Após seis
Após seis meses, ex-comerciante ainda sofre as consequências de injeção mal aplicada
Medicação foi recebida posto 24 Horas do bairro Próspera. Fabiani Martignago convive com uma ferida aberta, enfrenta tratamento delicado e convive com as mudanças no corpo
Por Redação Engeplus
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Seis meses depois, as marcas de uma injeção com medicamento contra dor aplicada no glúteo direito ainda estão presentes no corpo de Fabiani Martignago, de 43 anos de idade. Além de um grave ferimento nas nádegas desencadeado em março deste ano, a ex-comerciante sofre com a queda dos fios de cabelos e os quilos perdidos em decorrência do tratamento para cicatrização da ferida gerada por uma injeção aplicada no Posto 24 Horas do bairro Próspera, em Criciúma.
Os fios de cabelo que antes emolduravam seu rosto e cobriam a metade das costas, hoje, não chegam aos ombros da ex-comerciante, que perdeu 16 quilos nos últimos meses. Além da aparência física, a rotina de Fabiani não é mais a mesma. Ativa, motivada e independente, atualmente, a moradora do bairro Santa Bárbara é refém de suas próprias limitações. Ao todo, foram cinco vezes na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e 20 dias em coma induzido. “Ninguém acreditava em mim. Estive perto da morte, mas resisti”.
Presa por um ritual diário, Fabiani obrigatoriamente frequenta o posto de saúde do bairro Santa Bárbara duas vezes ao dia. De segunda-feira a segunda-feira, dois curativos são realizados no ferimento. “Vou ao posto todos os dias, sendo que quando cheguei do hospital, a prefeitura de Criciúma disponibilizava três vezes por semana uma enfermeira na minha casa, depois essa assistência diminuiu para duas vezes por semana, depois para uma até que acabaram com este serviço”, afirma. Mesmo impossibilitada de dirigir um carro, Fabiani se desloca todos os dias ao posto de saúde da Santa Bárbara. Já nos fins de semana, ela recorre ao Posto 24 horas do bairro Boa Vista.
Perita – Uma perita infectologista do município de Araranguá foi indicada para acompanhar o caso. Ela não tem nenhum vínculo com os envolvidos para que o resultado da perícia não seja influenciado. “Logo quando saí do hospital, por onde fiquei internada por 75 dias, a perita me deu duas opções de tratamento. Ou fazia um enxerto no local da ferida ou fazia um tratamento para que o local cicatrizasse”, explica. As duas opções ofereciam riscos à paciente, que optou pela cicatrização natural do ferimento. “Disse para ela, se Deus não tirou minha vida até agora é porque não é para ser, então optei pela cicatrização comum”, comenta.
Ausência de assistência, falta de repouso – Após a saída do Hospital São José, de Criciúma, o médico determinou 180 dias (seis meses) de repouso absoluto para Fabiani, no entanto, a exigência médica não é cumprida pela paciente. “Pela falta de assistência tenho uma vida ‘normal’ que não poderia ter. Cozinho, passo, lavo louça, por exemplo, não tenho quem faça para mim”, afirma.
Busca por apoio – Fabiane procurou a secretaria de Saúde de Criciúma algumas vezes. “Nunca tive contato com a secretária Geovânia. Eu e minha advogada estivemos na secretaria de Saúde para falar com a secretária, mas ela não nos recebeu”, afirma. Ainda segundo a paciente, a prefeitura diz que a assistência não pode acontecer para um paciente específico, pois com isso, a secretaria deveria dar assistência a várias pessoas do município. “A questão é que eu não peguei um vírus, eu não fui atropelada na rua, eu estive procurando um auxílio por conta de uma dor dentro de um órgão da prefeitura e olha o que aconteceu comigo. Não é porque eu estou andando e consigo falar que estou bem. Meu problema é interno”, salienta.
Mudança radical de vida – Devido às consequências graves da ferida provocada pela injeção de medicação para dor, Fabiani perdeu cabelo e teve que procurar uma dermatologista. “No começo, era atendida em casa por uma psicológa, mas depois tive que ir ao consultório e como meu deslocamento é complicado parei com o tratamento. Tive que vender meu carro para cobrir os gastos que tenho. Hoje, eu não tenho um Real no bolso, eu não trabalho, não tenho meu dinheiro, não tenho independência, dependo dos outros sempre. Meu casamento, que já estava em crise, terminou por conta dessa completa mudança de vida”, lamenta.
Remédios e tratamentos - Atualmente, a ex-comeciante toma quatro tipos de remédios, sendo dois deles para dor, um fortificante e um comprimido para dormir. O tratamento já dura dois meses e, segundo Fabiane, a perspectiva é que nos próximos dois meses a ferida cicatrize. “Minha melhora não depende apenas do tempo, mas também dos meus cuidados. Não posso dirigir, mas tenho que fazer os curativos”, observa.
Gastos – Fabiani garante que a prefeitura, até o momento, não teve gastos com seu caso. “O único gasto que tiveram foi com o tratamento de oxigenação hiperbárica, no entanto, o dinheiro não saiu da prefeitura. Foram gastos pouco mais de R$ 6 mil, sendo que R$ 3 mil foram pagos pela União e os outros R$ 3 mil pelo Estado”, afirma.
Secretária – Conforme a secretária de saúde de Criciúma, Geovânia de Sá, a prefeitura acompanhou de perto o caso de Fabiani. “Quando ela estava na UTI eu estive no hospital acompanhando de perto o caso dela. Tenho números e notas fiscais comprovando os gastos com a paciente”, destaca. Giovânia ressalta que tudo que estiver ao alcance do Sistema Único de Saúde (SUS) será feito para ajudar Fabiani. “Temos 200 mil pessoas no município para dar assistência médica e não podemos ficar cuidando exclusivamente de um caso. Nunca ficamos omissos diante dos problemas”, ressalta.
Suporte - De acordo com Karina Lobo, coordenadora das urgências e emergências de Criciúma, as sessões bariátricas foram custeadas pela prefeitura. Ao todo, foram dez seções no valor de R$ 342 cada. "Além disso, oferecemos o transporte, a fisioterapia e o profissional da enfermagem. Se ela não está mais recebendo os profissionais em casa é porque foi identificado que não há mais necessidade”, pontua. Karina explica que Fabiani pode procurar o posto de saúde que é sua referência, no caso o posto de saúde do bairro Santa Bárbara, consultar com um médico para ver a necessidade se ela pode ou não pode fazer o deslocamento até a unidade do bairro para fazer os curativos.
Prescrição médica - De acordo com a gerente distrital dos postos de saúde do Centro de Criciúma, Camila Dagostim Lemos, se há prescrição médica para que os curativos sejam feitos em domicílio, o atendimento será realizado. “Se o médico estabelecer que os curativos devem ser feitos em casa, o serviço será feito. Se tivermos essa orientação médica vamos fazer um remanejo de enfermeiros, vamos dar essa assistência”, reforça. Porém, segundo a profissional, no receituário da paciente não há essa especificação.
“Caso ela tenha a determinação de um atendimento em casa, a Fabiani pode apresentar o documento na unidade de saúde, que nos vamos atendê-la. Tudo depende da prescrição do médico”, completa. A gerente acrescenta que o caso de Fabiani é de conhecimento de todos os profissionais tanto do posto de saúde do bairro Santa Bárbara, como do posto 24 horas do bairro Boa Vista. “Orientamos os profissionais para que Fabiani tenha um atendimento especial. Inclusive, a paciente leva roupas de cama dos postos, pois com os curativos os lençóis acabam sujando muito”, salienta.
O ferimento – A evolução do quadro de saúde de Fabiani é acompanhado pelas enfermeiras do posto de saúde do bairro Santa Bárbara. Segundo gerente distrital dos postos de saúde do Centro, a ferida da ex-comerciante apresenta uma evolução positiva. "No início, a ferida apresentava uma cor escura (necrosada) e, atualmente, o local está com uma aparência rosada. É de granulação que chamamos, ou seja, o tecido está se recuperando da lesão”, conclui.



