Sem acesso ao Braille, cegos enfrentam desafios na alfabetização
Educação inclusiva
'Investimento nessa área era forte', afirmou professor sobre sistema tátil

A tecnologia tem tornado o cotidiano de pessoas com deficiência visual mais acessível, independente e inclusivo. Por outro lado, as dificuldades continuam existindo, afetando, por exemplo o ensino básico, com a falta de acesso à alfabetização por meio do Sistema Braille. O sistema tátil de leitura e escrita teve seu Dia Nacional celebrado nesta quarta-feira, dia 8.
“Embora eu atue na área de tecnologia, tenho a convicção de que os avanços que conquistamos só foram possíveis graças ao surgimento desse sistema. Foi o Braille que nos tirou do mais completo ostracismo e nos permitiu ter contato com o universo das palavras. A partir dele, passamos a acessar a leitura, a escrita e o conhecimento de forma autônoma, o que nos possibilitou, ao longo do tempo, nos tornarmos cada vez mais pertencentes à sociedade", afirmou o coordenador do comitê formado por pessoas cegas e com baixa visão em Criciúma, Francis Guimarães.
Para ele, é importante falar desse sistema. "Foi criado por Louis Braille, um jovem cego, e isso evidencia algo fundamental: a importância do protagonismo das próprias pessoas com deficiência. Mostra, na prática, que o princípio ‘nada sobre nós sem nós’, presente na Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, sempre foi e continua sendo essencial”, disparou.
O deficiente visual, assistente técnico pedagógico e professor, que atua em Cocal do Sul, Alexandre Rzatki, ensina o sistema há mais de 20 anos. Segundo ele, desde que as bibliotecas começaram a fechar, o acesso aos materiais em braille foi se acabando.
"Em Criciúma, que já foi polo em Braille, o único lugar que consigo encontrar alguma coisa é na biblioteca da Unesc. Quando eu frequentava lá como acadêmico trouxemos muita coisa de São Paulo e Rio de Janeiro. Quando foi fechando as bibliotecas, os livros foram para a reciclagem. Há uma carência muito grande na questão da alfabetização de pessoas com deficiência visual que estão dentro de casa, porque não têm aquele apoio pedagógico que tinha até dez anos atrás”, disse.
Atualmente, Rzatki utiliza um material próprio para ensinar o Sistema Braille e busca dar apoio e incentivar a inclusão. “No ano passado encaminhei três cegos por motivos diferentes para a Associação de Cegos de Tubarão e Florianópolis para obterem tecnologia assistiva e cão-guia. A associação em Criciúma fechou e hoje tento dar apoio particular, ou as prefeituras me chamam para dar palestras”, frisou.
Em 2024, a ONU destacou que o braille é considerado essencial no contexto da educação, da liberdade de expressão e de opinião, bem como da inclusão social, conforme previsto na Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência.
Entenda
O Sistema Braille foi criado em 1825 pelo francês Louis Braille, que ficou cego aos 3 anos em razão de um acidente que causou infecção nos dois olhos. A versão mais conhecida da escrita data de 1837. O sistema permite a comunicação em várias línguas.
Colaboração: Agência Brasil



