Contexto Internacional

Rebeldes declaram fim do regime de Assad

Oriente Médio

Rússia afirma que presidente da Síria renunciou

Por André Abreu08 de dezembro de 2024 4 min de leitura
Reprodução BBC

Insurgentes sírios liderados pelo grupo islamista Organização para a Libertação do Levante (Hayat Tahrir al Sham, ou HTS) entraram nas primeiras horas deste domingo (08/12) na capital da Síria, Damasco, e a declararam "livre" do regime do presidente Bashar al-Assad.

O paradeiro do presidente Assad é desconhecido, e a ONG Observatório Sírio para os Direitos Humanos, baseada em Londres, divulgou que o presidente sírio deixou o aeroporto da capital num avião particular.

O Ministério do Exterior da Rússia declarou que Assad "renunciou" ao cargo e deixou a Síria, mas sem dizer onde ele estaria. Assad teria negociado com os grupos rebeldes e "dado instruções" para uma transferência pacífica de poder, segundo o Kremlin.

A queda do regime é um forte golpe para os governos da Rússia e do Irã, os dois principais apoiadores de Assad. O presidente eleito dos EUA, Donald Trump, afirmou que a Rússia nem deveria estar mais na Síria, pois já não nenhum interesse do presidente russo Putin em defender o regime sírio da família Assad.

O primeiro-ministro da Síria, Mohamed Ghazi al-Jalali, declarou-se disposto a colaborar com os insurgentes e disse que estende a mão a "qualquer sírio que se interessa pelo país para preservar suas instituições".

O líder do HTS, Abu Mohammad al-Jolani (que começou a usar o seu nome verdadeiro, Ahmed al-Shara), pediu aos insurgentes que não se aproximem das instituições públicas em Damasco e afirmou que elas continuam sob controle do primeiro-ministro sírio até uma "passagem oficial" do poder.

O comando do Exército da Síria notificou os oficiais neste domingo que o regime de Assad havia chegado ao fim, disse à agência de notícias Reuters um oficial sírio que se disse informado da medida. Mas o Exército sírio divulgou pouco depois que estava continuando as operações contra "grupos terroristas" nas principais cidades de Hama e Homs e na zona rural de Deraa.

Os insurgentes também anunciaram controlar a prisão militar de Saydnaya, a cerca de 30 quilômetros ao norte de Damasco e um dos centros de repressão do regime, onde teriam libertado detentos.

Milhares de pessoas se reuniram na praça principal de Damasco, cantando "liberdade", após meio século de governo da família Assad, relataram testemunhas.

Já neste sábado manifestantes saíram às ruas nos subúrbios de Damasco destruindo imagens de Assad e a estátua do pai dele, o ex-presidente Hafez al-Assad, sem serem reprimidos pelas forças de segurança.

Queda súbita e surpreendente

A súbita queda do regime sírio é um final surpreendente para o governo de 50 anos da família Assad, encerrado por uma rápida ofensiva rebelde que atravessou o território controlado pelo governo de norte a sul e entrou na capital em apenas dez dias.

A ofensiva dos rebeldes teve início na semana passada, com a tomada de Aleppo. Desde então, as linhas de defesa do governo sírio desmoronaram numa velocidade surpreendente e inédita em 13 anos de guerra civil, reavivando um violento conflito que parecia congelado.

Interesse das grandes potências na Síria


A guerra civil na Síria, que começou em 2011 como um levante contra o regime de Bashar al-Assad, envolveu grandes potências estrangeiras, alimentou o terrorismo jihadista e forçou milhões de refugiados a buscarem refúgio no exterior.

Durante muitos anos, Assad dependeu da ajuda de aliados para conter os rebeldes. Aviões de guerra russos conduziram bombardeios, enquanto o Irã enviou tropas aliadas, incluindo o Hezbollah libanês e milícias iraquianas, para reforçar o Exército sírio e atacar redutos insurgentes.

No entanto, desde 2022, a Rússia tem focado na guerra na Ucrânia, e o Hezbollah sofreu grandes perdas em sua própria guerra desgastante contra Israel, o que reduziu significativamente sua capacidade, assim como a do Irã, de apoiar Assad. A avaliação de especialistas internacionais é que o conflito sírio perdeu importância diante da situação ucraniana e das guerras travadas por Israel no Oriente Médio desde outubro de 2023.

Os Estados Unidos têm apoiado forças curdas no norte do país, na fronteira com a Turquia. O presidente eleito Donald Trump, porém, declarou que seu país não deveria se envolver no conflito, e sim "deixar as coisas seguirem seu curso".


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