apoio para aqueles que não possuem lar e não querem dormir na rua. Inúmeros também são os casos de pessoas que vieram de outros estados ou cidades que buscam moradia e são direcionados ao local.

O espaço não é exclusivamente destinado como dormitório, além disso também são ofertados refeições e auxílios para o mercado de trabalho. “Nós procuramos proporcionar tudo que é necessário em um lar para o bem-estar de quem se abriga aqui, todos são dignos de uma boa alimentação, higiene pessoal e um lugar onde possa passar noites longe do frio e da chuva”, comenta o administrador da República, Marcelo Mendes.

O local funciona 24 horas por dia, entretanto até as 19h todos devem estar na casa, que tem capacidade para 50 pessoas. No ambiente o respeito com os funcionários é imprescindível. Além dos monitores, uma assistente social, uma psicóloga e um tradutor poliglota estão à disposição para auxiliar os indivíduos que passam por ali. “A República não é uma moradia fixa, mas busca de todas as maneiras auxiliar, instruir e preparar essas pessoas para se reestruturarem, por isso nossa equipe é especializada e pronta pra receber todo tipo de público que precisar. O foco sempre será a inserção desse cidadão na sociedade”, acrescenta Mendes.

Drogas lícitas e ilícitas mais consumidas no Brasil

Segundo pesquisa realizada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e Lenad (Levantamento Nacional de Álcool e Drogas) em 2020, existem algumas substâncias químicas mais consumidas no país.

De acordo com as entidades, bebidas alcoólicas, tabacos e medicamentos sem prescrições médicas são as três substâncias lícitas mais consumidas por brasileiros, com média de 19 milhões de dependentes, segundo dados de 2020.

Ainda por meio da pesquisa realizada, maconha, cocaína e crack são as três drogas ilícitas mais consumidas por aproximadamente 14 milhões de brasileiros.

* Sob a supervisão de Nádia Couto, professora do curso de Jornalismo do Centro Universitário SATC

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