Reconhecimento
O primeiro Tigre a gente nunca esquece
Conheça a história de Luiz Machado, criador e primeiro mascote do Criciúma Esporte Clube
12 min de leitura

Mais que dinheiro, taças, estrutura... dizem por aí que o maior patrimônio de um clube de futebol é o seu torcedor. É para ele que tudo acontece. Na verdade, é ele que faz tudo acontecer. Dizem por aí que o mais importante torcedor não é aquele engravatado, cheio de palavras “sábias”, o conselheiro que denota conhecimento do que fazer pelo futuro do clube. Dizem por aí que o mais ilustre torcedor é o povão, é o trabalhador de fala simples, de mãos calejadas da labuta, que passa o dia pensando no esquema tático, na escalação, sonhando acordado enquanto ganha o pão de cada dia. Sonho de glórias, títulos, estádio cheio, golaços, ídolos, histórias.
O futebol faz parte de um universo de histórias. Claro, histórias de torcedores. Os torcedores que também são técnicos, entendem tudo, questionam tudo, reclamam de tudo, mas também elogiam, amam o clube e alimentam esta paixão. Dizem por aí que o maior torcedor não é o que está todo dia no estádio, que cobra resultados, que comemora vitórias, que canta o tempo inteiro. O maior torcedor é aquele que ama o clube em silêncio.
O Tigre está guardado no peito
Criciúma, dia 2 de junho de 1991. Às 8 horas, Luiz Machado, 42 anos, chega ao Heriberto Hülse motivado. Na cabeça, a escalação: Alexandre; Sarandi, Vilmar, Altair e Itá; Roberto Cavalo, Gélson, Grizzo e Zé Roberto; Soares e Jairo Lenzi. Na casamata, um certo Luís Felipe Scolari.
Se você ainda não sabe, o time escalado acima foi o melhor Criciúma já visto, o mais brilhante, o mais vencedor e agora nostálgico. O time que jamais será esquecido. De todas as escalações, esta é a mais lembrada e comemorada. Tanto, que até hoje o Heriberto Hülse sonha em ver novamente algo parecido. Como no hino do clube, este time tinha “alma, garra e coração”. Os três atributos que talvez melhor resumem o que é ser torcedor.
E lá estava Luiz Machado. No pensamento, enquanto arrumava as bandeiras, organizava a charanga e as faixas no alambrado, não havia espaço para algo dar errado. Na verdade, já havia dado tudo certo.
Horas depois de chegar no estádio, ele viu o Criciúma empatar sem gols com o Grêmio e conquistar o título da Copa do Brasil. Em um universo de criciumenses, orgulhosos da façanha, havia um, especificamente um em especial: o Luiz Machado, vestido de Tigre, o mascote criado por ele mesmo para intimidar os adversários do seu time.
A festa foi tamanha que o mascote perdeu parte de seu fardamento durante a comemoração. “Eu ficava de Tigre em cima do alambrado, agitando para não deixar ninguém parado. Ainda bem que é uma história de sucesso, fomos campeões e até hoje o título é lembrado. Eu estava lá”, recorda orgulhoso.
Luiz Machado é o criador do Tigre e o primeiro a interpretar o mascote do Criciúma.

Tricolor não, é “Cricolor”
O orgulho de Luiz é guardado com ele, e lembrado com carinho por amigos, familiares e aqueles que o ajudaram a erguer e manter a torcida organizada “Garra Cricolor”, na primeira metade da década de 80. O velho Luiz não esconde que quando retornou para Criciúma ainda tinha uma certa queda pelo Corinthians, um devaneio do criciumense que havia morado em São Paulo e agora retornava à sua terra para reencontrar um antigo amor.
Disposto à redenção, resolveu ir ao estádio ver um tal de Criciúma, afeto antes tratado como Comerciário. Gostou do que viu. Gostou tanto que não se conteve e formou uma torcida organizada. Em 1984, com a mudança de cores do clube, que abriu mão do tradicional azul e branco para usar o preto, amarelo e branco, batizou o grupo de devotos torcedores de “Garra Cricolor”. E depois, a convite do então presidente Moacir Fernandes criou o mascote e o grito de guerra.
Bom, o próprio Tigre vai contar um pouco da sua história:
O mascote não encantou, por que não um teatro?

O Tigre apareceu! O jornal e a rádio não falavam mais Criciúma, falavam Tigre. Se apaixonaram por tudo que estava acontecendo com o Criciúma, as cores, o mascote. Na época, em 87, a revista Placar veio e entrevistou eu e os jogadores. E deram uma olhada no Tigre nacionalmente, igual o Urubu do Flamengo, a Raposa do Cruzeiro. Ficou legal. Ficamos igual time grande.
Legenda: Tigre é destaque na Placar.
A ideia de chamar o Criciúma de Tigre demorou para cair nas graças do torcedor. E uma coincidência causou uma tremenda confusão. No jogo de apresentação do novo grito de guerra, o adversário era o Joinville. O JEC estampava em sua camisa o patrocínio máster de uma empresa chamada Tigre. E quando Luiz e os devotos torcedores entoaram o grito de guerra, não deu outra: parte da torcida pensou que o apoio era para o JEC.
“No primeiro jogo no estádio, Criciúma e Joinville, a torcida, o povão e a geral nos viram gritando Tigre e virou uma confusão. O Joinville tinha o patrocínio da Tigre, bem grande na camisa. Achavam que torcíamos para o Joinville, mas uma hora ia pegar. Eu e minha turma, sozinhos, gritávamos Tigre. Seis, sete jogos depois, parávamos a charanga e a torcida cantava sozinha. Aí pegou, não teve mais jeito. Estava confirmado o grito de guerra”, lembra o líder da Garra Cricolor.
Com o grito de guerra consolidado, agora era a vez de apresentar o mascote. E para definitivamente a ideia cair nas graças da torcida, os “cricolores” elaboraram um teatro.
O primeiro Tigre foi interpretado por Luiz e um amigo, ao estilo “Boi de mamão”, em uma partida contra o Marcílio Dias. O teatro de apresentação era simples, engraçado e deu o recado: antes do jogo, um torcedor do Criciúma vestiu a camisa do Marinheiro e entrou fardado em campo como se fosse o mais importante e fiel torcedor marcilista. Com a bandeira em punho, ele deu a volta olímpica recebendo uma enorme vaia. “Corajoso”, sorri Luiz, décadas mais tarde.
Ao final do trajeto, o Tigre saiu do túnel do vestiário. Como se estivesse faminto, perseguiu o torcedor rival, comeu a bandeira e a camisa do Marcílio Dias. Então a magia aconteceu. “Eu era novo, corria mesmo. Alcançamos ele, que foi tirando a bandeira, a camisa, com medo do Tigre, e o Tigre ia comendo tudo. De dentro do Tigre tirei a camisa do Criciúma, dei para ele e terminamos a volta abraçados e com ele torcendo para o Criciúma. Foi muito legal e a torcida aplaudiu a primeira aparição”, comemora.

“O que vou contar hoje, não dá para fazer mais”
O teatro alavancou o mascote entre os torcedores. E o porvir trataria de confirmar o Tigre como peça fundamental para o Criciúma Esporte Clube nos anos subsequentes. A segunda partida que contou com a aparição do mascote foi contra o Joinville. E desta vez, sem coincidências e desencontros. Os torcedores já sabiam quem era o Tigre e do que ele era capaz para animar as arquibancadas do Majestoso.
O teatro contra o Marcílio Dias havia sido aprovado, mas agora, algo novo precisava ser feito para animar a galera diante de um rival. E também para apagar de vez da memória o mal entendido ocorrido no lançamento do grito de guerra. Então os “cricolores” compraram o fardamento completo do JEC. Vestiram um boneco de cima a baixo. Vestimenta completa: camisa, calção, meia, bandeira...
E o que você vai escutar no vídeo abaixo, “não dá para fazer mais”, reflete Luiz.

O revide e as pedradas
A diversão causou problemas para seu Luiz. E nem pensar vestir o Tigre no estádio do JEC. Para explicar, vale contextualizar. A rivalidade entre os dois times na década de 80 foi efervescente. Em 10 anos, Santa Catarina viu seis finais de Campeonato Estadual entre Criciúma e Joinville. O JEC botou quatro taças no armário (1980, 81, 82 e 87). O Tricolor Carvoeiro deu o troco em 89 e 90.
Em 1986, o Criciúma também conquistou o título, mas o vice-campeonato ficou com o Marcílio Dias. O gosto foi especial porque além de ser o primeiro Estadual da “era Criciúma”, também quebrou uma supremacia de oito anos do octacampeão JEC. Naquele Catarinense, o Tigre foi superior ao rival em praticamente todo o campeonato. Em seis partidas, venceu três, todas no Heriberto Hülse. Fora de casa, no Ernestão, dois empates sem gols e um revés de 4 a 1.
É neste contexto que as provocações inflamaram as duas torcidas. O fogo no boneco jequeano foi respondido com pedradas em Joinville. Por isso, no Norte do Estado, Luiz evitava interpretar o mascote.
“Não dava, chamava atenção, aí a pedra vinha tudo na direção do Tigre. Até quando ganhavam o jogo tocavam pedra na torcida do Criciúma. Em 86, eles estavam mais nervosos. Mas foi bem legal. Ainda porque o Criciúma ganhava todas. Tinha quatro fases no Campeonato Catarinense, o Criciúma disputou com eles, ganhamos todas as fases e fomos campeões direto. Para sair de Joinville foi um trabalho e quando chegamos aqui na Vila Nova [em Içara], a torcida toda estava em peso. O caminhão de bombeiros foi desde a Vila Nova até Criciúma, foi muito legal, o nosso primeiro título foi bem comemorado”, recorda.
O porta-voz, a imagem do time
Todas as experiências vivenciadas por Luiz Machado tiveram um amplo significado para ele. Aonde quer que vá, conta com orgulho o que foi e o que ainda representa na história do Criciúma, mesmo que atualmente esteja quase que no anonimato.

Em uma pasta simples de plástico, estão os recortes das diversas reportagens que o mantiveram na vida do clube ao longo dos anos. A importância que o Tigre tem na história de seu Luiz é incalculável, mesmo que a recíproca não seja tão verdadeira quanto realmente é. Por diversas vezes esquecido de festas comemorativas, de enaltecimento das glórias conquistadas nas décadas de 80 e 90, ele prefere engolir o dissabor do esquecimento e tocar a vida com as lembranças e com o trabalho em sua empresa de comunicação visual.
No vídeo, a tinta nas mãos do primeiro Tigre do Criciúma não deixa esconder o suor do dia a dia. E o sorriso afasta qualquer possibilidade de mágoa do clube que ele tanto ama. Na pasta onde estão os recortes, também há fotos e registros da época de ouro do Tigre, que entrava à frente do time e nunca de mãos dadas, como ele mesmo faz questão de dizer. Que era um porta-voz da equipe e um representante máster da torcida.
“A imagem do time está nele (mascote). Ele tem que saber cuidar da imagem porque não é ele, é o time. Na época os caras diziam: “tu fizeste o Tigre, criaste o Tigre e não ganhas nada? O Criciúma não te deu nada?” Eu fiz tudo por amor, aquela paixão de torcedor. Meus filhos gostam até hoje, estão na Os Tigres e acho bonito estarem lá. Eu não pensava em retorno financeiro, o Tigre é do Criciúma, eu fui o primeiro, depois teve o segundo, o terceiro, o quarto. Esses tempos atrás me encontrei com ele, não vi a cara, mas apertei a mão”, conta.
A Garra Cricolor, mais tarde, abriu espaço para a Guerrilha Jovem. E mais recente, a Barra Os Tigres apareceu com força nas arquibancadas. Entendedor do assunto, o ex-mascote elogia as torcidas e se orgulha de ter contribuído com o pontapé inicial desta história entre campo e arquibancada.
E aqui vai um conselho do sábio Luiz:

Eu sou apaixonado pelo Criciúma, é tipo uma religião. Eu amo tudo o que vivi, as vitórias do Criciúma. Quando muda algo, o time vai mal, eu sofro também. Vou em todos os jogos, os que não vou fico no rádio acompanhando. É uma paixão, sou daqui e tenho orgulho dos meus filhos, que contam que são filhos do Tigre.
Ele sonha com a última volta olímpica
Na década de 90, Luiz passou por problemas familiares e se afastou da torcida. De longe, passou a dar suporte realizando a manutenção da cabeça do Tigre e fazendo modelos novos, mas sempre mantendo a característica do boneco.
Com o afastamento e o passar dos anos, viu o boneco desaparecer do estádio. Uma lacuna preenchida por outros personagens, como papai noel e até um zorro. Era divertido, mas não era o Tigre.
O mascote reapareceu no final da primeira década dos anos 2000, virou o Tigrão, depois interpretado por um funcionário contratado do clube a partir de 2010, na era do presidente Antenor Angeloni. A loja virou Tigre Maníacos e o personagem seguiu popularizando.
Já a última aparição de Luiz Machado como Tigre foi em 2007, a convite do Criciúma. Justamente em um clássico contra o Figueirense. O fato ganhou as páginas do Diário Catarinense e está preservado naquela pasta guardada pelo criciumense.
Depois disso, apenas o desejo de dar uma última volta olímpica, acenar para os amigos e escrever mais um capítulo desta história que começou lá atrás, na década de 80. O time de 91, aquele mesmo da Copa do Brasil, segue latente na memória do torcedor, mas nas entrelinhas do futebol, em uma nota de rodapé, está a história de seu Luiz e outros tantos anônimos que fizeram tudo no clube ter sentido. Afinal, dizem por aí que o torcedor sempre será o principal patrimônio de um clube de futebol.



