“Um psicólogo no bolso”: como a inteligência artificial está entrando na saúde mental
Saúde e tecnologia
Psicólogo de Criciúma cria IA para oferecer suporte emocional a trabalhadores

A saúde mental se tornou uma das principais preocupações de saúde no mundo e um desafio crescente também no Brasil. Em 2025, mais de 546 mil brasileiros foram afastados do trabalho por transtornos mentais, segundo dados do Ministério da Previdência. O número representa um aumento expressivo em relação a 2021, quando foram registrados quase 200 mil afastamentos.
O crescimento acompanha uma preocupação cada vez maior da população. De acordo com o Relatório sobre Serviços de Saúde 2025, da empresa de pesquisa de mercado Ipsos, a saúde mental é apontada como o principal problema de saúde em 18 países, incluindo o Brasil. Entre os entrevistados, 52% afirmaram considerar a saúde mental sua maior preocupação, contra 18% em 2018.
Entre as mulheres, o índice chega a 60%, enquanto 44% dos homens apontam a saúde mental como sua principal preocupação. O Brasil também aparece na quinta posição entre os países com os maiores índices de estresse, segundo o levantamento.
Diante desse cenário, ferramentas de tecnologia começam a ganhar espaço em uma área historicamente marcada pela necessidade de escuta, acompanhamento e acesso a profissionais especializados. Entre as novas possibilidades estão soluções desenvolvidas para auxiliar no cuidado com a saúde mental.

Pensando justamente em auxiliar trabalhadores e empresas no cuidado com a saúde mental, o psicólogo de Criciúma Rui Búrigo, que atua há 21 anos na área, criou a Vivere, empresa que desenvolveu, segundo ele, a primeira inteligência artificial (IA) do Brasil criada a partir dos conhecimentos de um psicólogo.
“A ideia da IA nasceu em fevereiro de 2025, quando uma empresa de São Paulo me procurou para fazer um avatar. Até então, eu confesso que não sabia que isso era possível, porque a IA estava chegando ao Brasil com o ChatGPT, por exemplo. Essa empresa já tinha feito o avatar do doutor Augusto Cury, médico e psiquiatra, e estava precisando de alguém da área da psicologia para fazer um avatar também voltado à saúde mental. Como o doutor Augusto Cury foi mais para a área educacional, eles queriam alguém da área da saúde mental, e veio o meu nome”, conta.
O objetivo era ter o conhecimento de Rui “na palma da mão”. Ou seja, uma pessoa poderia entrar em contato pelo WhatsApp e conversar com o avatar sobre seus problemas e, com base no conhecimento acumulado pelo psicólogo ao longo de mais de duas décadas, receber respostas da ferramenta.
“Após a criação do avatar, foi criada a conversão para a plataforma do WhatsApp. E aí veio a ideia do mundo empresarial, corporativo, por conhecer bastante gente, conversar com muitas pessoas e entender que hoje a gente tem vivido a era da saúde mental, porque as pessoas estão sofrendo mais hoje. E as empresas são feitas do quê? De pessoas. Atualmente, temos muita automação, muita inteligência artificial, mas continuamos tendo pessoas nas empresas e precisamos pensar no ser humano”, observa.
“Colocar um psicólogo no bolso das pessoas”
Búrigo conta que aceitou a ideia de criar a empresa e oferecer um serviço que, segundo ele, é único no país. “Qual é o meu principal objetivo? Ajudar as pessoas. A ideia foi colocar um psicólogo no bolso das pessoas. Nós estamos conseguindo fazer com que as empresas ofereçam mais qualidade de vida aos seus colaboradores”, afirma.

O que a Vivere oferece?
A empresa criada por Búrigo funciona pelo WhatsApp. O colaborador acessa a plataforma pelo celular e inicia uma conversa com o avatar, desenvolvido com inteligência artificial. O profissional pode enviar mensagens de texto ou áudio, e o avatar responde aos questionamentos com base nos estudos e conhecimentos do psicólogo.

A ferramenta dá qualidade de vida para o colaborador e fornece informações para a empresa sobre saúde mental. Então, ela deixa a empresa dentro da norma da NR-1 [Norma Regulamentadora nº 1, que estabelece disposições gerais e critérios relacionados à segurança e à saúde no trabalho]. Antigamente, as empresas faziam trabalhos esporádicos de saúde mental, só que a gente sabe que esses períodos esporádicos não funcionam, não trazem um resultado real”, comenta.
As empresas não têm acesso às conversas individuais dos colaboradores. Segundo Búrigo, elas recebem informações consolidadas em um banco de dados sobre a situação da saúde mental na empresa.
“Não tem nenhum dado que não seja real, porque ele faz uma filtragem de todas as conversas das pessoas que estão conversando e dá um relatório. Então, isso ficou muito bom porque não tem erro. Não temos acesso a nenhuma conversa, tanto que é pelo WhatsApp, é criptografado. As mensagens são todas hospedadas no banco de dados da Amazon, nos Estados Unidos”, frisa. Búrigo explica como treinou a IA:
Ajuda coletiva
O sistema não mostra para a empresa as conversas individuais, mas apresenta os assuntos mais abordados pelos colaboradores.
“A ansiedade está liderando todos os que eu vi até agora. Vem burnout, depressão, assuntos de família, religião. Ele mostra tudo, mostra o ranking dos assuntos. Além disso, também organiza por setor, e o máximo que a gente consegue chegar é setorizá-los. Com essas informações, conseguimos identificar que, no setor ‘X’, há um índice alto de burnout. No setor ‘Y’, há uma identificação de possível ideação suicida, por exemplo”. Então, por setor, pelas conversas, o sistema consegue detectar onde essa pessoa se encontra”, detalha.
“A gente só não pode falar quem é, porque não podemos ultrapassar o limite da orientação e do sigilo também, porque é crime. Então, por isso, a gente faz por setor”, destaca.
Empresas e pessoas
Atualmente, a Vivere atende 32 empresas. “Nós temos, no banco de dados, 7.900 profissionais e quase cinco mil utilizando. Ou seja, a taxa de adesão está em 69%”, afirma. Búrigo ressalta que a IA não tem como objetivo substituir a terapia ou os atendimentos psicológicos.
Uma das empresas que utiliza o serviço da Vivere é a Cliniimagem, de Criciúma. O psicólogo Vinicius Fernandes Ferreira, que atua como auxiliar de RH, ressaltou que, em um primeiro momento, surgiram dúvidas, principalmente em relação à segurança e à confiabilidade da tecnologia. No entanto, ao entender a proposta, a empresa percebeu uma oportunidade. “Estamos oferecendo aos nossos colaboradores um canal de suporte emocional imediato, seguro, humanizado e disponível 24 horas por dia”, destaca.
Ferreira conta que a Cliniimagem optou por escolher dois setores da empresa para iniciar o trabalho com a Vivere. “Tínhamos dois setores que apresentavam maior fragilidade emocional, principalmente em razão da alta demanda de trabalho e de alguns conflitos interpessoais. Por isso, decidimos iniciar o projeto justamente com esses colaboradores, como um piloto, para avaliarmos a adesão e entendermos como a ferramenta seria utilizada na prática. E o retorno foi bastante positivo. Percebemos que os colaboradores que realmente necessitavam de suporte estavam utilizando o serviço e, com o passar do tempo, os resultados começaram a ser perceptíveis. Além disso, por meio dos relatórios gerais sobre os temas abordados, conseguimos compreender melhor algumas das necessidades das nossas equipes e direcionar ações mais assertivas para aquilo que elas realmente precisavam”, relata.
O psicólogo da Cliniimagem destaca que o RH da empresa não possui acesso às conversas. “Um ponto muito importante é a privacidade. O RH e a empresa não têm acesso às mensagens ou ao conteúdo das conversas dos colaboradores. O que recebemos são apenas indicadores gerais, como a frequência de utilização e os temas que aparecem com maior recorrência. Conseguimos compreender quais assuntos estão mais presentes entre os colaboradores e direcionar ações internas de forma mais assertiva, sem comprometer a privacidade e a segurança de quem utiliza o serviço”, pontua. Atualmente, todos os funcionários da Cliniimagem possuem acesso ao serviço da Vivere.

Ferreira destaca que a ferramenta chega para auxiliar tanto os funcionários quanto a empresa. “São momentos de aprendizado e de novas ferramentas e, quando soubermos utilizá-las da melhor forma, elas acabam sendo aliadas ao cuidado e à saúde mental. No caso da Vivere, ela nos indica nossas fragilidades e onde precisamos reforçar pilares para que nossa clínica seja tão boa para os clientes quanto para os colaboradores”, afirma.

Dados
Segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), os principais transtornos de saúde mental entre os brasileiros e que mais provocam afastamentos são a ansiedade e a depressão. Além disso, crescem os casos de estresse crônico e de síndrome de burnout.
Só faria uma atenção nessa última informação: como você está usando um dado atribuído à ABP, eu conferiria a fonte original antes da publicação, principalmente a afirmação de que ansiedade e depressão são os transtornos que “mais provocam afastamentos”. É uma informação objetiva que vale estar muito bem amparada.
Síndrome de Burnout
A Síndrome de Burnout, também conhecida como Síndrome do Esgotamento Profissional, é, segundo informações do Ministério da Saúde, um distúrbio emocional caracterizado por sintomas de exaustão extrema, estresse e esgotamento físico resultantes de situações de trabalho desgastantes, que demandam muita competitividade ou responsabilidade. A principal causa da doença está justamente relacionada ao excesso de trabalho.
Os principais sinais e sintomas que podem indicar a Síndrome de Burnout são:
Cansaço excessivo, físico e mental;
Dificuldade de concentração;
Sentimentos de incompetência;
Dor de cabeça frequente;
Alterações no apetite;
Sentimentos de fracasso e insegurança;
Alterações repentinas de humor;
Alterações nos batimentos cardíacos;
Insônia;
Negatividade constante;
Isolamento;
Dores musculares;
Pressão alta;
Sentimentos de derrota e desesperança;
Fadiga;
Problemas gastrointestinais.
O diagnóstico da Síndrome de Burnout é feito por um profissional especializado, após análise clínica do paciente. O psiquiatra e o psicólogo são os profissionais de saúde indicados para identificar o problema e orientar sobre a melhor forma de tratamento, de acordo com cada caso.
Tecnologia como aliada, mas não substituta
Em meio ao crescimento dos casos de ansiedade, depressão, estresse e burnout, a tecnologia surge como mais uma possibilidade de acesso ao cuidado com a saúde mental. Ferramentas como a Vivere buscam ampliar a escuta e oferecer suporte em momentos em que o trabalhador precisa de orientação, além de fornecer às empresas informações que podem ajudar na identificação de problemas e na criação de ações preventivas.
Mais do que acompanhar números e indicadores, o desafio está em reconhecer que, por trás de cada dado, existe uma pessoa. E, nesse cenário, a tecnologia pode ser uma ferramenta de apoio, mas o cuidado com a saúde mental continua dependendo de escuta, acolhimento e, quando necessário, acompanhamento especializado.



