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Colônia Imperial

Colônia Imperial Grão-Pará: o Sul passou por ali

Por Redação Engeplus

5 min de leitura

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Ademar José Fabre (*)

Quem visita a pequena cidade de Grão-Pará, no Sul de nosso Estado, não faz idéia do papel que essa localidade representou como sede de uma das mais importantes empresas de colonização do Estado, no final do Século 19.

Tudo começou com um dote de terras (patrimônio dotal) de 12 léguas quadradas, doadas pelo Imperador D. Pedro 2° à sua filha Princesa Isabel, que contraíra núpcias com o Conde d’Eu (Luiz Felipe Maria Fernando Gastão de Orleans) em 1864.

A gleba escolhida situava-se no Alto Vale dos rios Tubarão e Braço do Norte, em território que hoje compreende, além da antiga sede, mais Orleans e seis outros municípios, a norte-nordeste deste.

A colonizadora foi oficialmente instalada em Grão-Pará, em 2 de dezembro de 1882, tendo a sede levado tal nome em homenagem ao primogênito do casal real, D. Pedro de Orleans e Bragança, o Príncipe de Grão-Pará.

Mas a alegria de sediar a colônia durou pouco, uma vez que, decorridos dois anos, o Conde D’Eu veio conhecer a nova colônia e, antes de visitar sua sede, conheceu o sítio onde hoje se situa Orleans; encantou-se pelo local, especialmente pela presença do rio (Tubarão) e pela nova ferrovia (EFDTC), recém-inaugurada.

Mandou implantar imediatamente uma nova cidade, com o nome de Orleans. Pouco tempo depois (três anos), o local virou distrito, tornando-se município em 1913; logo passou a sediar uma diretoria da colônia e em alguns anos mais, tornou-se sua sede, para decepção dos granparaenses.

O recrutamento de imigrantes coube ao Comendador Joaquim Caetano Pinto Júnior, sócio do empreendimento; ele se instalou em Paris, de onde divulgou as benesses do novo projeto para toda a Europa.

A propaganda da nova colônia prometia tantas vantagens que fazia parecer aos colonos europeus que, enfim, haviam descoberto a terra prometida dos hebreus: terras férteis e abundantes, a serem financiadas a longo prazo, juntamente com implementos agrícolas, moradia gratuita, todos os insumos necessários para o plantio, assistência médica, garantia de colocação da produção.

Essa maciça divulgação trouxe para a nova colônia, a par de colonos experientes na agricultura, imigrantes sem qualificação para as lides agrárias, alguns procedentes de áreas urbanas, movidos pela necessidade de tentar nova vida na América ou, mesmo, por espírito de aventura. Esses não se adaptaram aos meios de vida disponíveis e buscaram outras plagas.

A proclamação da República, sete anos após a implantação da empresa colonizadora, colheu de surpresa seus administradores e a Família Real, temendo o confisco de seus bens, transferiu a companhia para uma colonizadora privada, chamada Empresa Industrial e Colonizadora do Brasil.

Contudo, em que pesem todos esses contratempos, a colônia prosperou e alguns imigrantes mais trabalhadores e organizados conseguiram, em poucos anos, amealhar boa fortuna. Os colonos mais bem sucedidos foram os italianos e alemães.

Por volta de 1896/7, um censo particular levado a efeito pela nova colonizadora registrou mais de 4.200 habitantes na colônia. Eram 3.140 brasileiros (nativos e filhos de imigrantes), 450 italianos, 202 poloneses, 160 letos, 112 alemães, mais quatro dezenas de imigrantes de outras nacionalidades européias.

A fertilidade das terras e razoável organização da colônia atraiu migrantes do litoral e também da região da Grande Florianópolis, especialmente os descendentes de alemães, que haviam fundado, há algumas décadas, a Colônia de São Pedro de Alcântara.

Com o passar dos anos, as terras da colônia ficaram escassas para abrigar todos os descendentes de imigrantes, que procuraram migrar para outros municípios do Estado, como Laguna, Tubarão e Criciúma, especialmente quando eclodiu o ciclo da mineração de carvão, atraindo milhares de migrantes de todo o sul, inclusive da colônia imperial.

Somente no município de Criciúma contam-se, hoje, mais de 150 sobrenomes bem conhecidos de imigrantes italianos, alemães, além de poloneses, letos e outros, em menor escala, oriundos da Colônia Imperial Grão-Pará.

Entre 86 sobrenomes de italianos catalogados, citam-se os 20 mais conhecidos: Accordi, Búrigo, Canarin, Cesconetto, Coan, Colossi, Crema, Della Giustina, Frasson, Gazola, Possamai, Pizolati, Redivo, Salvalaio, Sprícigo, Tonon, Uliano, Volpato, Zim e Zomer.

Já dentre os 52 sobrenomes de alemães inventariados, citam-se os Back, Backes, Becker, Eyng, Hobold, Hoepers, Junkes, Kestering, Kurtz, Loch, Locks, May, Maier, Nagel, Oenning, Ricken, Schmidt, Warmeling, Waterkemper e Wessler.

Dos letos, com grande presença no interior de Orleans, boa parte migrou para outros estados e, das poucas famílias que permaneceram na região, em Criciúma encontram-se os Balod, Feldmann, Paegle, Steckert, Nonnenmacher e Thessmann.

A colônia recebeu, também, uma grande leva de imigrantes poloneses, cuja maioria migrou para outros estados, por falta de adaptação à região e poucos dentre eles fixaram-se na região carbonífera.

A Colônia Imperial Grão-Pará funcionou até 1942, quando seu lendário administrador, o polonês Etienne Stawiarski deixou a empresa, após dirigi-la por mais de 40 anos. Agrimensor formado em Paris, tinha conhecimentos básicos sobre diversas ciências, sendo chamado de “Cientista do Sertão”.

Outro grande nome nascido na colônia (município de Orleans) foi o ex-sacerdote Huberto Rohden, filósofo, teólogo de renome, fundador da Filosofia Univérsica, tendo sido colega de Albert Einstein, como professor na Universidade de Princeton (USA). Falecido em 1981, é patrono de centenas de organizações filosóficas.

É de notar-se que a história econômica da região sul-catarinense dá bastante destaque aos núcleos colonizadores de Azambuja (Pedras Grandes) e Urussanga, com expansão para Criciúma e Vale do Araranguá, mas praticamente ignora a Colônia Imperial Grão-Pará, justamente a que recebeu a maior leva de imigrantes e que funcionou como grande núcleo receptor e re-distribuidor de imigrantes para a região sul de Santa Catarina.

Grande parte dos registros da Colônia Grão-Pará acham-se assentados em documentos manuscritos no Museu Conde D’Eu (Casa de Pedra) de Orleans, mas sem condições de manuseio, necessitando ser processados e organizados em um Banco de Dados.

Para se ter uma iniciação no tema da colônia imperial, é interessante ler o livro Colônia Imperial de Grão-Pará – 120 anos, do pesquisador/historiador Jucely Lottin.

Eis um tema a ser pesquisado e estudado pelas nossas universidades/centros universitários do sul, especialmente pelos seus departamentos de história, economia e sociologia.

* Economista / Msc. Desenvolvimento Regional - Email: ajfabre@gmail.com

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