Rapha-El recupera
Rapha-El recupera vidas pela psicologia
Por Redação Engeplus
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“Ver a mudança das pessoas é o pagamento de algo que não tem preço em dinheiro”. Para os voluntários do Instituto Rapha-El, de Criciúma, a transformação que proporcionam através da psicologia paga qualquer dificuldade e motiva a luta há mais de três anos. A frase acima é da diretora social Annette Felisberto, que ao lado da presidente do instituto, Sandra Stefanes, conduzem o projeto, composto por outros abnegados.
“Rapha” significa cura e “El” uma designação para Deus. “Acreditamos que existe algo acima de nós. Somos seres humanos, limitados. Precisamos ser humildes e estarmos focados em Deus”, justifica Annette.
O instituto foi fundado em setembro de 2008. As atividades começaram na associação de moradores do bairro Jardim Maristela. Enquanto uma psicóloga ficava no imenso salão, outra tinha que recorrer à cozinha. Depois de um ano o instituto conseguiu se transferir para a sede atual, no bairro Ceará.
Problemas de relacionamento são os mais recorrentes. Depressão, fobia, ansiedade são consequências dessas situações. Dificuldades financeiras também afetam boa parte dos atendidos. “Quando a pessoa procura auxílio, geralmente não conseguem vislumbrar sozinha uma perspectiva para resolver sua necessidade”, orienta Annette.
Além do atendimento psicológico também é dada atenção a questões jurídicas e de saúde geral. Ainda assim, as profissionais estão atentas para todos os tipos de necessidades trazidas por seus pacientes. “Certa vez recebemos uma pessoa que sonhava com um curso técnico em enfermagem. Conseguimos encaminhar, ela fez o curso e hoje está na faculdade de enfermagem. Queremos a reconstrução completa do ser humano”, assegura Annette.
Para oferecer o tratamento, as psicólogas pedem que os pacientes estejam com exames médicos em dia. É mais uma maneira de incentivar uma vida saudável. Exames preventivos do câncer de colo de útero e mamografias são solicitadas às mulheres, enquanto os homens devem apresentar os exames de próstata. “São vários casos de pessoas que há anos não faziam estes exames. Recebemos uma mulher de 43 anos que nunca tinha feito um preventivo. Ela foi ao médico e foi constatada uma ferida. Caso não fosse tratada, iria evoluir para um câncer. Ela veio até aqui e nos abraçava chorando, em agradecimento”, recorda Annette.
Grande demanda e prioridade para pessoas carentes
Toda segunda-feira, das 16 às 20 horas, a equipe recebe interessados, que são submetidos a uma triagem. Posteriormente, as prioridades são definidas e as psicólogas iniciam os trabalhos.
As consultas são feitas individualmente. Amparadas pelas técnicas da psicologia, são aplicadas dinâmicas, vídeos e músicas motivacionais. Futuramente, o projeto é ampliar as atividades para atendimentos em grupos de pessoas com carências semelhantes. Não é feito atendimento por telefone.
Atualmente, cerca de 20 pessoas recebem auxílio. Essa é a capacidade máxima. São seis psicólogos, todos voluntários, que desenvolvem os trabalhos. “Indiretamente são mais de 150 pessoas beneficiadas, afinal, aquela pessoa está ligada a uma rede. O auxílio é estendido a vários dos seus familiares e amigos”, projeta Annette.
Cada sessão dura, em média, de uma hora e meia a duas horas. “Em muitos locais, no serviço público, as sessões levam 30 minutos. Para nós esse é só o ‘aquecimento’, até que a pessoa esteja disposta a falar e expor suas necessidades”, diz Annette. A maior parte dos atendimentos é com mulheres, dos 35 aos 60 anos. O paciente mais jovem tem cinco anos. Mesmo que em menor número, homens também procuram o serviço.
A prioridade é para atender pessoas de renda familiar até dois salários mínimos. Quem tem mais recursos oferece contribuições simbólicas. Ao lado da ajuda de apoiadores, essa é uma importante fonte da subsistência do instituto. No início, cada um dos voluntários, além da prestação de serviço ainda desembolsava valores para ajudar a manter o trabalho.
Enquanto poder público é omisso, sociedade colabora
O sonho do Instituto Rapha-El é a sede própria, se possível, com a compra da atual casa. Muitas pessoas ajudam os voluntários. O aluguel da residência é pago pela Imepel Metalúrgica. O contador Caio Martins oferece todo o serviço contábil voluntariamente. A loja de informática BWSul doou computadores. A Engeplus Comunicações ofereceu a internet, além de outras doações de móveis. O Banco do Brasil também ajudou, com móveis. A Havan e a Prolume Comunicação Visual também são parceiras.
“Tudo que está aqui dentro vem de doações. Muitos pedem anonimato. Recentemente, ganhamos uma televisão de uma pessoa que mandou por um terceiro para não aparecer. Nem nós sabemos quem é. Sendo lícito, nós aceitamos tudo”, detalha Sandra. Uma conta no Banco do Brasil está disponível para doações. A agência é 3541-6 e a conta corrente é 15.698-1.
O apoio do poder público passa longe do Instituto Rapha-El. Durante pelo menos dois anos, as psicólogas buscaram credenciamento na prefeitura. “Íamos na Secretaria de Ação Social e diziam que era na Saúde. De lá mandavam novamente para a primeira. Tivemos que providenciar vários documentos, mas foi tudo em vão”, lembra Annette. Por fim, não houve aprovação por “falta de prontuários”. Na época, as profissionais guardavam os prontuários em casa, pois ainda não havia um local adequado na casa. “Instalamos o sistema de alarme e fizemos todas as adaptações necessárias, ainda assim o credenciamento nos foi negado”, lamenta Annette.
O endereço do Instituto Rapha-El é rua São Miguel do Oeste, 561, bairro Ceará, próximo ao hospital da Unimed. Outros detalhes sobre o trabalho podem ser obtidos no site do Instituto Rapha-El.
Futuro determinado desde o ventre materno
O bom desenvolvimento do ser humano inicia na gestação. Muitas vezes os pais não se dão conta do mal que cometem aos filhos. “Há um grande número de pessoas que cresce com essa rejeição. Isso desestrutura qualquer personalidade”, explica Annette.
Quando o paciente chega ao instituto, as psicólogas buscam a causa do problema, por meio das mais diversas técnicas da psicologia. Quando o pai da criança fala para a mãe abortar, ou até mesmo quando a gestante pensa nisso, a criança nasce com tendências ao suicídio. “Há predominância de morte e não de vida”, descreve Annette. “É preciso que a sociedade esteja alerta. É algo muito grave, que provoca um estrago gravíssimo em todos os meios”, completa ela.
A rejeição, muitas vezes, ocorre involuntariamente. “Quase todos os pacientes que recebemos aqui tem problemas desde a gestação. Muitas vezes trazemos os pais e perguntamos, ‘como foi quando você soube que estava grávida?’ As mães respondem, ‘ah, para mim foi um choque’, ou ‘chorei tanto, parecia que o meu mundo tinha acabado’. Isso já é o suficiente para afetar a personalidade das pessoas no futuro”, garante Annette.
Essa técnica é conhecida como psicodrama, a preferida no trabalho desenvolvido por Sandra. “Os pais participam, as vivencias são expostas, o problema é identificado e os pais pedem perdão. Eles mostram para os filhos que os aceitam e dizem que os amam. Este é o início da cura”, explica Sandra.
Outro problema é a rejeição quanto ao sexo. “Temos inúmeras comprovações de que, quando os pais têm uma menina e desejam que o segundo filho seja um menino, caso o desejo não se concretize, a menina tem fortes cólicas e severos problemas de tensão pré-menstrual”, assegura Annette.
DESPREPARO
A constatação de Annette é que muitos casais não estão preparados para os filhos. “As pessoas precisam entender que ocorre uma transformação. O ‘sonho’ geralmente acaba ainda na maternidade. Aquele conto de fadas cai quando os pais percebem que a criança não é um bonequinho que é só colocar ali no berço e ele vai ficar quietinho”, observa Annette. A vida conjugal também precisa de atenção. “A mãe está plena, ela tem todo o envolvimento com a criança. Mas ela esquece que também é mulher e que o marido precisa dela. Daí nascem, muitas vezes, o adultério, as brigas e até mesmo o fim dos casamentos”, vislumbra.
O filme Licença para Casar retrata as dificuldades da vida à dois. Um padre, vivido por Robin Williams, propõe um curso antes do matrimônio. Dentre as missões, os jovens precisam cuidar de bonecos, que apresentam todas as características e reações de um bebê. A divertida história mostra quanto é difícil a tarefa.
Já a relação entre a gestação e o desenvolvimento psicológico das pessoas foi explicada em reportagem da revista IstoÉ, de outubro de 2010.



