Geral

Patrimônios culturais em Criciúma contam a história da cidade para as futuras gerações

Preservação histórica

Estruturas dos espaços deixam as lembranças do passado sempre vivas no presente

Por Lucas Renan Domingos05 de julho de 2022 14 min de leitura
Cidade de Criciúma, 1979 – Arquivo Histórico Municipal Pedro Milanez

Contribuir para o estudo da história na região e deixar as lembranças do passado sempre vivas no presente são características atribuídas aos patrimônios históricos culturais. Lembranças e experiências que são proporcionadas na cidade de Criciúma, por meio da presença de diversos monumentos que a região possui, porque desde o surgimento desses espaços eles buscam contar sem deixar envelhecer a história da cidade para as futuras gerações.

Segundo a historiadora Marli de Oliveira Costa, a memória é um direito consagrado na Constituição Federal, e que acaba se cristalizando em lugares assim. Sejam eles artefatos, obras de arte, edifícios ou até mesmo na natureza. Experiências que fazem reconhecer os momentos passados, trazendo sentimentos e vínculos importantes para a saúde emocional.

“As relações sociais são importantes, porque através dos estudos desses locais sabemos que muitos direitos foram sendo conquistados ao longo do tempo, mostrando à geração presente o valor do que possuem. Portanto, esses lugares de memórias em nossa região ajudam no entendimento da nossa cidadania, além de preservar os acontecimentos da história regional”, explica.

Conforme a historiadora, esses ambientes históricos são uma forma de interação e questionamento sobre a história local. De acordo com ela, ao perceber esses locais podem surgir perguntas e dúvidas, sendo uma forma de procurar respostas para conhecer de forma mais ampla a história da região a que pertencem.

“Ninguém passa sem perceber algo que se diferencia na paisagem. Desse modo, a realização desses questionamentos vai ao encontro do direito à memória. Ao visitar você aprende de forma mais concreta e o local passa a ser visto como belo. Como diria Michel de Certeau, é preciso perceber a beleza do morto, ou seja, a beleza do passado”, destaca.

Visitas e preservação

Marli afirma ainda que a visitação desses ambientes é algo que todos deveriam realizar. Principalmente porque ao visitar esses locais históricos eles podem ser investigados e estudados, proporcionando conhecimentos históricos do momento em que tal local foi erguido e os vários momentos de uso dele.

Alguns equipamentos históricos como o Centro Cultural Jorge Zanatta (CCJZ), Museu Augusto Casagrande, Mina de Visitação Octávio Fontana e Praça da Chaminé Sezostris de Rezende Corrêa contam a história de Criciúma, através das práticas de visitação em seus ambientes.

“Eu realizei com meus alunos e alunas muitas visitas a locais históricos, na finalidade de perceber a história por meio desses locais e assim também valorizar a preservação. Assim, posso garantir que é incrível como uma visita bem planejada leva os estudantes a valorizarem lugares que antes viam como algo considerado velho, desbotado e até sem atrativo na região em que vivem”, completa.

Sendo assim, quando se destrói um lugar de memória, destrói-se um elo entre o passado e o presente. Dessa forma, prejudica-se o entendimento da forma como as antigas gerações viveram. “Como resultado, a preservação de patrimônio histórico é de extrema importância para o ambiente em que ele fica localizado, garantindo múltiplas leituras da história da nossa região”, pondera a historiadora.


Calçadão da Nereu Ramos, 1980 – Arquivo Histórico Municipal Pedro Milanez

Arte escrita em carvão

Se você costuma circular pela área central de Criciúma, certamente já passou por um casarão na rua Coronel Pedro Benedet. O local é o Centro Cultural Jorge Zanatta (CCJZ), sede da Fundação Cultural de Criciúma (FCC). A entidade não tem fins lucrativos, e tem como objetivo difundir e promover atividades artísticas, culturais e turísticas na cidade. Mas nem sempre esta foi a função do prédio.

A casa foi construída a mando da União, nos anos 1940, para abrigar o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM). “Criciúma já era conhecida como Capital do Carvão, e o órgão supervisionaria a atividade carbonífera de toda a região, elaborando mapas e estudos no solo, além de oferecer cuidados médicos aos mineiros”, explica a professora Marli de Oliveira Costa.

O lugar foi o primeiro a receber um equipamento de raios-X e água tratada na cidade. Durante a segunda metade do século 20, o prédio foi sede de outros órgãos de semelhantes atribuições, até o golpe militar. “Após a eclosão do golpe, em 1964, salas do imóvel foram usadas como prisão de lideranças políticas ligadas aos sindicatos e ao Partido Comunista Brasileiro”, conta Marli, lembrando que, além do Centro Cultural, as dependências do atual Colégio Lapagesse também serviram de cárcere durante o regime.

Em 1996 a FCC passou a utilizar todo o casarão, mas o imóvel, que ainda não pertencia ao município, precisava ser restaurado. Revitalização esta apoiada financeiramente pelo empresário do ramo de embalagem plástica Jorge Zanatta, por isso o Centro Cultural leva seu nome. Em 2008 o espaço foi tombado como Patrimônio Histórico da cidade.

Na década de 2010 o casarão estava em situação precária. Isso gerou uma série de protestos e ocupações por uma nova restauração, que só veio após um incêndio em 2017, que destruiu o telhado do espaço, e após o município conseguir a posse da casa. Ela foi reinaugurada em dezembro de 2018.

Hoje a FCC oferece à comunidade 16 oficinas, entre elas violão, piano, pintura, balé e teatro, com aulas ministradas em oito salas no local. O espaço tem também uma galeria para exposição de arte e dois galpões utilizados para eventos. Ali, além das aulas, são elaborados e lançados editais para repasses de incentivos financeiros às atividades culturais de Criciúma.

O professor de contrabaixo do Centro Cultural, César Teixeira, enxerga o local como uma oportunidade. “Tem muito músico bom com didática para ensinar e não tem um lugar para poder trabalhar. É gratificante dar aula aqui, a gente se sente útil para a cidade, de poder compartilhar um pouquinho do que sabemos para ajudar outras pessoas”.


Entrada do Centro Cultural Jorge Zanatta – Foto: Samuel Borges

Da mineração ao principal ponto turístico da região

Um local que transforma o carvão e o trabalho da mineração em atrativo turístico na cidade é característica que pertence à Mina de Visitação Octávio Fontana. O espaço que foi inaugurado em 28 de outubro de 2011 tem o objetivo de unir a história do principal setor econômico com a história do município, sendo uma forma de as pessoas visitarem e conhecerem mais da origem da cidade de Criciúma.

Segundo o diretor de Turismo da Fundação Cultural de Criciúma (FCC), Ismail Ahmad Ismail, antigamente na cidade existia a Mina Modelo, ou seja, a primeira mina de visitação de Criciúma. Porém, devido aos problemas relacionados com a questão da segurança, o local teve que ser fechado.

“A história da mineração com a história da cidade são pontos inseparáveis. Basicamente, é impossível contar a história do município sem passarmos pelo assunto da mineração e do carvão. Então, depois do fechamento da Mina Modelo, foram longos períodos pesquisando um local adequado em que poderíamos manter vivas essas histórias atreladas com o turismo na região”, destaca.

Como resultado, o local escolhido para manter viva essa história de mineração foi a antiga mina São Simão, localizada no bairro Naspolini. Foi concluído que era o melhor lugar para ser a próxima mina de visitação de Criciúma, era o espaço que tinha encerrado suas atividades no ano de 1994.

“Desse modo, ter um espaço na cidade que conte toda a questão da mineração é de extrema importância. Principalmente porque boa parte das famílias criciumenses tiveram sua origem moldada através do trabalho da mineração. Assim, ir em um espaço igual à mina faz essas lembranças sempre ficarem vivas e guardadas em cada uma dessas famílias”, ressalta.

Conforme o diretor, a Mina de Visitação Octávio Fontana costuma realizar um percurso dentro do local, mostrando a origem do lugar e como era realizado o trabalho de mineração em Criciúma. Além disso, o espaço costuma receber aproximadamente 400 pessoas por semana, ainda é uma das seis minas de visitação presentes no mundo e a única no Brasil.

“Sendo assim, por meio desse contexto a mina de visitação é nosso principal ponto turístico na cidade, um espaço que deixa muitas memórias vivas e sempre buscando contar essa parte tão importante da nossa cidade”, completa.


Entrada da Mina de Visitação Octávio Fontana, 2022 – Foto: Patrick Stüpp

Construção da chaminé e formação de comunidades

O minério do carvão e as práticas de mineração são símbolos que representam a história do município de Criciúma, história em sua parte retratada através da Praça da Chaminé Sezostris de Rezende Correa. O local foi inaugurado no ano de 1943 e, atualmente, exerce a finalidade de um patrimônio histórico, buscando guardar memórias e deixar as lembranças históricas tanto da comunidade do local quanto da cidade.

Segundo a historiadora Ana Cristina da Silva, a chaminé localizada na praça é um ponto de memória, principalmente, porque ela busca recontar as histórias da origem da comunidade do bairro Próspera. “A chaminé vem para simbolizar o período da formação do bairro e da riqueza que comandava a cidade naquele período, o carvão. Desse modo, a chaminé acaba sendo um equipamento da formação da história de toda a Próspera, das famílias e das comunidades”, ressalta.

Antigamente, durante a década de 1940, no local existia uma usina elétrica, a usina elétrica da Carbonífera Próspera S.A. Conforme a historiadora, a usina ficava localizada ali na região da praça, criada devido à falta de energia no local. A estrutura tinha como objetivo compensar a falta de energia das minas naqueles períodos, abastecendo com energia elétrica as casas entre 21h e 22h.

“Então, a usina com o fornecimento de energia elétrica nos bairros trazia a qualidade para o bairro e fazia as pessoas se sentirem melhor pelo consumo de energia elétrica, melhorando a qualidade de vida. Além disso, no local da praça nesse período tinha um lago que fazia o abastecimento de água na região. As comunidades utilizavam o espaço para criações de peixes e até para lavar suas roupas”, relembra.

Memória e preservação

Ana ainda estabelece que a praça sempre vai ser uma imagem importante na região para as pessoas nascidas entre as décadas de 1950 e 1960. De acordo com ela, essas pessoas se apropriam da praça pelas memórias que possuem da lembrança e do carinho pelas suas juventudes e crescimento no bairro.

“Como resultado, todos esses lugares têm que ser preservados para que todas essas lembranças permaneçam vivas na comunidade. Com o passar do tempo e mesmo as coisas mudando, essa preservação no local faz com que sempre as coisas de tempos atrás permaneçam no presente. Sendo assim, a estrutura da chaminé presente ali na região traz um grande valor emocional para toda comunidade da Próspera”, destaca.


Praça da Chaminé Sezostris de Rezende Corrêa, 2022 - Foto: Patrick Stüpp


Praça da Chaminé Sezostris de Rezende Corrêa, 2022 - Foto: Patrick Stüpp

Memória da colonização

O Museu Histórico e Geográfico Augusto Casagrande é mais um espaço que preserva a história de Criciúma. O sobrado começou a ser construído em 1918 para ser a casa do oleiro Augusto Casagrande e de sua esposa Cecília Darós, que leva o nome da rua onde encontra-se o imóvel.

“Foi a primeira casa na cidade, destinada a moradia, a contar com dois pavimentos. Augusto veio de Treviso, na Itália, de navio”, conta a historiadora da Fundação Cultural de Criciúma, Cinthia Franco. Os dois imigrantes italianos chegaram ainda crianças em Criciúma, onde tiveram 15 filhos, sendo 14 homens e uma mulher. Augusto deixou a residência em que viveu por 34 anos e foi morar em Tubarão após a morte de Cecília, em 1954.

Nos anos 1960 já era discutida a ideia de se ter um museu na cidade. A Lei Nº 308, de dezembro de 1960, criava o Museu Histórico Geográfico Getúlio Vargas. O documento dava poderes ao então prefeito, Addo Faraco, para criar uma comissão responsável por dar seguimento ao projeto. Sem lugar definido, esse museu nunca foi efetivado. A lei de criação do Museu Augusto Casagrande é de julho de 1972, mas ainda não definia um local para o empreendimento.

Com a aproximação do centenário da fundação de Criciúma, a iniciativa ganhou força na política. O prefeito da época, Altair Guidi, procurou Joacy Casagrande, neto de Augusto, para comprar o terreno e o prédio. Honrada com a homenagem, a família decidiu doar o espaço em 1978, enquanto a prefeitura se comprometeu com uma restauração, pois a estrutura se encontrava em situação de abandono. Em 9 de janeiro de 1980 o museu foi enfim inaugurado.


Museu Augusto Casagrande, 2022 - Foto: Samuel Borges


Museu Augusto Casagrande em 1978, antes da restauração - Arquivo Histórico Municipal Pedro Milanez


Museu Augusto Casagrande durante restauração, 1979 - Arquivo Histórico Municipal Pedro Milanez

Acervo e tombamento

“O Museu Augusto Casagrande é caracterizado por ser um museu da colonização da nossa cidade. O acervo é diversificado e contempla utensílios domésticos, objetos de montaria, como estribos, e objetos de carpintaria, que faziam parte do cotidiano dos nossos imigrantes colonizadores”, explica o coordenador do museu, Realdo Medeiros. De acordo com ele, os objetos foram doados por famílias de imigrantes e arrecadados em gincanas escolares.

Em 1998 foi homologado o tombamento da edificação em alvenaria, pela Lei Nº 3700, e de toda a praça nos arredores do museu pelo decreto Nº 818/AS/2003. O museu recebeu, por meio de um projeto de acessibilidade, uma rampa de entrada e uma plataforma elevatória para cadeirantes em 2014.

Dispondo de um acervo com documentos, fotografias, artefatos indígenas, objetos de uso pessoal e doméstico, que somam mais de 1,3 mil itens, o casarão com mais de 100 anos recebe visita de estudantes da região e turistas. O espaço é aberto ao público de segunda a sexta-feira, das 8 horas às 12 horas e das 13 horas às 17 horas, e a entrada é gratuita.

Indo de Criciúma para as constelações

Além de todo contexto histórico representado pela mineração, a astronomia também possui importância na cidade de Criciúma. Os estudos dos astros e o incentivo nos temas da astronomia na finalidade de trazer o sentimento de imersão são o foco na construção de um parque astronômico no município. O projeto será inaugurado em 6 de janeiro de 2023, e fará com que a população consiga ir de Criciúma até as constelações com todo ambiente imersivo que o parque proporcionará.

Segundo a coordenadora-geral da Secretaria de Educação de Criciúma, Cristiane Uliana Fretta, o espaço proporcionará um ambiente de diversão e conhecimento para a população em geral. Principalmente devido aos recursos tecnológicos que constituirão o parque, mostrando de forma atraente temas de diversas áreas da astronomia e astronáutica, ciências responsáveis pela exploração do espaço.

“Essas mudanças tecnológicas que evoluem com o passar do tempo exigem a utilização de recursos adequados que despertem o desejo e a curiosidade das pessoas pelos conteúdos ensinados. Desse modo, o sucesso do ensino e aprendizagem está bem relacionado com o ambiente e a metodologia utilizada na hora de repassar os conhecimentos”, destaca.

Conforme a coordenadora, o parque será constituído de vários elementos ao seu redor. Terá a construção de uma cúpula, onde ficará um planetário digital para a observação das constelações e o sistema solar por completo. Mas, além disso, fora da cúpula o parque também terá a construção de um observatório a olho nu, exposições de constelações e até mesmo salas makers, locais que incentivam trabalhar a criatividade com a utilização de meios tecnológicos.

“A construção desses espaços são exemplos de ambientes que apresentam recursos para auxiliar na apropriação do conhecimento, por meio de uma abordagem interessante. Isso possibilita a utilização de métodos diferenciados de ensino, atrelados às atividades que proporcionem informação e ao mesmo tempo muita diversão”, explica.

Astronomia e educação

De acordo com a coordenadora dos clubes de astronomia e de matemática da rede municipal de ensino de Criciúma, Karine Luiz Calegari Mrotskoski, mesmo o parque tendo um foco de ponto turístico beneficiando a população em geral presente no município, a sua construção trará diversos benefícios também para o âmbito educacional, porque a cidade possuir um equipamento de grande avanço tecnológico deixará o ensino mais eficaz e completo.

“As diversas áreas do conhecimento poderão apresentar sessões dinâmicas e com muito realismo sobre a temática desejada. O ambiente do parque promoverá conhecimento através dos sentidos visuais, auditivos e emocionais em um ambiente imersivo, ou seja, elementos essenciais e fundamentais tanto para o ensino da astronomia quanto para as disciplinas em geral”, ressalta.


Projeto 3d da construção do Parque Astronômico, 2022 – Divulgação/Secretaria de Obras

* Sob a supervisão de Nádia Couto, professora do curso de Jornalismo do Centro Universitário SATC

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