Patrimônios culturais em Criciúma contam a história da cidade para as futuras gerações
Preservação histórica
Estruturas dos espaços deixam as lembranças do passado sempre vivas no presente

Contribuir para o estudo da história na região e deixar as lembranças do passado sempre vivas no presente são características atribuídas aos patrimônios históricos culturais. Lembranças e experiências que são proporcionadas na cidade de Criciúma, por meio da presença de diversos monumentos que a região possui, porque desde o surgimento desses espaços eles buscam contar sem deixar envelhecer a história da cidade para as futuras gerações.
Segundo a historiadora Marli de Oliveira Costa, a memória é um direito consagrado na Constituição Federal, e que acaba se cristalizando em lugares assim. Sejam eles artefatos, obras de arte, edifícios ou até mesmo na natureza. Experiências que fazem reconhecer os momentos passados, trazendo sentimentos e vínculos importantes para a saúde emocional.
“As relações sociais são importantes, porque através dos estudos desses locais sabemos que muitos direitos foram sendo conquistados ao longo do tempo, mostrando à geração presente o valor do que possuem. Portanto, esses lugares de memórias em nossa região ajudam no entendimento da nossa cidadania, além de preservar os acontecimentos da história regional”, explica.
Conforme a historiadora, esses ambientes históricos são uma forma de interação e questionamento sobre a história local. De acordo com ela, ao perceber esses locais podem surgir perguntas e dúvidas, sendo uma forma de procurar respostas para conhecer de forma mais ampla a história da região a que pertencem.
“Ninguém passa sem perceber algo que se diferencia na paisagem. Desse modo, a realização desses questionamentos vai ao encontro do direito à memória. Ao visitar você aprende de forma mais concreta e o local passa a ser visto como belo. Como diria Michel de Certeau, é preciso perceber a beleza do morto, ou seja, a beleza do passado”, destaca.
Visitas e preservação
Marli afirma ainda que a visitação desses ambientes é algo que todos deveriam realizar. Principalmente porque ao visitar esses locais históricos eles podem ser investigados e estudados, proporcionando conhecimentos históricos do momento em que tal local foi erguido e os vários momentos de uso dele.
Alguns equipamentos históricos como o Centro Cultural Jorge Zanatta (CCJZ), Museu Augusto Casagrande, Mina de Visitação Octávio Fontana e Praça da Chaminé Sezostris de Rezende Corrêa contam a história de Criciúma, através das práticas de visitação em seus ambientes.
“Eu realizei com meus alunos e alunas muitas visitas a locais históricos, na finalidade de perceber a história por meio desses locais e assim também valorizar a preservação. Assim, posso garantir que é incrível como uma visita bem planejada leva os estudantes a valorizarem lugares que antes viam como algo considerado velho, desbotado e até sem atrativo na região em que vivem”, completa.
Sendo assim, quando se destrói um lugar de memória, destrói-se um elo entre o passado e o presente. Dessa forma, prejudica-se o entendimento da forma como as antigas gerações viveram. “Como resultado, a preservação de patrimônio histórico é de extrema importância para o ambiente em que ele fica localizado, garantindo múltiplas leituras da história da nossa região”, pondera a historiadora.
Calçadão da Nereu Ramos, 1980 – Arquivo Histórico Municipal Pedro Milanez

Arte escrita em carvão
Se você costuma circular pela área central de Criciúma, certamente já passou por um casarão na rua Coronel Pedro Benedet. O local é o Centro Cultural Jorge Zanatta (CCJZ), sede da Fundação Cultural de Criciúma (FCC). A entidade não tem fins lucrativos, e tem como objetivo difundir e promover atividades artísticas, culturais e turísticas na cidade. Mas nem sempre esta foi a função do prédio.
A casa foi construída a mando da União, nos anos 1940, para abrigar o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM). “Criciúma já era conhecida como Capital do Carvão, e o órgão supervisionaria a atividade carbonífera de toda a região, elaborando mapas e estudos no solo, além de oferecer cuidados médicos aos mineiros”, explica a professora Marli de Oliveira Costa.
O lugar foi o primeiro a receber um equipamento de raios-X e água tratada na cidade. Durante a segunda metade do século 20, o prédio foi sede de outros órgãos de semelhantes atribuições, até o golpe militar. “Após a eclosão do golpe, em 1964, salas do imóvel foram usadas como prisão de lideranças políticas ligadas aos sindicatos e ao Partido Comunista Brasileiro”, conta Marli, lembrando que, além do Centro Cultural, as dependências do atual Colégio Lapagesse também serviram de cárcere durante o regime.
Em 1996 a FCC passou a utilizar todo o casarão, mas o imóvel, que ainda não pertencia ao município, precisava ser restaurado. Revitalização esta apoiada financeiramente pelo empresário do ramo de embalagem plástica Jorge Zanatta, por isso o Centro Cultural leva seu nome. Em 2008 o espaço foi tombado como Patrimônio Histórico da cidade.
Na década de 2010 o casarão estava em situação precária. Isso gerou uma série de protestos e ocupações por uma nova restauração, que só veio após um incêndio em 2017, que destruiu o telhado do espaço, e após o município conseguir a posse da casa. Ela foi reinaugurada em dezembro de 2018.
Hoje a FCC oferece à comunidade 16 oficinas, entre elas violão, piano, pintura, balé e teatro, com aulas ministradas em oito salas no local. O espaço tem também uma galeria para exposição de arte e dois galpões utilizados para eventos. Ali, além das aulas, são elaborados e lançados editais para repasses de incentivos financeiros às atividades culturais de Criciúma.
O professor de contrabaixo do Centro Cultural, César Teixeira, enxerga o local como uma oportunidade. “Tem muito músico bom com didática para ensinar e não tem um lugar para poder trabalhar. É gratificante dar aula aqui, a gente se sente útil para a cidade, de poder compartilhar um pouquinho do que sabemos para ajudar outras pessoas”.
Entrada do Centro Cultural Jorge Zanatta – Foto: Samuel Borges

Da mineração ao principal ponto turístico da região
Um local que transforma o carvão e o trabalho da mineração em atrativo turístico na cidade é característica que pertence à Mina de Visitação Octávio Fontana. O espaço que foi inaugurado em 28 de outubro de 2011 tem o objetivo de unir a história do principal setor econômico com a história do município, sendo uma forma de as pessoas visitarem e conhecerem mais da origem da cidade de Criciúma.
Segundo o diretor de Turismo da Fundação Cultural de Criciúma (FCC), Ismail Ahmad Ismail, antigamente na cidade existia a Mina Modelo, ou seja, a primeira mina de visitação de Criciúma. Porém, devido aos problemas relacionados com a questão da segurança, o local teve que ser fechado.
“A história da mineração com a história da cidade são pontos inseparáveis. Basicamente, é impossível contar a história do município sem passarmos pelo assunto da mineração e do carvão. Então, depois do fechamento da Mina Modelo, foram longos períodos pesquisando um local adequado em que poderíamos manter vivas essas histórias atreladas com o turismo na região”, destaca.
Como resultado, o local escolhido para manter viva essa história de mineração foi a antiga mina São Simão, localizada no bairro Naspolini. Foi concluído que era o melhor lugar para ser a próxima mina de visitação de Criciúma, era o espaço que tinha encerrado suas atividades no ano de 1994.
“Desse modo, ter um espaço na cidade que conte toda a questão da mineração é de extrema importância. Principalmente porque boa parte das famílias criciumenses tiveram sua origem moldada através do trabalho da mineração. Assim, ir em um espaço igual à mina faz essas lembranças sempre ficarem vivas e guardadas em cada uma dessas famílias”, ressalta.
Conforme o diretor, a Mina de Visitação Octávio Fontana costuma realizar um percurso dentro do local, mostrando a origem do lugar e como era realizado o trabalho de mineração em Criciúma. Além disso, o espaço costuma receber aproximadamente 400 pessoas por semana, ainda é uma das seis minas de visitação presentes no mundo e a única no Brasil.
“Sendo assim, por meio desse contexto a mina de visitação é nosso principal ponto turístico na cidade, um espaço que deixa muitas memórias vivas e sempre buscando contar essa parte tão importante da nossa cidade”, completa.
Entrada da Mina de Visitação Octávio Fontana, 2022 – Foto: Patrick Stüpp

Construção da chaminé e formação de comunidades
O minério do carvão e as práticas de mineração são símbolos que representam a história do município de Criciúma, história em sua parte retratada através da Praça da Chaminé Sezostris de Rezende Correa. O local foi inaugurado no ano de 1943 e, atualmente, exerce a finalidade de um patrimônio histórico, buscando guardar memórias e deixar as lembranças históricas tanto da comunidade do local quanto da cidade.
Segundo a historiadora Ana Cristina da Silva, a chaminé localizada na praça é um ponto de memória, principalmente, porque ela busca recontar as histórias da origem da comunidade do bairro Próspera. “A chaminé vem para simbolizar o período da formação do bairro e da riqueza que comandava a cidade naquele período, o carvão. Desse modo, a chaminé acaba sendo um equipamento da formação da história de toda a Próspera, das famílias e das comunidades”, ressalta.
Antigamente, durante a década de 1940, no local existia uma usina elétrica, a usina elétrica da Carbonífera Próspera S.A. Conforme a historiadora, a usina ficava localizada ali na região da praça, criada devido à falta de energia no local. A estrutura tinha como objetivo compensar a falta de energia das minas naqueles períodos, abastecendo com energia elétrica as casas entre 21h e 22h.
“Então, a usina com o fornecimento de energia elétrica nos bairros trazia a qualidade para o bairro e fazia as pessoas se sentirem melhor pelo consumo de energia elétrica, melhorando a qualidade de vida. Além disso, no local da praça nesse período tinha um lago que fazia o abastecimento de água na região. As comunidades utilizavam o espaço para criações de peixes e até para lavar suas roupas”, relembra.
Memória e preservação
Ana ainda estabelece que a praça sempre vai ser uma imagem importante na região para as pessoas nascidas entre as décadas de 1950 e 1960. De acordo com ela, essas pessoas se apropriam da praça pelas memórias que possuem da lembrança e do carinho pelas suas juventudes e crescimento no bairro.
“Como resultado, todos esses lugares têm que ser preservados para que todas essas lembranças permaneçam vivas na comunidade. Com o passar do tempo e mesmo as coisas mudando, essa preservação no local faz com que sempre as coisas de tempos atrás permaneçam no presente. Sendo assim, a estrutura da chaminé presente ali na região traz um grande valor emocional para toda comunidade da Próspera”, destaca.
Praça da Chaminé Sezostris de Rezende Corrêa, 2022 - Foto: Patrick Stüpp

Praça da Chaminé Sezostris de Rezende Corrêa, 2022 - Foto: Patrick Stüpp
Memória da colonização
O Museu Histórico e Geográfico Augusto Casagrande é mais um espaço que preserva a história de Criciúma. O sobrado começou a ser construído em 1918 para ser a casa do oleiro Augusto Casagrande e de sua esposa Cecília Darós, que leva o nome da rua onde encontra-se o imóvel.
“Foi a primeira casa na cidade, destinada a moradia, a contar com dois pavimentos. Augusto veio de Treviso, na Itália, de navio”, conta a historiadora da Fundação Cultural de Criciúma, Cinthia Franco. Os dois imigrantes italianos chegaram ainda crianças em Criciúma, onde tiveram 15 filhos, sendo 14 homens e uma mulher. Augusto deixou a residência em que viveu por 34 anos e foi morar em Tubarão após a morte de Cecília, em 1954.
Nos anos 1960 já era discutida a ideia de se ter um museu na cidade. A Lei Nº 308, de dezembro de 1960, criava o Museu Histórico Geográfico Getúlio Vargas. O documento dava poderes ao então prefeito, Addo Faraco, para criar uma comissão responsável por dar seguimento ao projeto. Sem lugar definido, esse museu nunca foi efetivado. A lei de criação do Museu Augusto Casagrande é de julho de 1972, mas ainda não definia um local para o empreendimento.
Com a aproximação do centenário da fundação de Criciúma, a iniciativa ganhou força na política. O prefeito da época, Altair Guidi, procurou Joacy Casagrande, neto de Augusto, para comprar o terreno e o prédio. Honrada com a homenagem, a família decidiu doar o espaço em 1978, enquanto a prefeitura se comprometeu com uma restauração, pois a estrutura se encontrava em situação de abandono. Em 9 de janeiro de 1980 o museu foi enfim inaugurado.
Museu Augusto Casagrande, 2022 - Foto: Samuel Borges

Museu Augusto Casagrande em 1978, antes da restauração - Arquivo Histórico Municipal Pedro Milanez
Museu Augusto Casagrande durante restauração, 1979 - Arquivo Histórico Municipal Pedro Milanez
Acervo e tombamento
“O Museu Augusto Casagrande é caracterizado por ser um museu da colonização da nossa cidade. O acervo é diversificado e contempla utensílios domésticos, objetos de montaria, como estribos, e objetos de carpintaria, que faziam parte do cotidiano dos nossos imigrantes colonizadores”, explica o coordenador do museu, Realdo Medeiros. De acordo com ele, os objetos foram doados por famílias de imigrantes e arrecadados em gincanas escolares.
Em 1998 foi homologado o tombamento da edificação em alvenaria, pela Lei Nº 3700, e de toda a praça nos arredores do museu pelo decreto Nº 818/AS/2003. O museu recebeu, por meio de um projeto de acessibilidade, uma rampa de entrada e uma plataforma elevatória para cadeirantes em 2014.
Dispondo de um acervo com documentos, fotografias, artefatos indígenas, objetos de uso pessoal e doméstico, que somam mais de 1,3 mil itens, o casarão com mais de 100 anos recebe visita de estudantes da região e turistas. O espaço é aberto ao público de segunda a sexta-feira, das 8 horas às 12 horas e das 13 horas às 17 horas, e a entrada é gratuita.
Indo de Criciúma para as constelações
Além de todo contexto histórico representado pela mineração, a astronomia também possui importância na cidade de Criciúma. Os estudos dos astros e o incentivo nos temas da astronomia na finalidade de trazer o sentimento de imersão são o foco na construção de um parque astronômico no município. O projeto será inaugurado em 6 de janeiro de 2023, e fará com que a população consiga ir de Criciúma até as constelações com todo ambiente imersivo que o parque proporcionará.
Segundo a coordenadora-geral da Secretaria de Educação de Criciúma, Cristiane Uliana Fretta, o espaço proporcionará um ambiente de diversão e conhecimento para a população em geral. Principalmente devido aos recursos tecnológicos que constituirão o parque, mostrando de forma atraente temas de diversas áreas da astronomia e astronáutica, ciências responsáveis pela exploração do espaço.
“Essas mudanças tecnológicas que evoluem com o passar do tempo exigem a utilização de recursos adequados que despertem o desejo e a curiosidade das pessoas pelos conteúdos ensinados. Desse modo, o sucesso do ensino e aprendizagem está bem relacionado com o ambiente e a metodologia utilizada na hora de repassar os conhecimentos”, destaca.
Conforme a coordenadora, o parque será constituído de vários elementos ao seu redor. Terá a construção de uma cúpula, onde ficará um planetário digital para a observação das constelações e o sistema solar por completo. Mas, além disso, fora da cúpula o parque também terá a construção de um observatório a olho nu, exposições de constelações e até mesmo salas makers, locais que incentivam trabalhar a criatividade com a utilização de meios tecnológicos.
“A construção desses espaços são exemplos de ambientes que apresentam recursos para auxiliar na apropriação do conhecimento, por meio de uma abordagem interessante. Isso possibilita a utilização de métodos diferenciados de ensino, atrelados às atividades que proporcionem informação e ao mesmo tempo muita diversão”, explica.
Astronomia e educação
De acordo com a coordenadora dos clubes de astronomia e de matemática da rede municipal de ensino de Criciúma, Karine Luiz Calegari Mrotskoski, mesmo o parque tendo um foco de ponto turístico beneficiando a população em geral presente no município, a sua construção trará diversos benefícios também para o âmbito educacional, porque a cidade possuir um equipamento de grande avanço tecnológico deixará o ensino mais eficaz e completo.
“As diversas áreas do conhecimento poderão apresentar sessões dinâmicas e com muito realismo sobre a temática desejada. O ambiente do parque promoverá conhecimento através dos sentidos visuais, auditivos e emocionais em um ambiente imersivo, ou seja, elementos essenciais e fundamentais tanto para o ensino da astronomia quanto para as disciplinas em geral”, ressalta.
Projeto 3d da construção do Parque Astronômico, 2022 – Divulgação/Secretaria de Obras
* Sob a supervisão de Nádia Couto, professora do curso de Jornalismo do Centro Universitário SATC



