Relato
‘Queria que ninguém mais passasse por isso’, declara filha de vítima da Covid-19
Dorotea de Souza Silvério de 60 anos morreu nessa quarta-feira após contrair coronavírus
Por Rafaela Custódio
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A morte de um ser humano nunca será apenas uma estatística, apesar de entrar, sim, em uma lista de números. Vale lembrar que a pessoa que se foi deixou filhos, netos, sobrinhos e amigos. Ela deixará saudades para aqueles que a amavam. Assim tem sido para a família de Dorotea de Souza Silvério, de 60 anos. Ela morreu nessa quarta-feira, dia 24, no Hospital São José, em Criciúma, vítima da Covid-19.
A família de Dorotea a chamava carinhosamente de Dodô. Eles não puderam se despedir da idosa, pois os velórios e sepultamentos de vítimas da Covid-19 são restritos. Moradora do bairro Santa Luzia, ela era uma idosa bastante ativa e estava internada no Hospital São José desde o dia 27 de maio. Dodô foi para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) no dia 31 de maio, onde ficou até esta quarta-feira.
“Assim que ela internou, foi isolada e o único contato com ela foi por chamada de vídeo realizada no dia 30 de maio, ou seja, um dia antes de ela ser transferida para a UTI. Esse vírus nos priva de estarmos com as pessoas e ter contato por visitação hospitalar”, explica a filha de Dorotea, Juliane de Souza Dutra, de 37 anos, que também foi diagnosticada com coronavírus, assim como sua filha de 13 anos. Ambas já estão curadas.
Como tudo começou?
Juliane conta que a mãe reclamou de muita dor de cabeça e chegou a dizer que era sinusite e pensou em apenas se automedicar. Mas a dor no corpo foi forte. Ela caiu e bateu a cabeça no chão ao tentar se levantar, e por isso foi encaminhada ao Hospital São José. Lá os profissionais verificaram a suspeita de coronavírus.
“Na primeira parte da quarentena ela realmente ficou em isolamento social e cumpriu corretamente. Depois, com a flexibilização, ela acabou saindo mais de casa, até porque eu voltei a trabalhar também no escritório. Mas sempre avisei a ela sobre os cuidados necessários, mas acabou que ela foi ao supermercado e em locais com circulação de pessoas. Por isso acredito que deveríamos ter uma idade restritiva para cirular, principalmente para os idoso, pois ainda vamos perder muita gente”, afirma Juliane.
Consciência para a sociedade
A única filha de Dorotea comenta que a dor que a família e amigos próximos estão sentindo é grande. “Além da maldade do dano que o vírus causa em relação à saúde, o coronavírus também causa um dano psicológico irreparável. Não conseguimos nos despedir do nosso ente querido e é muito triste como tudo funciona. Ela foi retirada do hospital em um saco, colocada em um caixão e sem que pudéssemos escolher uma roupa ou as flores que a minha mãe tanto amava. O caixão foi lacrado sem que pudéssemos ver nem por um vidro para um adeus e tudo isso é muito triste. Ela saiu do veículo e foi direto para o túmulo e tivemos cinco minutos de despedida e tudo foi tão dolorido. Já é difícil perder alguém, imagina você não se despedir, não ver. O vírus te limita muito. Não queria que ninguém mais passasse por isso, pois é muito triste. As pessoas precisam se isolar e é por amor que precisamos nos isolar, estamos preservando vidas com o isolamento social”, declara.
“Minha mãe era um amor, ela era completamente amor e agora virou uma estrela”
Juliane de Souza Dutra
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Quem era Dorotea?
Dorotea era enfermeira e trabalhou durante anos como cuidadora de diversas famílias criciumenses. Mas também exerceu sua profissão no Hospital Dom Joaquim de Sombrio, Hospital São José, Hospital São João Batista. Ela foi parteira e ela realizou o parto de suas duas netas.
“A equipe médica do Hospital São José nos ajudou muito. A médica Bruna da Vigilância Epidemiológica esteve comigo, me ajudou e todos me deram muito apoio. Sei que a morte da minha mãe foi uma perda muito grande para todos os profissionais de saúde também, pois eles lutaram bravamente pela vida da minha mãe. Foram 27 dias na permanência da minha mãe no hospital e todos sempre nos deram suporte”, finaliza.
Dorotea foi a 12º moradora de Criciúma a morrer em virtude da Covid-19. Na noite dessa quarta-feira, a Vigilância Epidemiológica divulgou mais um boletim e apontou que 601 pessoas se infectaram com o coronavírus desde o início da pandemia. Dessas, 492 estão recuperadas da doença.
O boletim epidemiológico mostrou ainda que 53 pessoas estão hospitalizadas para tratamento de Covid-19 ou por suspeita. Também em Criciúma, morreram sete pessoas residentes de outros municípios.



