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Criciúma

Olhar atencioso aos moradores de rua: o trabalho de abordagem da Secretaria de Assistência Social

Equipe acompanha os moradores de rua diariamente

Por Rafaela Custódio

7 min de leitura

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Foto: Rafaela Custódio / Portal Engeplus

Sair de casa para trabalhar, estudar, fazer suas atividades e retornar ao lar é algo prazeroso para muitas pessoas, não é mesmo? Voltar para sua casa depois de um dia cansativo é o desejo de muitas pessoas e não é diferente com os moradores de rua. Muitos buscam uma oportunidade ou até mesmo uma ajuda para se livrar de vícios como drogas e bebida alcóolica.

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Essas oportunidades são oferecidas pela Secretaria de Assistência Social e Habitação de Criciúma. Os profissionais buscam diariamente conversar com moradores de rua e trazer a eles uma nova chance. É bem verdade que muitos não querem e admitem que são usuários de drogas e estão longe de seus familiares por escolhas erradas, mas, antes do julgamento, existe uma história por trás de cada ser humano. A reportagem do Portal Engeplus foi para as ruas de Criciúma com a equipe da Prefeitura e buscou entender o trabalho e conhecer as histórias que muitas vezes não são ouvidas pela sociedade.



Abordagem de rua

Por volta das 21 horas, o secretário de Assistência Social e Habitação de Criciúma, Bruno Ferreira, o assessor do gestor, Alexandre Barcelos, a coordenadora de Proteção Social Especial, Dudi Sônego, e o chefe de divisão, Joelson Andreza, saíram do Paço Municipal em busca de moradores de rua. O objetivo? Entregar cobertores, conhecer as pessoas e oferecer a Casa de Passagem para passar a noite. As entregas aconteceram durante a noite de quinta-feira e madrugada de sexta-feira, dias 27 e 28, respectivamente.

Por mais de três horas, os profissionais percorreram diversos pontos da cidade em busca dos moradores de rua. Ao todo, foram realizadas 13 abordagens nos bairros Pinheirinho, Próspera e Centro. Apenas quatro moradores de rua aceitaram dormir na Casa de Passagem. O restante preferiu continuar na rua e tiveram seus motivos. Conheça abaixo algumas histórias:

Maria* viciada em drogas

A equipe da Prefeitura de Criciúma abordou um grupo com quatro pessoas, sendo dois homens e duas mulheres. Eles estavam dormindo na fachada de um prédio no bairro Pinheirinho. Eles foram abordados e os profissionais ofereceram cobertores e também estadia na Casa de Passagem, porém o serviço foi negado por três moradores e aceito por Maria.

Quando a equipe chegou ao local, Maria estava deitada em papelões e com apenas um cobertor. Ela aceitou ir para a Casa de Passagem, mas pediu que os outros moradores cuidassem de suas coisas.

"Moro há sete meses na rua. Sou de Criciúma e minha família mora no bairro Renascer. Tenho dois filhos e estão com minhas irmãs. Moro na rua por escolha, pois uso crack e também sou viciada em bebida alcoólica", afirmou à reportagem. Maria tem 26 anos e relatou que nunca havia morado na rua, porém foi uma necessidade em virtude de seus vícios. "Durmo às vezes na Casa de Passagem e também utilizo o Centro Pop", acrescentou.

Fernando*: do Rio Grande do Sul a Santa Catarina

Fernando mora nas ruas de Criciúma há três meses. Ele foi abordado logo depois de Maria e o problema é o mesmo: vício em crack. Natural do Rio Grande do Sul, ele tem sete irmãs e é o único homem da família. As drogas o afastaram dos familiares.

"Faço as refeições no Centro Pop e trabalho durante o dia catando latinhas. O quilo é vendido a R$ 7. Já fiquei internado em uma comunidade terapêutica em Tubarão, mas tive uma recaída após 20 dias", contou.

Com 25 anos, Fernando usava bermuda e chinelos, enquanto os termômetros marcavam 12ºC em Criciúma. "Uso crack há dois anos. Casei com uma mulher que mora no bairro Boa Vista e morei com ela, porém não deu certo e acabei indo para as ruas", acrescentou.

A equipe questionou se ele gostaria de ir para a Casa de Passagem, todavia, ele revelou que havia usado drogas. "Não quero ir. Prefiro dormir nas ruas, pois acabei de usar crack e não será legal dormir lá", afirmou. "Tenho meu local que durmo todas as noites e vou para lá", completou.

Antes de seguir seu trajeto, Fernando explicou que havia perdido os documentos, mas que os profissionais do Centro Pop haviam dado encaminhamento para ele refazer. "Isso não é vida para ninguém, mas acabei usando crack pela primeira vez e não consegui mais parar".

Há quatro anos morando na rua

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Mateus* é morador de rua há quatro anos, mas não detalhou o motivo. Ele perdeu a visão do olho esquerdo e enxerga apenas 30% do olho direito. "Sou natural de Morro da Fumaça. Fiz 50 anos em maio e minha família mora em Criciúma. Trabalho com mecânica, mas preciso de um emprego, porém não enxergo bem e isso dificulta no mercado de trabalho", observou. "Enxergo as pessoas, mas não consigo identificar elas. A rua não é um bom lugar, nunca foi. A opressão é horrível. É humilhante. Ficar pedindo comida não é fácil", completou.

Ele estava na Praça do Congresso e recusou ida para Casa de Passagem, porém aceitou cobertor, pois não possuía nenhuma roupa de cama para passar a noite. Além disso, revelou que tem vício em bebida alcoólica.

A última saída foi buscar comida no lixo

Por volta das 23h30, a equipe presenciou um jovem de 23 anos procurando comida em um lixão na área central de Criciúma. O homem foi abordado e revelou que era morador de rua. "Tenho dois filhos, mas eles moram com a mãe. Acabei discutindo com minha ex-mulher e vim morar na rua. Uso crack e durmo no bairro Santa Bárbara", informou Marcus* para a equipe da Prefeitura. Ele ainda contou que seu pai é viciado em bebida alcóolica e as brigas eram constantes em sua casa.

Marcus aceitou ir para Casa de Passagem e no local recebeu alimentação e também um local para dormir.

Uma luz no fim do túnel

O último homem abordado foi encontrado em uma praça no bairro Pinheirinho. Era por volta da meia-noite, quando ele começou a conversar com a equipe. Apesar de não revelar muitos detalhes de sua vida, ele relatou que era usuário de drogas e aceitou ir para a Casa de Passagem. Além disso, concordou também em ir para uma comunidade terapêutica para realizar um tratamento contra seu vício. "Ele passará por exames e, na próxima segunda-feira, será encaminhado para uma comunidade terapêutica", explicou a coordenadora de Proteção Social Especial, Dudi Sônego.

O trabalho vai continuar

O secretário municipal de Assistência Social, Bruno Ferreira, ressaltou que as abordagens irão continuar no município. "Vamos fazer este trabalho com mais frequência, principalmente, porque as temperaturas só tendem a baixar e eles precisam dessas cobertas. Aproveitamos também para conversar com eles, ver as necessidades e oferecer os nossos serviços de acolhimento”, afirmou.

Já Dudi, ressaltou que as abordagens foram positivas, porém alguns serviços oferecidos pela Prefeitura não são conhecidos dos moradores de rua. "Aproveitamos para apresentar os equipamentos que temos e acreditamos que aqueles que não quiserem ir, em algum momento, usarão os nossos serviços”, frisou

Portal Engeplus · Coordenadora de Proteção Social Especial, Dudi Sônego

Centro Pop e Casa de Passagem

O Centro Pop fica localizado na rua Martinho Lutero. Aberto de segunda a sexta-feira, das 8 às 17 horas, o equipamento dispõe de café e almoço, vestuário, sanitários, higiene pessoal, armazenamento de pertences e emissão de documentos.

Já a Casa de Passagem fica na rua Giácomo Sônego Neto, 415, no bairro Pinheirinho e funciona 24 horas por dia. No local são realizados encaminhamentos, prestados auxílios para a elaboração de currículos, além de conter dormitórios, refeições e higiene pessoal à disposição dos usuários.

*Os nomes utilizados na matéria são fictícios para preservar a identidade dos envolvidos.

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