Criciúma
O caminho do fim de uma escola que dá certo
Por Redação Engeplus
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Rua Afonso Scavone. Ali já é Pinheirinho. Ali, o caso de uma escola que nasceu de um aeroporto e, embora atenda com visível qualidade e empenho, está se encaminhando para o fim. E por uma triste constatação. “Faltam alunos”, argumenta a gerente regional de Educação, Jucilene Fernandes. Trata-se da Escola de Educação Básica Ministro Jarbas Passarinho, ou a antiga Escola do Jardim Aeroporto.
A história começa em 1957. Criciúma carecia de um aeroporto e, em 30 de junho daquele ano, ganhou. Aberta a pista do Leoberto Leal, ela se espalhava comprida, nas terras do atual Paço Municipal. Operou até 77, quando o prefeito Altair Guidi, com a intenção de erguer o Paço – inaugurado em 1980 – tirou dali o aeródromo, que tomou o rumo de Forquilhinha e ganhou novo nome, Diomício Freitas. Restou o pavilhão erguido nos anos 50 para acolher passageiros.
“Aqui era o guichê de venda de passagens”, conta da sala da direção da escola o professor Edson Bortolotto, um veterano do magistério e que com bom astral e diálogo constante dirige a Jarbas Passarinho. Sim, o bloco principal da escola, as primeiras salas para quem chega, são o que restou do velho aeroporto Leoberto Leal, cujas operações encerraram há 40 anos.
Passado à parte, o professor Edson não esconde a preocupação com a escola, mais de quatro décadas depois, ter o mesmo fim do aeroporto. No caso do educandário, é o fantasma chamado terminalidade. O diretor a trata com sutileza, sob as orientações da Secretaria de Estado da Educação. Acostume-se, terminalidade é o termo, no jargão da gestão de educação, que designa escolas que se encaminham para o fim.

“Foi natural isso”, ameniza a gerente de Educação. Esse ano não houve abertura de turmas de primeira série. “Os pais colocaram alunos em outras escolas, não atingimos o mínimo de matrículas”, lamenta Jucilene. E daí vem a perigosa tendência. Tudo indica que o Jarbas Passarinho não terá turmas de segunda série em 2018, já que não virão os alunos de 2017 da primeira. “Nossa saída é a mobilização da comunidade e a abertura das matrículas para essas séries”, conta o diretor. De fato, a gerente garante que, havendo demanda, o Jarbas poderá voltar a oferecer primeira e segunda séries. “O problema é que há escolas do Estado próximas, como o Coelho Neto e o Marcos Rovaris, fora as municipais da região. E ali não é uma zona tão residencial. Mas se a comunidade se mobilizar e colocar alunos, vamos oferecer as vagas”, assegura a diretora.
Escola dá certo: inclusão
“Proporcionalmente, nossa escola é, da rede estadual em Criciúma, a que mais conta com alunos especiais”. O diretor relata, com orgulho, que dos 160 estudantes ali matriculados, 11 contam com atendimento reforçado pelo projeto de segundo professor em sala de aula e uma extensão com neuropedagogia em turno extra.
“São alunos com algumas deficiências de aprendizagem, que compensamos com o segundo professor em sala, para um atendimento exclusivo, além do espaço físico que criamos para esse reforço”, conta Edson, com brilho nos olhos.

Há o bloco principal da escola. Ao fundo, mais dois, lado a lado. No canto, à esquerda de quem entra, uma casa debaixo de uma árvore. “Era abandonado aquilo, daí fizemos um mutirão e aí está”, comemora o diretor. “Fizemos com a mão de obra da comunidade, dos amigos, e recursos do governo federal”, revela. Ali, desde maio, é o território do Atendimento Educacional Especializado (AEE), da professora Ana Paula Pedroso Fernandes e suas colegas. Elas atendem os onze alunos com déficits intelectivo, auditivo, visual, físico, de cognição e múltiplos.
Os atendimentos são, via de regra, individuais, e já com resultados colhidos na prática. “Nosso foco aqui não é na dificuldade do aluno, mas sim nos seus potenciais”, afirma a professora, que está se qualificando em neuropsicopedagogia. “Esses alunos assistem as aulas normais, com o apoio dos segundos professores em sala, e depois ficam aqui conosco, por até uma hora e meia ao dia”, relata.
Escola dá certo: sempre é tempo

A saída do Centro de Educação de Jovens e Adultos (CEJA) do Pio Corrêa para a escola Joaquim Ramos pautou grande polêmica no ano passado. De reclamação em reclamação, a falta de espaço fez a estrutura, neste ano, ganhar novo endereço em seu polo central. Desde julho o CEJA opera na Jarbas Passarinho. “Aqui fomos muito bem recebidos, temos o nosso espaço e conseguimos atender 514 alunos”, exalta o diretor do programa, professor Jucelino Cervelin.
O diretor lembra que receber o CEJA serve, também, como estímulo para as atividades na escola, que vem ameaçadas pela redução gradual de alunos apontada pelo fim das primeiras séries e ameaça de perda do segundo ano em 2018. “Eles estão há três meses aqui, com uma turma pela manhã, uma à tarde e nove à noite”, detalha Edson.

Entre os que encontraram no CEJA no Jarbas Passarinho uma nova chance está o aposentado Gilmar Vicente, 58 anos, residente no Jardim Maristela. “Estou aprendendo muito aqui e quero me formar em Teologia para trabalhar ajudando as pessoas carentes e para conhecimentos gerais”, conta. “O curso é muito bom e a escola também”, reforça.
Troca de nome
Uma polêmica tentativa de troca de nome movimentou a comunidade do Jarbas Passarinho no ano passado. Foi iniciativa do próprio diretor, “já que esse é um nome pesado para explicar”, comenta Edson, fazendo referência ao ministro da época do regime militar. “Complicado uma escola carregar o nome de alguém que perseguiu estudantes quando era governo”, pondera o professor.
Houve reuniões abertas e audiências com a comunidade para levantar nomes, mas nenhuma das sugestões colhidas encontrou unanimidade. Entre as sugestões esteve o nome da saudosa ex-primeira dama e fundadora da Afasc, Zulma Naspolini Manique Barreto. “Como não conseguimos uma adesão completa da comunidade optamos por suspender o debate”, confirma Bortolotto. Mas o diretor não disfarça, também, que antes de trocar o nome a prioridade passou a ser a própria existência da escola.
Contida no recente pedido que o prefeito Clésio Salvaro fez ao secretário da Educação de Santa Catarina, Eduardo Deschamps, a escola não saiu da posse do Estado para o município. Não deu certo. “O Estado optou por mantê-la sob a sua responsabilidade”, salienta a gerente de Educação. “Não queremos fechar nem acabar com escola alguma, mas dependemos da comunidade. Precisamos ter alunos”, conclui.



