Entre a maturidade e o alerta: o novo turismo catarinense em 2026
Turismo em SC
Pesquisa da Fecomércio SC revela um destino mais valorizado, internacional e exigente

A temporada de verão de 2026 em Santa Catarina deixa uma mensagem clara: o turismo do estado amadureceu — e, com isso, ficou mais complexo, mais caro e mais desafiador.
A recente pesquisa da Fecomércio SC não apenas confirma a força do litoral catarinense como destino consolidado, mas também expõe um momento de inflexão. O estado deixou de ser apenas um destino regional de veraneio para se posicionar como um polo turístico nacional e internacional, com aumento significativo do gasto médio e maior presença estrangeira. No entanto, esse avanço traz consigo novos dilemas.
Um turismo mais qualificado — e mais exigente
O primeiro ponto de destaque é o perfil do turista. Em 2026, Santa Catarina recebeu um público mais maduro, com média de idade de 45 anos, majoritariamente formado por famílias e casais, com forte concentração na classe média. Esse dado não é trivial: ele indica um turista mais exigente, mais criterioso e menos impulsivo no consumo.
Ao mesmo tempo, houve um crescimento relevante de estrangeiros, que já representam 36,5% dos visitantes — com protagonismo dos argentinos. Esse movimento reforça a internacionalização do destino e eleva o padrão de comparação com outros mercados globais.
Menos volume, mais valor
Um dos principais paradoxos da temporada está na percepção de mercado: embora o gasto médio tenha se mantido em patamares elevados (R$ 8.224 por turista, o segundo maior da série histórica), muitos empresários relataram frustração com o movimento.
Isso revela uma mudança estrutural importante: o turismo catarinense não cresce mais apenas em volume, mas sim em valor. O visitante continua vindo — mas consome de forma mais racional, priorizando experiências, autonomia e economia.
Exemplo disso está na hospedagem: imóveis por temporada lideram com mais de 40% das escolhas, impulsionados por plataformas digitais. Como consequência, houve queda significativa no consumo em restaurantes, já que muitos turistas passaram a cozinhar durante a estadia.
O turista está mudando — e o mercado precisa acompanhar
Outro sinal claro de transformação está no comportamento de consumo. Enquanto setores como hotelaria e agências de turismo conseguiram aumentar seus tíquetes médios, o varejo tradicional e a gastronomia enfrentaram retração.
O turista de 2026 é mais independente, digital e estratégico. Ele monta sua própria viagem, pesquisa preços, compara experiências e decide onde vale — ou não — gastar.
Além disso, cresce o turismo de pequenos grupos, amigos e até viajantes solo, o que amplia as possibilidades, mas exige diversificação da oferta turística.
Infraestrutura: o principal gargalo
Se há um ponto de consenso entre turistas e empresários, ele é claro: Santa Catarina precisa resolver seus problemas estruturais.
Mobilidade urbana, saneamento básico e custo elevado aparecem como os principais fatores de risco para o futuro do turismo no estado. Destinos consagrados como Florianópolis e Balneário Camboriú já enfrentam sinais de saturação, enquanto cidades com grande potencial, como Imbituba e Laguna, sofrem com limitações básicas de infraestrutura.
O alerta é direto: a beleza natural, sozinha, não sustenta mais o crescimento.
Fidelidade alta, mas não infinita
Um dado impressionante da pesquisa é o alto índice de fidelização: a maioria dos turistas já visitou o destino cinco vezes ou mais. Além disso, o NPS (Net Promoter Score) geral coloca o litoral catarinense em zona de excelência.
Mas há um detalhe importante: a fidelidade não é incondicional.
Os próprios turistas começam a apontar incômodos recorrentes — trânsito, preços elevados, problemas ambientais e excesso de pessoas. São sinais de desgaste que, se ignorados, podem comprometer essa relação de longo prazo.
O que esperar daqui para frente?
O turismo catarinense entrou em uma nova fase. Não se trata mais de atrair mais gente, mas de oferecer melhores experiências, com mais qualidade, eficiência e equilíbrio.
O desafio agora é estratégico:
Qualificar a infraestrutura
Controlar custos
Descentralizar o fluxo turístico
E entender que o novo turista valoriza experiência, não apenas destino.
Santa Catarina já provou que sabe atrair. Agora, precisa mostrar que sabe sustentar.
Sobre a Colunista:
Jaqueline Backes é sócia da Nossacasa Feiras e Eventos, onde atua na idealização e realização de grandes eventos no Sul de Santa Catarina. Formada em Direito e Pós-Graduada em Marketing, Branding e Growth pela PUC, Jaqueline alia o conhecimento jurídico à visão estratégica de mercado.
@jaque_backes



