Rua Coberta completa dois anos de inauguração com prejuízos e reclamações de comerciantes em Criciúma
Sem comemoração
Lojistas relatam insegurança e abandono ao local

Salas fechadas, placas de ‘aluga’ espalhadas, paredes pichadas, bancos rabiscados e um ambiente escuro e pouco frequentado para comércio. Essa é a realidade da Rua Coberta - Giro Henrique Lodetti, no Centro de Criciúma, que completa dois anos de inauguração nesta segunda-feira, dia 4.
O espaço com 140 metros de extensão e com 1,7 mil metros quadrados e que teve um investimento de R$ 4,3 milhões se tornou ‘abrigo’ para moradores em situação de rua, ponto para o uso de entorpecentes e bebidas alcóolicas e inseguro, principalmente no período noturno. Os relatos do cenário foram feitos por comerciantes à reportagem do Portal Engeplus, que visitou o local na última semana. Confira os registros feitos da Rua Coberta na quarta-feira, dia 29:
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Preocupação e queda considerável nas vendas
Em 25 anos gerindo uma ótica na mesma rua, o comerciante Valmor Dalsasso, de 84 anos, tem passado pelo pior momento como empresário. O idoso relata que, desde a inauguração da Rua Coberta, as vendas despencaram em pelo menos 80%.
“Depois que foi montado isso aqui, o prejuízo foi grande. Não tem movimento nenhum. Todos os lojistas estão se queixando que o movimento caiu muito. Antigamente não tinha a rua e as pessoas passavam por aqui”, destaca o idoso.
De forma parecida, Albertino Fernandes, de 70 anos, e há 15 no mesmo espaço, viu o fluxo de vendas diminuir consideravelmente desde o início das obras e principalmente após a inauguração da Rua Coberta. “Para nós piorou aqui. As vendas declinaram bastante. A gente trabalha ultimamente só para pagar o aluguel mesmo”, comenta.
O comerciante reforça ainda que apesar das dificuldades tenta manter sua loja em funcionamento. “São 15 anos aqui, como vou fechar? Estou trabalhando sozinho, pois hoje não tenho nem a condição de botar um funcionário”.
Os relatos obtidos pela reportagem são de que o transtorno aos lojistas iniciou ainda com o começo das obras. As movimentações afetaram negócios também em ruas paralelas, como na Henrique Lage, onde uma loja com mais de 30 anos de existência fechou as portas definitivamente no local em 2023.
De acordo com a presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Criciúma, Andréa Gazola Salvalaggio, a entidade tem buscado soluções para que o comércio possa ser intensificado no local e o fluxo de pessoas volta a aumentar. “Sabemos que são vários problemas. Conversamos com o prefeito e ele nos prometeu um estudo para apontar as melhores escolhas para a Rua Coberta. Temos que unir forças para encontrarmos o melhor caminho”, frisa.

Insegurança é presença constante para comerciantes
“Há uns 15 dias, era por volta das 7h30, tinha um cara dormindo aqui na frente e eu fui abrir a loja. E ele se levantou e perguntou se eu iria acordar ele naquele horário. Ficou brabo comigo ainda”.
O relato de Dalsasso é apenas um dos momentos de insegurança vividos pelos comerciantes da região. Segundo o idoso, no período noturno, o uso de entorpecentes é comum no local, causando medo e fazendo com que até mesmo o horário de atendimento seja reduzido, para resguardo pessoal.
O comerciante afirmou que trabalha até às 17 horas. A medida, segundo ele, é para evitar possíveis assaltos ou furtos, como um que já foi vítima, tendo mercadorias levadas em uma ação criminosa. “A loja já foi arrombada. Quando eles estavam fazendo a rua, tinha um tapume na calçada. Durante a madrugada um homem veio, entrou na loja e me deixou um prejuízo de quase R$ 20 mil”, frisa.
Fernandes concorda com o vizinho comercial e também reclama da falta de tranquilidade para trabalhar no local. “Para nós piorou aqui, segurança não tem nenhuma. No período da noite fica um deserto”.
O proprietário da livraria teme que a situação piore e consequentemente desvalorize seu espaço. “Cada vez fica pior. Daqui a pouco eles começam a quebrar tudo aqui e vai se destruindo tudo”.
O Portal Engeplus fez contato com o comandante do 9º Batalhão de Polícia Militar (9º BPM), o tenente-coronel Mário Luiz da Silva, questionando sobre a frequência de acionamento da PM para ocorrências na Rua Coberta ou números de atendimentos naquela região. De acordo com a autoridade, não há dados de ocorrências no local.

Proibido estacionar
Outro ponto relatado por comerciantes, é o número de multas aplicadas no local, devido a proibição para estacionamento. Enquanto estava no local, a reportagem presenciou a chegada de uma guarnição da Diretoria de Trânsito e Transporte (Criciúma), que autuou carros que estavam estacionados na Rua Coberta.
Uma agente de trânsito explicou que a proibição é porque o espaço é destinado apenas para passeio, sendo liberado apenas o fluxo de veículos. Mesmo ciente da infração, Fernandes questiona a não flexibilização da fiscalização em relação aos automóveis estacionados. “Já fui multado, meus amigos também já foram. Eles dizem que é um lugar de passeio, mas nunca tem ninguém passeado”.
A agente da DTT afirmou que a infração é considerada grave, gera cinco pontos na Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e uma multa de R$ 195,23. Além disso, o veículo pode ser removido por guincho. A profissional relatou ainda que as autuações no local são realizadas com frequência e que na maioria das vezes por meio de denúncias.

‘Se tirasse a Rua Coberta seria melhor’
A fala do Fernandes retrata o cansaço do lojista, que além da falta de segurança trabalha com a preocupação em dias chuvosos. O comerciante relata que a estrutura tem vazamentos de água e que precisou, por meios próprios, solucionar o problema para não danificar seus produtos e para que a água não entrasse em seu estabelecimento.
“Aqui ficou muito mal feito, chove tudo dentro da loja. Tem gente que tem que passar de guarda-chuva. Tive que adotar medidas paliativas para resolver. Esse lugar agora é uma rua sem vida, antes ainda as pessoas passavam, os carros paravam por aqui. Para nós se tirasse a Rua Coberta seria melhor”, desabafa.
Prefeitura sobre a estrutura
A falta de ações por parte dos órgãos competentes para atrair o público também é lamentada pelos comerciantes, que se consideram abandonados na região. Além das melhorias, eles buscam incentivos para que a população volte a frequentar o espaço.

Audiência Pública
Uma audiência pública para debater a Rua Coberta Giro Henrique Lodetti, de Criciúma, será realizada no dia 27 deste mês. O encontro está marcado para às 19 horas, no Plenário da Câmara de Vereadores de Criciúma.
Dalsasso espera ver as melhorias sendo realizadas no local após a reunião, para que o comércio volte a fluir e para que sua ótica possa perdurar por muito tempo, garantindo o sustento como foi durante a trajetória de 25 anos.
"Tem que reformar, fazer os reparos e tirar as goteiras que tem. Queremos uma solução para que possamos voltar a trabalhar tranquilos”.

A reportagem do Portal Engeplus fez contato com a Diretoria de Comunicação da Prefeitura de Criciúma para solicitar informações referentes ao plano da administração municipal em relação ao presente e futuro da Rua Coberta - Giro Henrique Lodetti. As respostas não foram enviadas. O espaço segue aberto para atualização.
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