Blumenau
Responsável por ataque em creche é indiciado por quatro homicídios e cinco tentativas de homicídio
Agressor ficou apenas 20 segundos dentro da escola antes de fugir
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A Polícia Civil concluiu o inquérito que investigou o assassinato de quatro crianças na creche Cantinho do Bom Pastor, em Blumenau, no dia 5 de abril deste ano. Outros cinco alunos ficaram feridos. As investigações apontaram que a ação do autor, de 25 anos, que confessou o crime, não foi planejada ou coordenada. Ele foi indiciado por quatro homicídios qualificados por motivo torpe, uso de meio cruel, impossibilidade de defesa das vítimas e por ter praticado o ato contra menores de 14 anos, além de mais cinco tentativas de homicídio com as mesmas qualificadoras.
As diligências realizadas pela Polícia Civil mostraram detalhes do percurso feito pelo investigado desde a saída da sua casa, no bairro Escola Agrícola, até se entregar para a Polícia Militar no 10º Batalhão de Polícia Militar (10º BPM), no bairro Vida Nova, minutos depois de assassinar as crianças. Em um intervalo cerca de pouco mais de uma hora, ele cogitou entrar em outras escolas, passou na academia, cometeu o massacre na creche, foi até um posto de combustível e depois até ao 10º BPM.
Dentro da creche Cantinho do Bom Pastor ele ficou por apenas 20 segundos. Foi tempo suficiente para matar quatro crianças e ferir outras cinco. “Ele pensou em cometer o crime com crianças por achar que elas seriam alvos mais fáceis, porque se elas corressem, ele alcançaria. Ele chegou a relatar que uma das vítimas fugiu dele rindo, pensando que ele estava brincando, e ele foi lá e golpeou a vítima. Ele não tem condição de viver socialmente. Nada vai reparar o que ele fez”, pontuou o delegado Ronnie Reis, coordenador da Divisão de Investigação Criminal (DIC) de Blumenau.
Foto: Ricardo Trida/Secom

Trajeto feito pelo investigado no dia do ataque:
8h03 – Sai de casa
8h07 – Circula próximo a duas escolas de educação infantil Princesa Isabel e Manoel da Luz Rampelotti, no bairro Escola Agrícola
8h16 – Chega em uma academia, no bairro Itoupava Seca
8h37 – Paga a mensalidade da academia
8h39 – Sai da academia e vai em direção à creche Cantinho do Bom Pastor
8h46 – Chega na creche e começa a observar, inclusive olhando sobre o muro
8h47 – Entra na creche, comete o crime e sai da creche
8h49 – Foge depois de cometer o crime
9h03 - Chega em um posto de combustível no bairro Vila Nova, em frente ao 10º BPM, onde compra um cigarro e uma água
9h07 – Deixa o posto de combustível e se dirige ao 10º BPM
9h08 – Se entrega para a Polícia Militar na guarita do 10ºBPM
O crime foi cometido utilizando um machado tático de aproximadamente 42 centímetros e mais um canivete borboleta com uma lâmina de 11 centímetros.
“Conseguimos acompanhar todo o percurso feito pelo investigado por meio de câmeras de segurança. E as imagens mostram a sequência lógica, que com os depoimentos e informações prestadas pelo agressor, foi possível montar um panorama do dia. A informação sobre a tentativa em outras escolas foi uma informação que o autor nos passou. E não há na investigação qualquer indicativo que essas escolas ainda estejam em risco por ação do autor, que está preso, ou de qualquer outro suspeito já que não há a comprovação do envolvimento de terceiros”, explicou o delegado Rodrigo Raitze, da DIC de Blumenau.
Foto: Ricardo Trida/Secom

Envolvimento com drogas
As investigações também apuraram que o autor do crime era usuário de drogas. O delegado Ronnie Reis ficou responsável em colher os depoimentos. Foram ouvidas pelo menos 12 pessoas após o flagrante. A mãe do investigado também foi ouvida. Outras pessoas próximas ao suspeito também chamadas para prestar depoimento. O objetivo da Polícia Civil era traçar o perfil do agressor.
A mãe informou para a Polícia Civil que ela criou o filho sozinha. Eles moravam no Paraná e se mudaram para Santa Catarina. A mulher disse que o filho sempre foi educado e sempre lhe tratou bem. Já em Blumenau ela iniciou um relacionamento e o suspeito manteve boa relação com o padrasto. O homem, inclusive, ajudou o enteado a comprar uma moto e depois iniciar o trabalho como motorista de aplicativo. Só que há três anos passou a fazer uso de drogas e passando a traficar mais recentemente. Em 2021 ele chegou esfaquear o padrasto em uma tentativa de homicídio.
Nos exames a perícia conseguiu identificar a presença de cocaína e álcool no sangue do investigado, mas não foi possível afirmar que ele teria feito o uso no dia do crime. “Pessoas próximas dele informaram que ele vinha tendo alucinações. Um amigo disse que duas semanas antes ele falou que faria algo grande, comentou da machadinha, comentar sobre o padrasto, mas eles não acreditaram por conta da série de alucinações”, disse o delegado Reis.
Falsa acusação contra policial militar
Durante o depoimento o suspeito chegou a relatar que cometeu o crime a mando de um policial militar. A versão foi desconstruída pelo próprio investigado em um novo depoimento e também refutada pelas investigações.
“Como ele estava vendendo drogas, a gente notava que ele ficava incomodado sempre que citava o padrasto ou a polícia, que são duas coisas que impediam ele de usar e vender drogas. O policial militar prestou depoimento. Ele é uma pessoa íntegra, do bem, um competidor de jiu-jitsu. E o agressor frequentou por um curto período a mesma academia do policial, mas eles nem se conhecem. E um amigo falou que ele tinha uma admiração por este policial. Então ele acreditava que o policial poderia fazer algo contra ele. E ele falou que cometeu o crime para mostrar ao policial que também era corajoso. Ele acha que foi um ato de coragem”, descreveu o coordenador da DIC de Blumenau.
Foto: Ricardo Trida/Secom

O delegado-geral da Polícia Civil de Santa Catarina Ulisses Gabriel afirma que o investigado apresentava sinais de esquizofrenia, mas que essas apurações só serão feitas ao longo da etapa judicial.
Muitas pessoas indagaram a gente se por ele estar em surto, o agressor não seria punido. Isso não é uma verdade. Dentro do direto penal há formas diferentes de punições. Independentemente do cidadão ter um problema psicológico e agir em razão dele, isso não enseja qualquer situação de impunidade. Pelo contrário. O cidadão será punido duramente pelos crimes que praticou. A sanidade ou insanidade dele vai ser discutido na etapa judicial. Em apenas dez dias, no período do inquérito policial, é complexo identificar uma situação sobre a sanidade dele.
O caso agora será encaminhado para o Ministério Público que poderá fazer ou não novas acusações e encaminhar o caso para a Justiça.



