CERSAIE 2026 - um revestimento sensorial
Design de Superfícies Cerâmicas

A dimensão tátil e sensorial das superfícies cerâmicas apresentadas na Feira Cersaie 2026 em Bolonha, Itália, principal feira do setor cerâmico, pode ser compreendida como uma mudança importante na própria maneira de conceber os revestimentos. Segundo o jornal italiano Corriere Della Sera, a superfície deixa de funcionar apenas como acabamento visual e passa a atuar como meio de interação entre corpo, matéria, luz e espaço. As superfícies são feitas para “olhar e tocar”, nas quais relevos, esmaltes, veios e diferentes materiais envolvem simultaneamente visão e tato.
Tradicionalmente, grande parte da percepção de um revestimento cerâmico esteve sempre associada à imagem: cor, estampa, brilho e reprodução de materiais. Em 2026, entretanto, observa-se uma aproximação mais intensa entre imagem e materialidade. A superfície passa a ser construída para produzir uma resposta corporal: perceber a irregularidade, acompanhar um relevo com os dedos, observar como a luz muda ao longo de uma textura ou reconhecer visualmente uma matéria que, ao toque, apresenta outra qualidade. Esse aspecto é particularmente evidente nos módulos tridimensionais, superfícies caneladas, granulações, relevos e pequenas irregularidades apresentados na feira. Pequenos formatos, mosaicos e módulos tridimensionais criam paredes nas quais esmaltes, elementos metálicos, granilhas e relevos interferem diretamente na percepção da luz. O tato não precisa necessariamente acontecer para que exista uma experiência tátil. Uma textura visível pode produzir uma espécie de expectativa háptica: o observador imagina sua aspereza, maciez, temperatura ou irregularidade antes mesmo de tocá-la.
O relevo possui uma função que vai além da decoração. Ele transforma a superfície em um campo dinâmico de luz e sombra. Quando uma superfície é plana, a luz tende a distribuir-se de maneira relativamente uniforme. Quando recebe ranhuras, cavidades, protuberâncias ou diferentes níveis de profundidade, cada deslocamento altera a reflexão luminosa. O resultado é uma superfície que pode parecer diferente ao longo do dia ou conforme o observador muda de posição. Essa relação entre relevo e iluminação aproxima o revestimento da arquitetura sensorial, onde a superfície não simplesmente cobre a parede, mas participa da maneira como a parede é percebida.
Outro aspecto relevante é a utilização de texturas inspiradas em processos naturais. A feira apresentou releituras de pedra, terra, madeira, cimento, areia, rocha e materiais geológicos, mas não se limita à reprodução fotográfica dessas matérias. A pesquisa procura traduzir suas estruturas, marcas e memórias.
Isso é particularmente significativo para o Design de Superfícies porque evidencia que uma textura pode comunicar não apenas uma aparência, mas também uma origem, um processo e uma narrativa. A dimensão sensorial também se manifesta na maneira como a cor passa a depender da própria estrutura da superfície. Observa-se que uma mesma tonalidade pode assumir características diferentes dependendo da luz, do acabamento e do relevo. A cor, portanto, deixa de ser uma propriedade isolada e passa a funcionar em conjunto com a materialidade. Isso pode ser percebido, por exemplo, nas paletas terrosas — areia, argila, terracota, caramelo, tabaco e marrom, e nos verdes, azuis e tons minerais apresentados na feira. A mesma cor pode parecer mais profunda em uma superfície texturizada, mais luminosa em um esmalte brilhante ou mais silenciosa em um acabamento sem brilho nenhum. Dessa forma, cor, relevo, acabamento e iluminação constituem um sistema perceptivo. É justamente essa interação que permite pensar a superfície como uma experiência integrada pois não se trata de escolher uma cor e depois uma textura, mas de compreender como as duas se transformam mutuamente.
Talvez uma das mudanças mais importantes seja a passagem da superfície como elemento isolado para a superfície como sistema espacial. A Cersaie 2026 evidencia a utilização da cerâmica não somente em pisos e paredes, mas também em mobiliário, volumes arquitetônicos e grandes superfícies contínuas. Isso permite pensar em uma continuidade entre diferentes elementos do ambiente. Uma mesma linguagem pode atravessar parede, piso, bancada, mobiliário ou volume arquitetônico.
O resultado da Feira Cersaie certamente será observado na Revestir em São Paulo 202, com as interpretações destas tendências para o mercado nacional. Vamos aguardar!



