Um amor inclusivo: criciumense com autismo encontra na equoterapia um sentido para a vida
Criciúma
Eliezer Mendes de Oliveira, de 11 anos, foi diagnosticado há quatro anos com autismo

Um amor que não se mede, não se compara e, principalmente, não se repete. Assim é a amizade entre Eliezer Mendes de Oliveira, de 11 anos, pelos cavalos, mas em especial com sua égua Tostada.
Ele foi diagnosticado com transtorno de oposição desafiante (TOD), que é caracterizado por distúrbios do controle de impulsos e da conduta e por comportamentos agressivos; Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), que é um transtorno neurobiológico, de causas genéticas, que aparece na infância e frequentemente acompanha a pessoa por toda a sua vida; Transtorno do déficit de atenção e Transtorno do Espectro Autista nível 1.
A mãe de Eliezer, Simone Mendes Maciel, conta que o filho possuía atitudes agressivas e as professoras não tinham paciência com ele, que o forçavam a dormir e, por isso, procurou ajuda médica e descobriu o diagnóstico do filho. “Ele era para ir para a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE). Meu filho sempre tomou muitas medicações, mas acabamos colocando ele na Associação de Pais e Amigos de Autistas (AMA) uma vez por semana. Ele não se adaptou e acabou iniciando no Bairro da Juventude, local em que se adaptou e foi muito bem acolhido. E o psicossocial começou a atende-lo e notou algumas dificuldades e o encaminharam para multiprofissionais da saúde que descobriram o diagnóstico do Eliezer. Atualmente está no 6° ano do Ensino Fundamental. Ele é uma criança diferente, precisa de mais atenção e vive dias e dias”, conta.
Simone conta que precisou de ajuda para aceitar os diagnósticos do filho. “Eu não queria aceitar. Fiquei um ano de luto. Descobrimos o autismo há quatro anos e foi toda uma batalha que tivemos que vencer. Com dois anos, ele ia para a creche e todos os pais recebiam portfólio dos filhos. Eu também recebia, entretanto não tinham atividades iguais as outras crianças. As professoras simplesmente diziam que ele não fazia, não participava e isso me doía muito. Era difícil acreditar e também aceitar. O Bairro da Juventude nos recebeu e nos acolheu. Me ajudou muito com o meu filho”, afirma.
Por ser uma criança inteligente e também por querer praticar esportes, como andar de skate e bicicleta, Simone sempre o incentivou e mostrou que ele poderia fazer o que quisesse. “Com conversas e muito respeito ao tempo dele, explico detalhadamente o que pode o que não pode. Mas o amor dele pelos rodeios, cavalos, bois e laçadas sempre foi maior que tudo. Desde bebê ele ia aos rodeios e já demonstrava que amava. Minha família sempre foi ligada a rodeios e o amor vem desde a gestação”, comenta.
Amor que cresce dia após dia
A família de Eliezer percebeu que os cavalos estavam ajudando ele e os olhos brilhavam quando ele chegava próximo ao animal. “Pesquisamos muito e encontramos a equoterapia, que poderia ajudar ele. Até pagamos para o Eliezer fazer, porém se tornaria muito caro”, lembra.
A equoterapia é um método terapêutico e educacional, que utiliza o cavalo dentro de uma abordagem interdisciplinar, nas áreas de saúde, educação e equitação, buscando o desenvolvimento biopsicossocial de pessoas portadoras de deficiência ou com necessidades especiais.
Com a chegada da pandemia em 2020, tudo fechou e Eliezer poderia regredir no seu tratamento. Foi quando a família teve a ideia de comprar um pônei. “Ele já frequentava rodeios e nunca tinha tido a oportunidade de andar a cavalo. Como ele já tinha realizado sessões de equoterapia, sabíamos que durante a pandemia, com tudo fechado, poderia ajudar ele em casa. O avô materno Paulo Roberto pagou pelo pônei em oito vezes e o pônei mudou a nossa história, pois ele melhorou muito a convivência e a socialização”, ressalta.
Com Eliezer crescendo, o pônei não aguentava mais e foi necessário buscar um cavalo. “Buscamos cavalos para comprar, até conhecemos um que seria de doação, mas o Eliezer e o animal não se conectaram. Mas tempo depois conhecemos a Júlia Pavlak que tinha uma égua e queria vendê-la. Ela conheceu a história do Eliezer, diminuiu o preço e se tornou uma grande amiga da família. Compramos a égua com o dinheiro da venda do pônei. Essa égua nasceu pra conhecer o Eliezer e vice-versa. O nome da égua é Tostada. Ambos se conectam e são grandes amigos”, garante. “Atualmente, a Júlia mora conosco, nos ajuda a cuidar da égua e também possui um cavalo. Ela me ajuda diariamente também com o Eliezer e faz parte da nossa família”, completa.
Simone, Eliezer e Júlia com a égua Tostada.
“Ele melhorou a postura e a comunicação dele evoluiu. Realmente é um dia após o outro, mas ele tem mostrado uma evolução constante com a chegada da Tostada na sua vida”, observa Júlia.
Rodeios: uma paixão
Eliezer frequenta ao lado da mãe, dos avós maternos Paulo Roberto e Natalina Mendes e também de Júlia rodeios em todo Sul do Brasil. Mas foi São José dos Ausentes (RS) o divisor de águas na vida da família. “Foi incrível o que aconteceu no Rodeio da Saudade de São José dos Ausentes. Nós precisamos de inclusão social, e foi o que ocorreu. Nós precisamos que as pessoas enxerguem o quanto isso é importante na vida do Eliezer. Todas as pessoas precisam ser incluídas na sociedade. O Eliezer foi incluído em um rodeio pela primeira vez em São José dos Ausentes. Foi a primeira vez que ele deu uma armada no boi na cancha. Foi o primeiro de muitos. Ele começou a competir e, dessa oportunidade, ele evoluiu e vai evoluir cada vez mais”, destaca. O laço é o instrumento utilizado para fazer a armada que é a parte arremessada na cabeça do gado e tem medidas que obedecem a categoria do lançador definida pela idade ou sexo.
“O autista é livre, ele só tem que ser visto com amor e carinho”.
Simone Mendes Maciel, mãe.
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Eliezer entra nos rodeios com uma bandeira sobre o autismo. “Essa é a nossa missão, falar sobre o autismo, sobre a inclusão e mostrar à sociedade que todas as pessoas devem ser aceitas", comenta Simone. “Meu filho sofre com mudanças repentinas de humor, tem dias bons e ruins, mas precisamos respeitá-lo. É uma criança que precisa de atenção 24 horas, mas ele fará o que ele quiser”, completa.
Simone e Eliezer com a bandeira levada aos rodeios.
Dia a dia
Eliezer estuda no período integral no Bairro da Juventude e durante as manhãs tem treinado habilidades e equilíbrio nas laçadas. O objetivo é ter experiência para competições e apresentações em rodeios.
“Ele gosta, se diverte e faz bem para a sua saúde e, por isso, o apoiamos tanto. Minha família também nos apoia muito e nos ajuda financeiramente a ir em rodeios e no dia a dia, pois não trabalho, já que dedico meus dias para o Eliezer”, explica.
Futuro
Simone conta que a égua de Eliezer vai junto aos rodeios, pois são amigos inseparáveis. Eles fizeram uma rifa para comprar o reboque para carregá-la. “Tudo por aqui é com muito esforço e precisamos muitas vezes de ajuda para comprar as coisas e fizemos uma rifa para poder adquirir o reboque. Veio com alguns problemas, acabou quebrando na última semana. Mas estamos lutando dia após dia. Nossa missão é tentar dar qualidade de vida também para a égua, ou seja, uma ração adequada”, comenta. “O pônei foi um divisor de água na vida do Eliezer e sabemos que agora a égua também ajudará muito ele. Meu filho mostrou uma evolução muito grande com a chegada dos dois animais”, acrescenta.
O apoio da família de Eliezer também faz ele melhorar no dia a dia. “Vou continuar apoiando ele em todas as suas vontades. Ele poderá ser o que quiser. Quer continuar indo ao rodeio? Ele vai. Quer andar de skate? Vai. Quer pedalar? Pode. Quer ser livre? Será. Ele pode tudo e todos podem tudo. Isso é inclusão. Ele tem suas dificuldades? Tem. E, por isso, é no seu tempo. Sem atropelar nada e nem ninguém, com liberdade e para melhorar sua qualidade de vida”, afirma.
Eliezer demonstrou muita sabedoria ao andar a cavalo, nos treinos de laços e ainda tentou ensinar a repórter, que sem muitas habilidades, não conseguiu acertar nenhuma laçada. “Isso mostra o quão ele evoluiu sua comunicação. Claro, da maneira dele, no tempo dele. Ele consegue conversar, se comunicar e tenta ajudar uma pessoa que ele nunca viu a laçar. Aos poucos, um passo de cada vez, vamos alçar voos maiores”, pontua a mãe.



