Saúde
Os heróis da recuperação infantil
Visitas de personagens conhecidos das crianças auxilia na melhora dos adoentados
Por Rafaela Custódio
7 min de leitura

Buscar sorrisos, levar alegria e mudar o dia a dia de crianças que estão internadas. Essa é a missão de um homem de 30 anos, que vestiu a fantasia do Homem-Aranha e foi até o Hospital Materno Infantil Santa Catarina (HMISC), de Criciúma, no último sábado, dia 11. Ele aproveita os finais de semana que não trabalha para ir até as instituições.
Assim como o personagem do filme, o Homem-Aranha Carvoeiro, como gosta de ser chamado, está sempre disposto a ajudar moradores de Criciúma e região. O sonho das crianças em estar próximo ao super-herói o fascina. Ele está sempre preparado para colocar a fantasia, oferecer um abraço e, principalmente, arrancar sorrisos dos pequenos e de quem está com eles.

Foi a primeira vez que o Homem-Aranha Carvoeiro esteve em um hospital realizando visita a crianças internadas. Ele já esteve hospitalizado e, por isso, faz tanta questão de acompanhar e apoiar as famílias. “Já estive internado por meningite. É um período difícil. Sofre o paciente e também a família. Precisamos de cuidados, amor e, principalmente, ter fé de que tudo vai dar certo. Por muitas vezes eu quis receber uma visita e um sorriso para poder esquecer por segundos que estava internado”, lembra.
A psicóloga Jéssica Horácio relata que cada pessoa experimenta de uma forma particular o sofrimento, mas é certo que toda dor pede vazão. “Os personagens de desenho animado ou de filmes, assim como os conhecidos doutores da alegria, facilitam a vazão da dor emocional que acomete o paciente enfermo. É uma vazão diferente daquela apresentada pelo psicólogo, mas, ainda assim, possui benefícios importantes para o bem-estar daquele que se encontra em um processo de adoecimento”, afirma.
Para o Homem-Aranha Carvoeiro, fazer o bem nunca é demais e o sorriso das crianças e dos familiares vale mais que qualquer dinheiro. “Nunca vou vestir minha fantasia pensando em receber dinheiro, esse não é intuito. A intenção é arrancar sorrisos, receber abraços e o carinho que as crianças conseguem dar. É diferente saber que as pessoas nem me conhecem, não sabem meu nome e depositam confiança em mim para conversar com seus filhos, isso é muito mais importante do que qualquer dinheiro”, ressalta.
A gerente de enfermagem do hospital Camila Borges comenta que a importância do voluntariado agrega valores importantes à organização. “As visitas enriquecem a sociedade, que recebe em troca cidadãos mais conscientes e com valores internos mais verdadeiros e solidificados, mantendo contato com as crianças, despertando a empatia com o outro”, observa.

Camila percebe ainda que os voluntários se tornam criativos, decididos e solidários. “São capazes de identificar as necessidades dos outros, arregaçarem as mangas e agirem, como são os casos dos personagens heróis que nossas crianças tanto gostam e admiram, como o Homem-Aranha, Batman, Capitão América e também das princesas que tanto encantam nossas meninas, como a Cinderela, Elsa, Anna, Bela entre tantas outras. Outros, preferem atuar em grupos, como vários que já recebemos na instituição, agregando diversos personagens nas visitas. Essas ações deixam as crianças encantadas e motivadas a melhorar e, assim, auxiliam no tratamento”, conta.
A psicóloga afirma que a descontração por meio do riso pode contribuir para o enfrentamento da dor. “Tornar real aquilo que é fantasia também traz ao paciente um modo positivo de ver a vida. O super-herói que luta bravamente para vencer o mal também é sensível e atencioso, oferece suporte a quem precisa e, apesar de não curar uma dor, ameniza”, explica.

Adriana Conceição é mãe do Antonie, de três anos, que está internado por asma. Ela ressalta a importância do trabalho voluntário, que traz mais alegria para as crianças que estão passando por um momento difícil. “Eles não entendem porque estão aqui e é complicado para toda a família. Quando aparece uma pessoa que não conhecemos e arranca um sorriso deles, é algo muito bom para todos nós. Ele mudou em ver o Homem-Aranha Carvoeiro, porque sempre assiste a tudo do
“O olhar empático para com o ser humano sempre fica mais aflorado quando se tratam de crianças. Verificamos a importância dessas ações e as realizações humanas, tanto para quem ‘doa’ quanto para quem ‘recebe’, frente às exigências de dignidade e dos direitos de cada ser humano e, principalmente, frente à promoção do bem comum”, completou a gerente de enfermagem.
“São pessoas desconhecidas, porém, ao mesmo tempo o personagem Homem-Aranha não é. As crianças os conhecem e amam estar perto de alguém que elas só assistiam na televisão. Isso chama atenção e por isso que tenho ainda mais vontade de continuar com o projeto do Homem-Aranha Carvoeiro”, observa o voluntário.
A psicóloga explica que estas atividades de interação funcionam como um método paliativo, ou seja, um modo de aliviar o sofrimento, embora não existam informações exatas a respeito de uma cura. “Ser ouvido, respeitado e considerado faz bem para todo indivíduo, principalmente para aquele que se encontra fragilizado por uma doença. Então, sim, é importante que este tipo de interação aconteça com mais frequência e que também os psicólogos atuem neste cenário hospitalar a fim de proporcionar uma visão clínica aprofundada a respeito de cada personalidade que está diante do adoecimento”, analisa.
“O olhar empático para com o ser humano sempre fica mais aflorado quando se tratam de crianças. Verificamos a importância dessas ações e as realizações humanas, tanto para quem ‘doa’ quanto para quem ‘recebe’, frente às exigências de dignidade e dos direitos de cada ser humano e, principalmente, frente à promoção do bem comum”, completa a gerente de enfermagem.
“Meu filho não tinha dado um sorriso ainda aqui”

Josiane dos Santos é mãe do Nicolas, de três anos, que estava passando por um tratamento para amigdalite. Receber a visita do personagem mudou a rotina da criança. “Foi nítido como ele mudou. Foi lindo ver o rosto de surpreso e, ao mesmo tempo, encantado. Meu filho não tinha dado um sorriso aqui ainda”, lembra.
“São ações como essa que a Comissão de Humanização da Instituição enfatiza quando programam atividades com os pacientes, acompanhantes e colaboradores, sempre mostrando que a empatia com o próximo é a melhor forma de promover o acolhimento e despertar o espírito para um olhar mais caridoso”, considera a gerente de enfermagem do hospital.
A mãe do pequeno Nicolas relata que a presença do personagem é importante não só para seu filho, mas também para outras crianças. “Por minutos, todos se esqueceram de suas dores, de seus problemas. Por aqui, ver seu filho bem e sorrindo é o mais importante. Fico feliz que tenham pessoas que se preocupam com isso e façam a diferença deixando seu lar para trazer esperança as crianças”, apoia.

“Sei que ajudo as crianças, mas garanto: eles me ajudam muito mais. Torno-me uma pessoa melhor a cada dia. Por baixo dessa fantasia existe um homem que se emociona com cada abraço e com cada carinho que recebo, é um sentimento inexplicável”, comenta.
Para a gerente de enfermagem da instituição, a sociedade precisa perceber que ações positivas trazem ainda mais boas ações.
“O ser humano começa a perceber que a reflexão ética de cada um começa com as atividades com o próprio ser humano, despertando o saber e a boa-fé, o modo de agir e de ser perante si mesmo e as outras pessoas, responsabilidade para com o futuro, bem como o respeito pelo presente, ter a capacidade de atuar dentro de um correto sistema de valores, assim possuindo coerência na maneira de ser e de agir”, finaliza.
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