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A longa espera da Família Rita

Por Redação Engeplus

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Residente na Alemanha e viúva do desaparecido político João Batista Rita, a chilena Amelia Barrera visita Criciúma pela primeira vez no próximo dia 20 para conhecer os familiares do ex-marido.

O encontro colocará fim a uma longa espera de 34 anos para dissipar dúvidas e reavivar a memória de duas paixões: a que João Batista nutria pela família e pela esposa.

Militante da organização M3G, baseada em Porto Alegre e focada na guerrilha urbana, João Batista nasceu em 1948 em Braço do Norte, mas ainda criança veio com a família para Criciúma.

Primogênito entre oito filhos e filhas, fez o antigo ginásio no Colégio Michel e transferiu-se para a capital gaúcha a fim de cursar o ensino médio.

Aidê Rita Duarte, irmã dois anos mais nova, o acompanhou. “Tínhamos parentes em Porto Alegre e após morarmos em vários locais passamos a residir com a família de um tio num sítio no interior de Cachoeirinha”, conta. “Meu irmão foi preso no dia 10 de abril de 1970. Era de manhã quando os policiais bateram à nossa porta com ele algemado. Fizeram uma revista, desenterraram algumas armas no quintal e depois meu contato com ele foi sempre na Ilha Presídio.”

LIBERTAÇÃO
Em dezembro daquele ano, o seqüestro do embaixador suíço no Brasil, Giovanni Enrico Bücher, por um grupo guerrilheiro viabilizou a troca por 70 presos políticos, entre eles João Batista. No dia 14 de janeiro de 1971, um Boeing da Varig desembarcou o grupo no aeroporto Pudahuel, no Chile. A partir dali, os contatos com Aidê foram sempre por carta até o golpe do general Pinochet em 11 de setembro de 1973.

”Meu irmão mudou-se para a Argentina junto com centenas de outros exilados, entre eles a Amelia, com quem se casou em Buenos Aires”, relata Aidê. “Mas tanto o casamento quanto a permanência deles na Argentina durou pouco porque ele desapareceu em dezembro daquele ano. É isso que torna essa história toda uma espécie de filme sem final. E é isso que espero descobrir no encontro com a Amelia: qual foi o final dessa história.”

MEMÓRIA
Registros do Comitê Pró-Memória dos Desaparecidos Políticos apontam que João Batista foi seqüestrado em 11 de dezembro de 1973 por um grupo de policiais brasileiros. A referência à nacionalidade dos agentes foi repassada por testemunhas que ouviram frases em português. Com o catarinense, estava o ex-major gaúcho Joaquim Pires Cerveira, também desaparecido.

João Batista, segundo os mesmos registros, foi visto pela última vez com marcas visíveis de tortura no DOI-Codi do Rio em 13 de janeiro de 1974. O período coincide com a última carta enviada da Argentina por Amelia. De lá para cá, chegaram a conversar por telefone, em ligações feitas por Amelia da Alemanha, país em que se asilou e voltou a se casar.

VISITA
Durante sua permanência na cidade, Amelia deve visitar o Monumento aos Desaparecidos Políticos, no bairro Santa Luzia, e conversar com lideranças do DCE João Batista Rita na Unesc. Tanto a praça quanto o monumento necessitam de uma faxina e reparos urgentes.

AINDA PRESENTE
Entre os familiares, Aidê foi quem mais teve contato com João Batista. Inconformada com o desaparecimento, ela chegou a emigrar para os Estados Unidos em 1999, residindo na região de Boston até janeiro deste ano, quando retornou. Mora atualmente no bairro São Luiz.

Ao descrever o irmão enquanto folheia cartas e fotos dele, além de arquivos de jornais do início da década de 70, deixa-se trair por frases que invocam uma presença vívida. É como se o contato entre ambos pudesse ser retomado a qualquer momento. De forma resumida, algumas de suas frases.

Na Ilha Presídio, as visitas eram permitidas somente aos domingos. Íamos num bando pegando a barca para cruzar o Guaíba. Eu levava o tipo de comida que ele não recebia lá, mas sobretudo frutas e pudim de leite condensado. Ele adorava este pudim.

Na época em que eu visitava o João Batista na Ilha Presídio, eu trabalhava como doméstica. E por uma dessas ironias do destino, trabalhava na casa de um major da Aeronáutica. Ele sabia do meu irmão e se mostrou solidário várias vezes. Me ajudou sempre que pôde.

Falaram muitas coisas erradas a respeito do João Batista. Uma delas foi que a nossa mãe morreu de desgosto depois da prisão dele quando, na verdade, a mãe já havia morrido muito tempo antes. Outra inverdade foi que faltou apoio da família. Meus irmãos eram jovens demais para entender o que se passava e meu pai sofreu com a pressão da opinião pública. Porque o que se divulgava e se falava na época é que ele era assaltante de banco, bandido mesmo.

Quero receber a Amelia na minha casa, me sentar com ela, conversar com ela, mas sem imprensa por perto. Quero que ela me fale do João Batista, dos últimos dias dele porque ele e eu éramos muito próximos. A história dele teve um final triste, mas para mim não teve final algum até hoje. E uma história sem final... não é história.

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