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Um amor inclusivo: criciumense com autismo encontra na equoterapia um sentido para a vida

Criciúma

Eliezer Mendes de Oliveira, de 11 anos, foi diagnosticado há quatro anos com autismo

Por Rafaela Custódio07 de março de 2023 8 min de leitura
Rafaela Custódio/Portal Engeplus

Um amor que não se mede, não se compara e, principalmente, não se repete. Assim é a amizade entre Eliezer Mendes de Oliveira, de 11 anos, pelos cavalos, mas em especial com sua égua Tostada.

Ele foi diagnosticado com transtorno de oposição desafiante (TOD), que é caracterizado por distúrbios do controle de impulsos e da conduta e por comportamentos agressivos; Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), que é um transtorno neurobiológico, de causas genéticas, que aparece na infância e frequentemente acompanha a pessoa por toda a sua vida; Transtorno do déficit de atenção e Transtorno do Espectro Autista nível 1.

A mãe de Eliezer, Simone Mendes Maciel, conta que o filho possuía atitudes agressivas e as professoras não tinham paciência com ele, que o forçavam a dormir e, por isso, procurou ajuda médica e descobriu o diagnóstico do filho. “Ele era para ir para a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE). Meu filho sempre tomou muitas medicações, mas acabamos colocando ele na Associação de Pais e Amigos de Autistas (AMA) uma vez por semana. Ele não se adaptou e acabou iniciando no Bairro da Juventude, local em que se adaptou e foi muito bem acolhido. E o psicossocial começou a atende-lo e notou algumas dificuldades e o encaminharam para multiprofissionais da saúde que descobriram o diagnóstico do Eliezer. Atualmente está no 6° ano do Ensino Fundamental. Ele é uma criança diferente, precisa de mais atenção e vive dias e dias”, conta.

Simone conta que precisou de ajuda para aceitar os diagnósticos do filho. “Eu não queria aceitar. Fiquei um ano de luto. Descobrimos o autismo há quatro anos e foi toda uma batalha que tivemos que vencer. Com dois anos, ele ia para a creche e todos os pais recebiam portfólio dos filhos. Eu também recebia, entretanto não tinham atividades iguais as outras crianças. As professoras simplesmente diziam que ele não fazia, não participava e isso me doía muito. Era difícil acreditar e também aceitar. O Bairro da Juventude nos recebeu e nos acolheu. Me ajudou muito com o meu filho”, afirma.

Por ser uma criança inteligente e também por querer praticar esportes, como andar de skate e bicicleta, Simone sempre o incentivou e mostrou que ele poderia fazer o que quisesse. “Com conversas e muito respeito ao tempo dele, explico detalhadamente o que pode o que não pode. Mas o amor dele pelos rodeios, cavalos, bois e laçadas sempre foi maior que tudo. Desde bebê ele ia aos rodeios e já demonstrava que amava. Minha família sempre foi ligada a rodeios e o amor vem desde a gestação”, comenta.

Amor que cresce dia após dia

A família de Eliezer percebeu que os cavalos estavam ajudando ele e os olhos brilhavam quando ele chegava próximo ao animal. “Pesquisamos muito e encontramos a equoterapia, que poderia ajudar ele. Até pagamos para o Eliezer fazer, porém se tornaria muito caro”, lembra.

A equoterapia é um método terapêutico e educacional, que utiliza o cavalo dentro de uma abordagem interdisciplinar, nas áreas de saúde, educação e equitação, buscando o desenvolvimento biopsicossocial de pessoas portadoras de deficiência ou com necessidades especiais.

Com a chegada da pandemia em 2020, tudo fechou e Eliezer poderia regredir no seu tratamento. Foi quando a família teve a ideia de comprar um pônei. “Ele já frequentava rodeios e nunca tinha tido a oportunidade de andar a cavalo. Como ele já tinha realizado sessões de equoterapia, sabíamos que durante a pandemia, com tudo fechado, poderia ajudar ele em casa. O avô materno Paulo Roberto pagou pelo pônei em oito vezes e o pônei mudou a nossa história, pois ele melhorou muito a convivência e a socialização”, ressalta.

Com Eliezer crescendo, o pônei não aguentava mais e foi necessário buscar um cavalo. “Buscamos cavalos para comprar, até conhecemos um que seria de doação, mas o Eliezer e o animal não se conectaram. Mas tempo depois conhecemos a Júlia Pavlak que tinha uma égua e queria vendê-la. Ela conheceu a história do Eliezer, diminuiu o preço e se tornou uma grande amiga da família. Compramos a égua com o dinheiro da venda do pônei. Essa égua nasceu pra conhecer o Eliezer e vice-versa. O nome da égua é Tostada. Ambos se conectam e são grandes amigos”, garante. “Atualmente, a Júlia mora conosco, nos ajuda a cuidar da égua e também possui um cavalo. Ela me ajuda diariamente também com o Eliezer e faz parte da nossa família”, completa.


Simone, Eliezer e Júlia com a égua Tostada.

“Ele melhorou a postura e a comunicação dele evoluiu. Realmente é um dia após o outro, mas ele tem mostrado uma evolução constante com a chegada da Tostada na sua vida”, observa Júlia.

Rodeios: uma paixão

Eliezer frequenta ao lado da mãe, dos avós maternos Paulo Roberto e Natalina Mendes e também de Júlia rodeios em todo Sul do Brasil. Mas foi São José dos Ausentes (RS) o divisor de águas na vida da família. “Foi incrível o que aconteceu no Rodeio da Saudade de São José dos Ausentes. Nós precisamos de inclusão social, e foi o que ocorreu. Nós precisamos que as pessoas enxerguem o quanto isso é importante na vida do Eliezer. Todas as pessoas precisam ser incluídas na sociedade. O Eliezer foi incluído em um rodeio pela primeira vez em São José dos Ausentes. Foi a primeira vez que ele deu uma armada no boi na cancha. Foi o primeiro de muitos. Ele começou a competir e, dessa oportunidade, ele evoluiu e vai evoluir cada vez mais”, destaca. O laço é o instrumento utilizado para fazer a armada que é a parte arremessada na cabeça do gado e tem medidas que obedecem a categoria do lançador definida pela idade ou sexo.

“O autista é livre, ele só tem que ser visto com amor e carinho”.

Simone Mendes Maciel, mãe.
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Eliezer entra nos rodeios com uma bandeira sobre o autismo. “Essa é a nossa missão, falar sobre o autismo, sobre a inclusão e mostrar à sociedade que todas as pessoas devem ser aceitas", comenta Simone. “Meu filho sofre com mudanças repentinas de humor, tem dias bons e ruins, mas precisamos respeitá-lo. É uma criança que precisa de atenção 24 horas, mas ele fará o que ele quiser”, completa.


Simone e Eliezer com a bandeira levada aos rodeios.

Dia a dia

Eliezer estuda no período integral no Bairro da Juventude e durante as manhãs tem treinado habilidades e equilíbrio nas laçadas. O objetivo é ter experiência para competições e apresentações em rodeios.

“Ele gosta, se diverte e faz bem para a sua saúde e, por isso, o apoiamos tanto. Minha família também nos apoia muito e nos ajuda financeiramente a ir em rodeios e no dia a dia, pois não trabalho, já que dedico meus dias para o Eliezer”, explica.

Futuro

Simone conta que a égua de Eliezer vai junto aos rodeios, pois são amigos inseparáveis. Eles fizeram uma rifa para comprar o reboque para carregá-la. “Tudo por aqui é com muito esforço e precisamos muitas vezes de ajuda para comprar as coisas e fizemos uma rifa para poder adquirir o reboque. Veio com alguns problemas, acabou quebrando na última semana. Mas estamos lutando dia após dia. Nossa missão é tentar dar qualidade de vida também para a égua, ou seja, uma ração adequada”, comenta. “O pônei foi um divisor de água na vida do Eliezer e sabemos que agora a égua também ajudará muito ele. Meu filho mostrou uma evolução muito grande com a chegada dos dois animais”, acrescenta.

O apoio da família de Eliezer também faz ele melhorar no dia a dia. “Vou continuar apoiando ele em todas as suas vontades. Ele poderá ser o que quiser. Quer continuar indo ao rodeio? Ele vai. Quer andar de skate? Vai. Quer pedalar? Pode. Quer ser livre? Será. Ele pode tudo e todos podem tudo. Isso é inclusão. Ele tem suas dificuldades? Tem. E, por isso, é no seu tempo. Sem atropelar nada e nem ninguém, com liberdade e para melhorar sua qualidade de vida”, afirma.

Eliezer demonstrou muita sabedoria ao andar a cavalo, nos treinos de laços e ainda tentou ensinar a repórter, que sem muitas habilidades, não conseguiu acertar nenhuma laçada. “Isso mostra o quão ele evoluiu sua comunicação. Claro, da maneira dele, no tempo dele. Ele consegue conversar, se comunicar e tenta ajudar uma pessoa que ele nunca viu a laçar. Aos poucos, um passo de cada vez, vamos alçar voos maiores”, pontua a mãe.

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