Tragédia
O melhor presente de Natal: a vida
Há 20 anos, enxurrada transformou a noite de festa em luta pela sobrevivência
Por Redação Engeplus
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A família de Anderson estava animada. Afinal, era noite de Natal. A chuva, inclemente. Quase uma semana de água. A intensidade aumentou naquela tarde de domingo, 24. Mas o frisson da data superava qualquer preocupação. Eis que o brilho deu lugar ao pavor, e a alegria de abrir presentes foi vencida pela batalha para sobreviver. As águas transbordantes do rio São Bento bateram à porta na comunidade de São Pedro, área rural de Siderópolis. Eram 22 horas.
“Nós já estávamos ficando apavorados”, reconhece Anderson, voltando 20 anos no tempo. O calendário na parede sinalizava: 24 de dezembro de 1995. “A gente se reuniu na cozinha e começou a rezar. Quando eu vi, a água já estava invadindo tudo. Ela bateu na casa e desmanchou tudo na hora”, é a lembrança do menino, hoje um esposo e pai de 31 anos. Dona Neci, mãe de Anderson, contava os últimos minutos de vida enquanto orava com os seus familiares.
Avó, tios, tias e primos estavam à deriva. Buscando abrigo em outra casa próxima, foram forçados a retornar. A angústia só aumentava. A força da correnteza tomou conta. Paredes vieram abaixo. O menino foi lançado ao turbilhão de água. Agarrado a um tronco, Anderson foi levado pela enxurrada por quase um quilômetro. Uma pedra virou porto. “A água batia no meu pescoço, se subisse mais um pouco eu teria me afogado”, conta.
A agonia durou até as três horas da madrugada do dia 25. Com as águas mais baixas, Anderson achou a casa de um familiar próximo. A tragédia estava sacramentada: o menino acabara de perder nove familiares. “Penso sempre naqueles que ficaram presos na casinha, que podiam estar vivos com a gente”, se emociona.
“Eu fiquei todo machucado nas pernas, como não tinha nenhum medicamento, meu tio passava banha de porco. Depois o médico disse que foi isso que salvou a minha vida”, recorda Anderson. O tio, Elsio Padilha, escapou por pouco da tragédia. “Eu precisava estar no serviço no dia 25, então eu passei ali e já estava retornando. Quando soube o que tinha acontecido eu voltei na mesma hora”, relembra. A casa onde residia a família, local de tantas lembranças tristes daquele Natal, é hoje parte da Reserva do Aguaí.
A região castigada
Com a família de Anderson Vieira, Siderópolis contabilizou dez mortos em São Pedro, no costão da serra. A violência da água foi tremenda, e teve origem nas extremidades elevadas da região sul. Tanto é que Timbé do Sul contou três mortos e 15 desaparecidos. Houve pessoas que nunca mais voltaram aos seus lares também em Jacinto Machado (três), Praia Grande (uma) e Araranguá (uma).
A morte de uma menina de um ano em Araranguá, cujo corpo foi localizado em Ilhas, chocou. A exemplo dos cinco óbitos em Içara, família que transitava em um Fusca, na altura do bairro Mineração, quando o veículo foi tragado pela correnteza do rio Palha, na manhã do dia 25.
“A carne, os refrigerantes e os presentes ficaram lá dentro”, contava, à época do caos, o aposentado Salésio Passini, 64 anos, que perdeu animais de sua criação e o ânimo. Minutos depois, soube das cinco mortes que abateram Forquilhinha, onde ele residia no bairro Vila Isabel. Saldo de um Natal para esquecer: 24 mortos e 20 desaparecidos.
(Colaboração/Texto: Denis Luciano e Gabriel Bosa/ Jornal da Manhã - Edição de hoje)



