Dia Nacional do Teatro: o que mantém a ‘arte do encontro’ viva em tempos de telas?
Grupo de Teatro Revirado fala sobre presença, criatividade e relação com o público

No mundo contemporâneo, imagens, livros, filmes e músicas podem ser criados em segundos com o auxílio da inteligência artificial. O teatro, no entanto, continua dependendo de algo que não acontece sozinho: o encontro. Para existir, essa arte precisa da sensibilidade dos atores, da presença do público e da experiência compartilhada no mesmo instante. Pelo menos, é o que destaca quem soma quase três décadas em cena, criando personagens, cenários, histórias e público. Para o Grupo de Teatro Revirado, de Criciúma, é justamente na relação entre quem está no palco e quem assiste que a ‘arte do encontro’ resiste.
Neste sábado, dia 19 de setembro, data em que é celebrado o Dia Nacional do Teatro, a trajetória do grupo de Criciúma ajuda a entender como essa arte permanece em transformação. Fundado em 1997, o Revirado construiu sua trajetória a partir da pesquisa teatral, do trabalho corporal, do teatro de rua e da relação com diferentes públicos. São mais de 30 espetáculos, com circulação por 23 estados brasileiros, somando prêmios e projetos voltados à formação e à democratização do acesso à cultura.
Iniciado com uma lona de circo, bonecos e nenhuma referência de quem tivesse trilhado esse caminho antes, Reveraldo Joaquim e Yonara Marques fizeram do grupo uma referência na área em âmbito nacional e, principalmente, no Sul de Santa Catarina. Ao longo dos anos, a trajetória foi construída por meio de estudos técnicos e de linguagem, em cursos, oficinas e mestrado, mostrando que, além de uma combinação de vínculo familiar com sonho compartilhado, o caminho no teatro é marcado pela persistência.
“Existe uma teimosia em existir. Se formos analisar, o teatro, independentemente de ser na rua ou dentro de uma sala, é um lugar onde a gente se encontra. E é uma luta constante, porque estamos vivendo, na contemporaneidade, uma resistência a esses lugares de encontro. No teatro, o encontro ainda perdura”, contou Yonara, que, com quase 30 anos na área, acompanha as mudanças na cultura, na tecnologia e na forma de produzir e divulgar espetáculos.

A magia do teatro
Para o grupo, uma das principais particularidades desta arte está no fato de que uma apresentação nunca acontece exatamente da mesma maneira. Eles contam que o público reage de formas diferentes, o espaço interfere na cena e a criatividade dos atores é algo mutável. O trabalho teatral exige pesquisa constante e, para Fábio Murillo, integrante do Teatro Revirado desde 2017, a criação não está restrita ao momento em que um novo espetáculo começa a ser montado. O corpo também é utilizado como ferramenta de pesquisa e criação.
“O ciclo esperado da vida é que paramos de ter imaginação depois da adolescência, paramos de criar. No mundo do teatro, fugimos desse parâmetro, porque é impossível parar de exercer a criatividade. Tanto que, entre espetáculos, procuramos outras maneiras de estar exercendo ela além da mente. O grupo trabalha muito com a expressão através do corpo. Então vamos à academia, praticamos yoga, exercemos essa criatividade em outros lugares, para depois voltar com um material que possamos usar em uma criação futura”, explicou.

Essas interpretações e essa entrega refletem diretamente o propósito do teatro, que, segundo o grupo, transforma as angústias da sociedade em arte. “O teatro é a linguagem das artes que mais chega perto do que é ser humano. Porque, querendo ou não, é no teatro que a gente consegue sempre exprimir o outro, expressar o outro. Então, quando a gente quer denunciar alguma coisa através da arte, é mais fácil, porque a gente coloca no teatro o espelho dela o tempo todo”, frisou Yonara.
Desafios do mundo contemporâneo
Uma das transformações percebidas pelo grupo ao longo dos anos aparece principalmente no público infanto-juvenil, que passou a crescer em um ambiente marcado por celulares, computadores e vídeos curtos. Quando o Revirado voltou a circular com espetáculos infantis no período pós-pandemia, encontrou crianças que, em alguns casos, não tinham uma referência anterior do que era assistir a uma peça. Porém, em vez de competir com as telas, a resposta esteve na criação de espetáculos capazes de dialogar com o tempo presente sem subestimar a capacidade das crianças de compreender uma obra.
“Uma coisa estranha e atual que também estamos vivendo agora é a ‘era instagramável’, em que, se eu não publico, não existo. Então, estamos em um trabalho contracultural. Afinal, é a função do artista. Hoje em dia, a gente não consegue concorrer com as IAs e streamings de forma nenhuma. A gente faz um outro tipo de arte, um outro tipo de ver a vida”, destacou Joaquim.
Ainda ecoando as novas tecnologias, Joaquim também pontuou que artistas passaram a lidar com uma espécie de intimidação diante da polarização política e da exposição proporcionada pelas plataformas digitais. Para ele, além das transformações no mercado e nos meios de produção, o teatro continua guiado pela liberdade de expressão.

“A forma de fazer teatro e a de viver de teatro coexistem, porque é praticamente uma coisa só. Dependendo do teatro que você monta, você tem um mercado. E o teatro sempre foi político. Quando você tira do artista a possibilidade de dizer o que pode ou não falar, você tira tudo dele. Estamos nesse lugar de tentar mudar, mesmo que seja muito aos poucos, algumas situações, deixando elas mais leves. Somente através da poesia que o teatro propõe é possível imaginar uma sociedade mais tolerante”, afirmou.
Revirado que se reinventa
Enquanto completa quase três décadas de história, o Revirado prepara os próximos capítulos. Joaquim contou ao Portal Engeplus que o grupo trabalha na criação de um novo espetáculo de rua, com estreia prevista para o início de 2027. Também estão previstas oficinas de teatro para mulheres, entre artistas e não artistas, e novas ações no Ponto de Cultura, no bairro Nossa Senhora da Salete, em Criciúma, com atividades de formação, encontros e saraus, que devem receber grupos de teatro de diferentes cidades de Santa Catarina. A programação para 2027 também inclui as comemorações dos 30 anos do grupo.
“O teatro se reinventa a cada era. Acreditamos muito nesse teatro de rua porque ainda acreditamos que é na rua que a gente encontra uma diversidade de seres, de realidades, de perspectivas. O teatro nunca vai deixar de existir. Ele talvez tenha que ser reestruturado, trazido para o tempo presente, acompanhar a cultura. Mas nunca deixar de existir”, finalizou Yonara.



































