'Estamos desamparados'
Pedido de ajuda: moradores do bairro Colonial estão há quase dois meses inalando odor de enxofre
Apesar de intervenções da Defesa Civil, queima de rejeito de mineração segue sem solução
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Há quase dois meses moradores da rua Lúcia Jerônimo Adão e de ruas próximas, no bairro Colonial, em Criciúma, estão convivendo com um forte odor de enxofre que propaga do subsolo. A Defesa Civil do município já diagnosticou que o cheiro é causado pela queima de rejeito de carvão. Intervenções foram feitas no local e o problema foi amenizado, mas não solucionado, o que tem gerado revolta da população.
O caso começou após um morador atear fogo em madeiras em seu terreno. As chamas intensas se espalharam para subsolo, atingindo o material de mineração e provocando a fumaça. Depois de duas semanas sentindo o mau cheiro, os vizinhos acionaram a Defesa Civil no dia 1º de julho. Em contato com mineradoras que exploraram a área, a equipe da Defesa Civil foi orientada a abafar o material com areia barrenta com a finalidade de cessar a queima. O procedimento foi realizado por duas vezes, mas sem a efetividade necessária.
São quase 60 dias procurando uma solução, moradores entraram em contato o Portal Engeplus para relatar novamente o caso. Na última terça-feira, dia 26, a reportagem foi até o bairro e flagrou que ainda havia a fumaça sendo gerada pelo processo de queima do rejeito de pirita e que o cheiro continuava na localidade.
“Depois das intervenções, a Defesa Civil nos disse que seguiriam monitorando o local, mas que não teriam outras alternativas. Devido à complexidade do caso, nos pediram para entrar em contato com a Agência Nacional de Mineração. O retorno que a agência nos deu foi de que o caso poderia levar de cinco meses até um ano para ser solucionado e que precisaram de recursos federais para mandar uma equipe e tentar apagar este fogo”, relata a pedagoga Sara Pinheiro, vizinha da residência onde o problema começou.
Primeira intervenção feita pela Defesa Civil de Criciúma - Vídeo: Divulgação/Defesa Civil
Sara é mãe de uma menina de dois anos de idade, que é portadora duas síndromes raras. “A minha filha é deficiente e convive com uma série de problemas de saúde, inclusive questões neurológicos e respiratórios. E ela está há dois meses cheirando este ar poluído”, reclama a mãe.
A pedagoga conta ainda que a Defesa Civil confirmou aos moradores que a substância que está sendo queimada é tóxica. “Eles recomendaram que a gente saia daqui. Mas eu vou para onde? Abandonar a minha casa por cinco meses? Um ano? Não tenho condições de alugar outra casa. Inclusive eles nos disseram que o gás gerado pela queima da pirita pode gerar algum tipo de explosão”, desabafa.
Sensação de abafamento e ardência nas vias respiratórias são alguns dos sintomas relatados por Sara como efeitos colaterais do mau cheiro. “Durante o dia, sentimos o odor. Ele vai e volta. Andando pelas ruas, às vezes vemos fumaça ainda saindo do solo. À noite a situação piora. Mesmo com a casa fechada, o cheiro entra pelas frestas. Não sabemos o que é pior, ficar com a casa fechada ou aberta”, acrescenta a pedagoga.
Pedagoga Sara Pinheiro fecha as janelas para amenizar mau cheiro dentro de casa - Foto: Lucas Renan Domingos/Portal Engeplus

“Nos sentimos desamparados”
A assistente administrativa Shauane Poernbacher é vizinha de Sara e mais uma preocupada com a inalação do odor. Ela reclama da demora na solução do caso. “Estamos respirando um ar tóxico altamente prejudicial para a nossa saúde. Estamos preocupados. Eu tenho uma filha pequena e recentemente ela teve episódios de febre. Ela chegou bem em casa e depois de sentir o cheiro da fumaça teve a febre. A gente também tem tosse, olhos inchados. O cheiro desencadeia sinusite. A nossa preocupação é que, a longo prazo, isso pode trazer problemas cardíacos”, acredita. Confira abaixo o depoimento completo de Shauane:
Portal Engeplus · Shauane Poernbacher - Moradora do bairro Colonial
Ponto onde fumaça voltou a aparecer na última segunda-feira, dia 25, antes de nova intervenção da Defesa Civil nesta quinta-feira, dia 28, - Foto: Lucas Renan Domingos/Portal Engeplus

Defesa Civil faz nova intervenção
Nesta quinta-feira, dia 28, a Defesa Civil de Criciúma retornou ao local para realizar um novo procedimento. Além de espalhar a areia barrenta e argila, a equipe do município efetuou a retirada de materiais que poderiam impulsionar a queima da pirita. O coordenador do órgão, Fred Gomes, reforça que o problema foi ocasionado por ação humana.
“Começou pela queima de madeira. Fomos duas vezes ao local para espalhar areia barrenta e tentar estancar o oxigênio e, assim, parar com a queima. É um procedimento que não é comum na área urbana, mas feito com frequência por carboníferas. Hoje (quinta-feira) descobrimos também que no terreno onde começou o problema havia pneus e isso é combustível. Então, mais uma vez cavamos o buraco, tiramos parte desses pneus e fechamos novamente com mais terra e argila. Vamos seguir monitorando e torcendo para que agora seja solucionado”, explica.
A Defesa Civil de Criciúma está montando um relatório para encaminhar para os órgãos ligados à mineração, entre eles a ANM e a Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM). “Nós, enquanto Defesa Civil, não podemos deixar que a população sofra. O município está intervindo no que for possível para encontrar uma solução. Estamos fazendo a nossa parte e mantendo contato com os órgãos de mineração para que eles também exerçam suas responsabilidades”, enfatiza Gomes.

ANM montará equipe para buscar solucionar o caso
A reportagem também procurou a Agência Nacional de Mineração. O gerente regional da ANM para Santa Catarina, Jesse Otto Freitas, relata que uma equipe formada por técnicos da agência e da CPRM será montada para fazer um diagnóstico da situação e buscar uma solução definitiva para o caso.
Freitas comenta que a equipe da ANM em Criciúma confirma que a área é considerada órfã, quando não é possível diagnosticar de imediato de quem é a responsabilidade daqueles rejeitos. “Só que a ANM não pode se eximir de suas responsabilidades. Vamos buscar uma solução e de forma imediata. Com este levantamento que iremos fazer, buscaremos encontrar a carbonífera que colocou aquele rejeito ali. Se isso não for possível, este passivo fica para a União. Só não podemos deixar sem uma solução”, salienta.
O gerente regional da ANM frisa ainda que as intervenções da Defesa Civil são positivas, mas há outras formas de controlar o problema. Um das técnicas utilizadas para controlar este tipo de ocorrência é a injeção de cal virgem no solo. “Se este for o caminho, vamos agir rapidamente. Não levará de cinco meses há um ano. Precisamos solucionar de forma muito instantânea esta situação”, pontua.
Defesa Civil espalhou novamente argila e areia barrenta no terreno - Foto: Divulgação/Defesa Civil

Ministério Público Federal
O caso também foi levado ao conhecimento do Ministério Público Federal (MPF). O Portal Engeplus entrou em contato com o MPF e foi informado que a Notícia de Fato protocolada pelos moradores foi recebida no dia 25 de julho de 2022. No dia 26 de julho de 2022, o documento foi encaminhado para o 1º Ofício da Procuradoria da República no Município de Criciúma. O assunto ainda está sob análise da procuradoria com pedido de urgência, conforme solicitado pelos moradores.
Que tipo de gás é este?
Ainda não é possível precisar qual tipo de gás tem provocado o odor no bairro Colonial, já que, segundo o engenheiro químico do Centro Técnológico da Satc, Thiago de Aquino, seria preciso realizar uma medição. "É fato que é gás rico em enxofre. A que precisaria saber é a fórmula que ele está saindo do solo. Se for mais oxidado, aí seria um dióxido de enxofre. No caso de uma concentração maior, seria um ácido sulfídrico", explica.
Os dois, segundo o engenheiro, são considerados tóxicos e prejudiciais para a saúde. "Na forma de gás sulfídrico é mais perigoso e bem mais irritante. Seria ainda mais preocuoante se ele estivesse em um espaço confinado, quando poderia ocorrer até uma situação letal. Mas, neste caso específico no bairro Colonial, o gás está saindo para a superfície e ele está se dissipando", complementa.
De qualquer forma, a recomendação é não permanecer próximo ao local. "Quanto mais distante melhor e, se possível, tentar eliminar o causador deste gás", finaliza.



