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“Nunca pensei que viveria isso em minha vida”, afirma venezuelana sobre crise

Em Criciúma, moram aproximadamente 30 venezuelanos

Por Rafaela Custódio

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Foto: Rafaela Custódio / Arquivo

A Venezuela está passando uma crise humanitária há meses. Nas últimas semanas, as fronteiras de alguns países foram fechadas para que venezuelanos não deixassem o país. Nos últimos meses, Criciúma tem sido destino de venezuelanos. É o caso de Maria Bravo, de 64 anos, que está no Sul de Santa Catarina há nove meses.

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Ela veio da Venezuela para o Brasil com seu marido e uma filha, há nove meses. Após alguns meses, outros dois filhos também vieram com suas famílias. Atualmente, 44 venezuelanos moram em Criciúma. Todos possuem documentos e estão aptos a viver no país.

Segundo Maria, estava muito difícil viver na Venezuela. O valor da comida aumentou e, por muitas vezes, sua família não conseguiu comprar alimentos. A família morava há 16 anos na cidade de Santa Teresa. “Os irmãos da igreja Testemunha de Jeová nos trouxeram para Criciúma e nos ajudaram com as despesas. Eles continuam nos ajudando todo os dias”, explica.

Ela comenta que muitos amigos continuam na Venezuela e todos passam por dificuldades. “Se eu pudesse mandar comida pelos passarinhos para eles, eu mandaria”, afirma.

“Aqui podemos sair para comprar comida e isso é muito importante para nós. A alimentação é muito importante”.

Maria Bravo
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“Tomo café pela manhã e choro. Não sei como meus conhecidos estão na Venezuela, não sei se comeram, não sei o que está acontecendo. É muito difícil viver lá”, conta Maria Bravo

Maria diz que todos os familiares trabalhavam muito, mas não sobrava dinheiro. “Tínhamos dinheiro apenas para comer por uma semana, mesmo trabalhando durante todo o mês. Após algum tempo, esse dinheiro que dava para comer uma semana ficou apenas para um dia. Só foi piorando. Comíamos arroz com ovo frito. Às vezes, nos alimentávamos apenas uma vez na semana”, lembra.

Ela recorda que na Venezuela trabalhava com faxinas e o marido como barbeiro. “Meus filhos vendiam sorvete e com vendas de botões. Já minha nora trabalhava na administração de uma farmácia. Hoje, ela trabalha com faxina aqui em Criciúma”, relata.

Todos da família moram com irmãos da igreja Testemunha de Jeová. “Somos ajudados pelos irmãos da igreja. Trazem comida e nos ajudam muito. Trazem frutas, arroz, feijão, pães, frango, de tudo”, cita.

“Nunca pensei que viveria isso em minha vida”.

Maria Bravo
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Maria afirma que não trabalha todos os dias, mas consegue alguns bicos como faxineira. “Às vezes eu trabalho de faxina aqui, mas minha coluna dói e muitas vezes não aguento, mas não me importo, porque preciso ajudar. Estamos muito melhor do que na Venezuela”, comenta.

A idosa diz que todos os venezuelanos vivem bem em Criciúma. “Todos vivem melhor do que na Venezuela. Claro que temos algumas dificuldades, mas não tem comparação com o que passamos no outro país”, observa.

“Os brasileiros nos tratam muito bem, com muito respeito e educação. Os criciumenses são generosos”.

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Maria Bravo
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Maria está assistindo pelos noticiários o que ainda está acontecendo na Venezuela. “Quando vejo as imagens fico muito triste. Precisamos ajudar, sabe? Faço faxina e tento mandar dinheiro para os irmãos para ajudar a comprar pelo menos os alimentos”, afirma. “Emagreci dez quilos lá. Atualmente, já recuperei e hoje estou pesando 50 quilos”, acrescenta.

Ela relata que a situação que estava vivendo na Venezuela era muito pior do que as pessoas imaginam. “A bíblia avisou que isso aconteceria. Mas não sabia que aconteceria comigo”, afirma. “Não queremos muito. Queríamos apenas comer e ter um abrigo. Dinheiro não compra felicidade. Felicidade é ajudar o próximo”, completa.

"Você sabe o que é dormir sem comer? É muito ruim".

Maria Bravo
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Política

Maria comenta que não culpa ninguém pela situação. “Somos neutros. Nós temos que respeitar o governo de todos os países. Sabemos que nenhum governo terá triunfo, apenas o governo de Deus. Nós não fazemos revoltas ou somos contra alguém. Nós olhamos apenas o reino de Deus”, afirma.

“Não iremos fazer protesto, nunca. Queremos viver tranquilos. Não sei o que o senhor Nicolás Maduro pensa. Nós oramos para que tudo melhore. Sabemos que ele [Nicolás Maduro] não será eterno”, comenta.

Ela ressalta que não pensa em voltar à Venezuela. “Nunca mais. Quero ficar aqui para sempre. Todos me acolheram muito bem e é isso que importa”, considera.

Valor da comida

Mesmo há nove meses fora da Venezuela, ela afirma que tudo ainda está muito caro e que quando deixou o país um quilo de frango custava 1.800 Bolívares. Atualmente, daria R$ 20,50. “Espero que tudo isto termine logo. Não desejamos isso para ninguém. É um sentimento horrível. Não ter o que comer é muito ruim”, descreve.

“Hoje, vivemos bem. Esperamos viver assim para sempre. Não queremos que ninguém passe o que passamos. Vi pessoas próximas emagrecer 20, 30 e até 40 quilos. Isso não é humano. Vamos seguir aqui e tentar ajudar nossos irmãos”, relata.

Maria e seu marido estão morando na casa de Silvia Correa, localizada no bairro Próspera. “Ajudá-los foi gratificante. Saber que por pouca coisa podemos deixar algumas pessoas viverem com expectativa de melhor vida. Ver que conseguimos ajudar de modo prático nos ajuda a sermos pessoas melhores”, comenta Silvia. “Saber que alguém não está passando fome me conforta. Agora estão batalhando para poderem achar emprego melhor e ter carteira assinada. Receber eles foi surpresa afinal não os conhecia, mas sei que são pessoas sofridas e vou continuar ajudando”, finaliza.

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