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Reportagem vivencia o pesado trabalho dos catadores da coleta seletiva

Jornada foi dividida junto aos cooperados da Associação dos Catadores de Criciúma

Por Redação Engeplus

8 min de leitura

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Foto: Douglas Saviato

Durante uma manhã, o Portal Engeplus trabalhou junto aos cooperados da Associação dos Catadores de Criciúma (Acrica) para ouvir as histórias e dificuldades de quem trabalha diretamente com o lixo produzido todos os dias.

Cheguei ao local de trabalhado dos catadores, um galpão improvisado pela prefeitura de Criciúma, à margem da rodovia Jorge Lacerda, no bairro Sangão, pouco antes das 8 horas do dia 16 de junho, uma sexta-feira pós-feriado de Corpus Christi. Enquanto muitos aproveitavam o “feriadão”, para os 15 cooperados da Acrica aquela sexta-feira era mais um dia de trabalho comum, assim como havia sido o dia anterior, quando no feriado nacional todos também haviam trabalhado. “Se não trabalhamos, não ganhamos”, resume a vice-presidente da Acrica, Cristiane Araújo, de 39 anos, há mais de 20 anos atuando como catadora.

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Ao chegar no galpão fui recepcionado pela sorridente Jaqueline Rita Ferreira, de 28 anos, há três atuando na Acrica. Ao nosso lado, um caminhão da Rac Saneamento, empresa responsável pela coleta de lixo em Criciúma desde o primeiro semestre de 2016, fazia a entrega dos lixos recicláveis recolhidos no dia anterior e que seriam separados naquela manhã pelos catadores e por mim. Logo em seguida, fui levado até o espaço onde os catadores guardam os seus pertencem e onde alguns deles fazem as suas refeições. Após ser apresentado pela vice-presidente com quem havia feito o contato para a realização desta reportagem no dia anterior, mais um dia de trabalho foi iniciado.


Empresa responsável pela coleta seletiva destina os resíduos coletados nos bairros na Acrica

Todos se dirigiram até a mesa, local onde todo o lixo recolhido é colocado para separação. O trabalho é realizado sem luvas e foi nesta condição que coloquei a “mão na massa”, apesar de ter levado um par de luvas improvisado. Já posicionado diante da mesa fiquei ao lado de Cristiane, que me repassou todas as coordenadas para a separação correta dos resíduos. E confesso que a tarefa não é nada simples, é preciso atenção, agilidade e coordenação para destinar cada resíduo a seu respectivo latão.

O local é apertado e inadequado aos trabalhadores, no entanto, na medida do possível, os catadores tentam manter o espaço organizado e limpo. Não senti um grande odor por causa do lixo, exceto em uma situação que relato mais adiante. O cheiro não é o principal incômodo por ser uma coleta seletiva e, portanto, um lixo já pré-selecionado pela população.

Cada tipo de lixo tem o seu latão correspondente, como o plástico, o vidro, o papel, o alumínio, o papelão, dentre outros. No entanto, digamos que existam subcategorias dentro destes resíduos, o que por muitas vezes acabou me confundido. Por exemplo, entre as garrafas pets existem três tipos de separação que ocorrem por cores, como as pets verdes, as azuis e as tradicionais transparentes. Já o papel deve ser separado entre os brancos e os coloridos.

Tentei acompanhar Cristiane e Jaqueline que estava em nossa frente do lado oposto da mesa, mas foi uma difícil missão. Logo no início da manhã destinei alguns resíduos errados e precisei recolocá-los no latão correto. Porém, com o passar das horas e com o auxílio das minhas companheiras de mesa fui tomando intimidade com cada resíduo e conseguindo destiná-los corretamente. Antes da tradicional parada para um pequeno café por volta das 9 horas fui “pegando jeito” e a devida coordenação.


Uma breve parada dos catadores para um café da manhã

Depois de uma parada rápida, a mesa foi reabastecida. Naquela manhã quem colocava os sacos de lixo para a separação era o presidente da Acrica, Rogério Barbosa Basílio, que atua há mais de dez anos na coleta de lixo. “Antes ainda do meio-dia terminamos a separação deste montante. Quando a coleta termina temos que esperar o próximo caminhão da empresa. Muitas vezes ficamos parados esperando”, frisa Basílio. A previsão era que o próximo caminhão chegasse por volta das 11 horas, o que não ocorreu naquele dia.

Esta é uma das reclamações que dificulta o trabalho dos cooperados. O caminhão da empresa responsável pela coleta de lixo deve deixar os resíduos duas vezes ao dia no galpão da Acrica, mas isso nem sempre ocorre. “Ontem à tarde o pessoal ficou esperando, mas o caminhão não apareceu. A justificativa foi que não havia um montante significativo e deixaram para fazer o descarregamento na manhã de hoje”, conta Cristiane.

Sem uma proteção adequada nas mãos, os catadores estão expostos a qualquer tipo de perigo. Cortes nos dedos provocados por garrafas de vidros quebradas e outros materiais pontiagudos são os mais comuns. De acordo com Cristiane, o quilo vendido de alguns materiais não chega a pagar o curativo que é improvisado pelos catadores com esparadrapo ali mesmo sobre a mesa. Uma das cooperadas se feriu e precisou de um curativo em um dos dedos. Felizmente cumpri minha jornada sem nenhum corte, apenas alguns arranhões nas mãos.


Sem proteção, catadores estão expostos a qualquer tipo de adversidade. Na foto, Cristiane

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A coleta segue o tempo todo embalada ao som de um radinho de pilha sintonizado em uma estação de rádio FM. Com as mais tradicionais músicas sertanejas, a separação do lixo é realizada com muita conversa, brincadeiras e risos. Este clima deixa o trabalho pesado e pouco valorizado mais leve e descontraído. Se passava das 10 horas e já me sentia adaptado ao trabalho, escutando e dividindo histórias com meus novos colegas. Entre estas histórias estão os diversos achados pelos catadores.

“Está vendo este meu celular? Achei ele aqui. Estava desligado, coloquei a carregar e funcionou. Estou usando ele até hoje, bate foto e tudo”, contou Cristiane ao me mostrar o aparelho da marca Samsung em bom estado de conservação. Em meio ao lixo, os cooperados encontram bons materiais, que, inclusive, serão ofertados num bazar que será promovido pela associação. Jaqueline também contou que já levou muita coisa para casa, como um aparelho de televisão e uma cômoda. “Esta calça, este moletom e este lenço são todos do lixo. Até este óculos de sol que achei na semana passada”, relembra.


De restos de comida a televisão, catadores encontram de um tudo durante a separação. Na foto, Jaqueline

Apesar destes achados, os catadores lamentam a má separação do lixo por parte da população, uma realidade que pude perceber e tocar. É comum encontrar dentro dos sacos de lixo no meio de resíduos recicláveis papéis higiênicos com fezes. Notei a surpresa desagradável ao sentir o forte odor, fui alertado pelas minhas colegas do fato que infelizmente é comum e passei a prestar mais atenção a partir daquele momento.

Assim como as fezes, outros materiais que não são possíveis de serem reciclados são descartados para posteriormente serem destinados ao aterro sanitário. Restos de comida que não deveriam estar nesta separação seletiva feita pela população também são comuns de serem encontrados. Até seringas utilizadas já passaram pelas mãos dos catadores. “Nos sentimos desrespeitados com este tipo de situação. Estamos fazendo um bem ao município em estar separando todo este lixo que será reciclado e não mais destinado ao aterro sanitário, e ainda nos deparamos com estas situações”, destaca Jaqueline.


Todos os materiais separados são colocados em grandes sacos bags para depois serem presentados

Já se passava das 11 horas quando todo o montante descarregado no início da manhã chegava ao fim. Os latões eram esvaziados conforme a sua lotação com os resíduos já separados. Todo o material é colocado em grandes sacos bags para serem prensados em seguida. Na semana em que estive no galpão a prensa estava no conserto, sendo que os cooperados iriam dividir o custo do reparo no equipamento que estava orçado em R$ 300.

Depois de prensados, os resíduos são transformados em fardos, são pesados e vendidos. Porém, os fardos não estão sendo mais pesados, pois a balança havia sido furtada há mais de dois meses por uma porta danificada por um caminhão da Fundação do Meio Ambiente de Criciúma (Famcri), que gerencia o sistema de coleta seletiva do município. “Estamos mandando os fardos para as empresas e elas mesmas estão pesando e nos enviando a nota”, conta Cristiane. Com um valor elevado, os catadores estavam com dificuldades para adquirir um novo equipamento. Semanas depois que estive na associação, os cooperados conseguirem reaver a balança furtada.

O caminhão que chegaria antes do meio-dia não apareceu e a expectativa era para que o descarregamento de novos resíduos ocorresse à tarde. Para os cooperados esperar pelo lixo é dinheiro perdido. A matemática é simples: quanto mais resíduos são separados maior é o montante vendido e maior é o lucro aos cooperados, que, atualmente, gira em torno de R$ 800 mensais.

Considerações

O que pude perceber no período em que estive acompanhando os cooperados é que a invisibilidade deste trabalho resulta numa desvalorização dos catadores. Isso acarreta desde a má separação do lixo dentro das nossas casas até a falta de consciência da população que não separa os resíduos recicláveis no dia a dia.

O resultado disto é o pouco resíduo que chega até os catadores e a má qualidade na qual ele chega. Mas também pude sentir que estes são trabalhadores que lutam e resistem a estas adversidades. Trabalhadores que merecem nossa admiração e agradecimento por contribuir com o nosso meio ambiente. Trabalhadores que merecem ser ouvidos, ter voz e que precisam de visibilidade.

Texto e fotos: Douglas Saviato. Edição de página: Marcelo Longo.

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