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Contexto Internacional

Itália enfrenta uso político do coronavírus

Presidente da Itália alerta sobre medos irracionais

Por André Abreu

4 min de leitura

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Foto: EPA

O Presidente italiano, Sergio Matarella, tem alertado sobre os medos irracionais que têm afetado a economia do país e semeado o pânico entre a população.

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Para ele, quem está na linha de frente do combate ao vírus deve ser valorizado. O conhecimento e a ultra-responsabilidade são os antídotos para o medo irracional e desmotivado.

A crise do novo coronavírus na Itália, iniciada há uma semana, provocou um acirramento das tensões entre os italianos, o que inflamou a classe política e, ao mesmo tempo, foi alimentado por ela.

Declarações xenófobas, pedidos de fechamento das fronteiras, restrições de direitos dos imigrantes e informações desencontradas, quando não contraditórias, ajudaram a intensificar o medo no país, o que alarmou a Europa e trouxe uma série de notícias negativas para a economia.

Nesta sexta-feira (28/02), seguindo a mesma linha, em sua coluna no jornal La Repubblica, o jornalista Massimo Giannini escreveu que os "gestos e atos sediciosos" dos políticos, "que nada têm a ver com dignidade e responsabilidade, amplificam a desordem institucional". "Refletem um vício transversal: o uso político do vírus, que contamina centro e periferia".

Para o presidente italiano, longe do foco político e muito, muito longe de se semear o pânico, deve se agradecer médicos, enfermeiras, o pessoal da Proteção Civil, a Polícia: a linha de frente no combate ao coronavírus. O princípio da solidariedade humana é um grande patrimônio da sociedade, declarou nesta sexta-feira o homem que tem a missão de semprea apaziguar os ânimos da nação italiana.

Enquanto para o jornalista Giannini,"a política produziu um dano duplo, a si mesma e à comunidade: se mostrou frágil e pouco crível seja quando chamou o lobo de lobo, seja quando sussurrou que o lobo não morde".

No país, a crise provocou um frenesi na última semana, afetando direta ou indiretamente cerca de 27 milhões de pessoas (quase metade da população), fechando escolas, teatros, cinemas, o comércio e isolando mais de dez municípios — milhares de pessoas foram forçadas a ficar em casa.

A epidemia se espalhou especialmente no norte do país, com a maioria dos casos registrados na Lombardia e no Vêneto, regiões administradas pela Liga, o partido de extrema-direita liderado pelo senador Matteo Salvini, atualmente o político mais popular da Itália e notório pelas declarações xenófobas e contra os imigrantes.

Nestes dias, ele e aliados aproveitaram o medo para explorar o tema.

A oposição de extrema-direita fustiga o Executivo, mas ele também cometeu uma série de erros, afirma o cientista político Alessandro Campi.

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Integrantes do próprio governo, uma coalização do Movimento 5 Estrelas (antigo aliado de Salvini) e o Partido Democrático, de centro-esquerda, admitiram ao longo da semana que ocorreram "falhas e um certo exagero" ao tratar da epidemia.

"A comunicação errada amplificou em escala global uma crise que poderia ter sido resolvida em nível local. A Itália fez mal a si mesma, sem nenhum motivo, amplificando um perigo que não era real. Foi um gol contra em termos políticos, com consequências sérias para a economia", ressalta Campi, que leciona na Universidade de Perugia, instituição que tem grande número de alunos chineses e que não foi impactada.

Segundo ele, a epidemia se desenvolveu na "parte errada do país, nas regiões mais ricas e teoricamente mais bem preparadas", explicando que há uma razão técnica para isso: as relações econômicas das empresas ali instaladas com a China.

O que todo mundo esperava, ressaltou, é que a rápida difusão do vírus acontecesse no Sul do país, onde o sistema sanitário é menos funcional, o que não se registrou. "Por isso a Liga se encontra em grande dificuldade", conta.

Sobre o gesto do primeiro-ministro Conte de culpar o hospital de Codogno pela disseminação do vírus, Alessandro Campi afirma que ele fez algo impensável: "Dar a culpa de um problema para quem está abaixo de você não é ético nem aceitável do ponto de vista político. Ainda que fosse verdade, um político sério não faz isso, foi inadequado".

Quanto ao pedido de Salvini de realizar novas eleições, o professor afirma que ele é "irrealizável e sem o senso de responsabilidade" esperado para uma crise como a atual. "É um caso de emergência, claro, mas não estamos na Segunda Guerra Mundial para justificar um 'governo de união nacional'. É um sinal evidente da classe política de que falta responsabilidade pública. É apenas um gesto propagandístico."

Com colaboração do professor e tradutor de italiano Alcimar Callegari e Lucas Ferraz, direto de Roma.

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