Engeplus
Geral

Não ao Assédio

Só quero treinar: criciumense cria perfil nas redes sociais para denunciar assédio nos treinos

Giseli Trento sofreu assédio e resolveu criar um perfil para compartilhar histórias

Por Rafaela Custódio

9 min de leitura

Compartilhar:
Foto: Divulgação

Praticar exercícios físicos é a intenção de diversas pessoas que saem das suas casas com o intuito de treinar. Mas muitas vezes elas são interrompidas pelo assédio. Por esse problema, a criciumense Giseli Trento Andrade, de 39 anos, criou o perfil “Só quero treinar” para compartilhar relatos e mostrar a todos que já passaram pelo incômodo que não estão sozinhos.

Publicidade

Giseli comenta que estava treinando para uma meia maratona em Florianópolis quando começou a sofrer assédio. “Os treinos pela manhã eram extremamente desgastantes, não pelos treinos, mas pelos comentários. Treinava em direção ao Pinheirinho ou até a Forquilhinha e depois meu marido ia me buscar, mas aos fins de semanas nesse trajeto não tem muito movimento, então, os veículos passavam e os motoristas ficavam gritando, buzinando e ficavam parando ao meu lado e você nunca sabe qual é a intenção dessas pessoas, e não tinha ninguém em minha volta para pedir ajuda”, lembra.

Ela conta que treinava em horários alternativos e, por isso, diversas vezes encontrou as vias sem movimentação de pessoas. “Os treinos para você realizar esse tipo de prova aumentam gradativamente, com isso, é preciso treinar nos horários que você tem livre e, muitas vezes, sozinha. No meu caso, não tinha uma pessoa que treinasse comigo por causa dos horários”, explica.

“Na Forquilhinha, um cara passou por mim três vezes e precisei seguir umas crianças e entrar em uma casa que eu não conhecia ninguém porque ele está fazendo gestos obscenos. Tive que pedir desculpas depois para as pessoas que entrei na casa sem conhecer”, relata.

Questionei-me diversas vezes se era a roupa que eu usava, o trajeto que eu fazia e por que estava acontecendo comigo. Na verdade, nada disso justifica o assédio

Giseli Trento Andrade
________________________________________

Giseli ressalta que conversou com diversas pessoas e começou a acreditar que não era apenas com ela. “Conversei com a minha cunhada e ela me deu a ideia de criar o perfil nas redes sociais. A meia maratona aconteceu dia 25 de novembro e eu criei o perfil no dia 28”, comenta.

Atualmente, o perfil conta com nove mil seguidores. “Após criar o perfil, muitas pessoas começaram a seguir e a divulgar em suas redes sociais e isso nos ajudou muito. Com a divulgação, diversas pessoas começaram a relatar suas histórias e o que já passaram em seus treinos”, afirma.

Relatos

A criciumense posta diversos relatos todos os dias na página e busca trazer dicas de como treinar em segurança.

“Tem semanas que são quatro relatos por dia e sempre aparecem pessoas contando o que já passaram. Tem muita gente que quer apenas relatar o que aconteceu, mas não quer que seja revelado. Outras já querem pôr o nome, cidade, enfim. Se tornou uma rede de ajuda. As próprias mulheres vão no perfil, comentam e buscam ajudar as vítimas”, declara.

Giseli criou o perfil para ser uma plataforma de denúncias. “Era para ser um alerta para as meninas da região. No início era para corrida, porque eu praticava esse esporte. Mas já recebi relatos de ciclistas, já recebi comentários de pessoas que praticam natação, por exemplo. Acabou abraçando muita gente. Essas pessoas só querem treinar, nada mais do que isso”, afirma.

Ela ainda relata que nunca recebeu ameaças no perfil, mas existem comentários maldosos. “Não teve nenhuma contrapartida em relação a ameaças e, sim, comentários do tipo: ‘Isso é frescura’, ‘não podemos mais elogiar ninguém que é assédio’. Mas nunca ninguém passou dos limites”, observa.

Giseli ressalta que a página também recebe comentários de homens que sofrem assédio. “Um cuidado que sempre tomo é não levar para extremos. Já tivemos relatos masculinos, a maioria não quer que publique. Mas que existem meninas que tocam na bunda. O assédio é bilateral. Mas é maior com as meninas. Tento não levar para o feminismo, pois é uma área nova e quemuita gente não entende”, explica.

Eu só queria treinar. Não queria ser incomodada. Não quero elogios de desconhecidos

Giseli Trento Andrade
________________________________________

“Existem mulheres que, ao verem outras mulheres correndo de shorts ou de top, acham que elas estão fazendo isso para se exibir e não é isso. Existe esse preconceito também. Não é a roupa que muda algo”, alega.

O machismo, infelizmente, está enraizado na sociedade e muitas vezes até em nossas cabeças. Penso que tudo isso está mudando. As novas gerações possuem novas visões. Elas aceitam e toleram mais. Temos que aprender aceitar as mudanças

Publicidade

Giseli Trento Andrade
________________________________________

Futuro da página

A esportista admite que o futuro da página será com o intuito de ajudar as pessoas. “Quero ajudar a combater o assédio. Não tenho muitas ambições, porque não trabalho nessa área, mas quero ajudar essas pessoas que sofrem com o assédio e mostrá-las que não estão sozinhas”, admite.

Giseli comenta que possui uma ideia de criar uma corrida virtual. “Temos ideias de realizar uma corrida virtual que acontecerá no Brasil todo e já está sendo planejada. A ideia é todo mundo correr no mesmo dia e na mesma hora em diversos pontos do país”, projeta. “Cada cidade terá seus embaixadores. Deverá acontecer em maio. Todo mundo unido pela causa”, acrescenta.

A página possui diversas postagens de segurança e busca alertar as pessoas que praticam exercícios físicos. “A intenção é trazer estratégias para as pessoas treinarem com tranquilidade e cuidados”, relata.

Confira alguns relatos que foram publicados na página:

"Eu sofro muito assédio pedalando. Essa semana fiquei de saco cheio. Estava andando de bicicleta, já era noite. Percebi que um carro passou por mim e parou mais a frente, eu segui. Quando cheguei à esquina ele tinha dado a volta e me encontrou. Falou alguma coisa que não entendi e imaginei que ia dar a volta mais uma vez e me encontrar na esquina seguinte. Mudei minha rota e voltei pra casa. Só quero pedalar em paz", relato de Daniela Silva, 32 anos. Francisco Beltrão (PR).

"Eu sofri assédio às 8h30 de um domingo.. Um absurdo! Moro num bairro afastado do centro e todas as manhãs saía da minha casa rumo ao calçadão central e quando já havia corrido 4 km ia parar numa loja de conveniência para pegar um isotônico, comecei a caminhar para pausar o aplicativo e senti-o me encoxando, dei-lhe umas cotoveladas e gritei muito, muito mesmo. Ele saiu correndo por trás da área de lazer, sumiu pela mata e eu entrei na loja de conveniência aterrorizada, alguns homens que estavam lá ainda tentaram procurar o cara, mas sem sucesso. Nunca mais fiz esse percurso. Eu só queria treinar", lembra Edneia Santiago, de 39 anos, Porto Ferreira (SP).

"Era 12 de outubro. Feriado, no meio de semana. O André, meu marido, estava treinando para BM solo. Eu queria ir ao lado dele de bike em alguns trechos. Mas sem experiência de andar de bike, resolvemos sair para treinar nesse dia. Ele correndo e eu na bicicleta.
Um dia lindo de muito sol. Era 10 ou 11 horas. Ainda perto de casa, um carro com quatro caras, começou a me fechar e com os vidros abertos gritavam: “gatinha”, “gostosa”, “sabe andar de bike?”. Estavam emparelhados a mim, me fechando e falando essas coisas. O André estava longe de mim. Eu fiquei nervosa e com medo de cair. Xinguei. O carro parou, os caras desceram, vieram para cima de mim. “O que foi que você disse?” André apareceu. 11 horas da manhã de um dia lindo de sol. Quando chegou perto para me defender, jogaram meu marido no chão e começaram a bater, chutar. A pior cena da vida! Eu gritava, mas ninguém ajudou. Nada. Os caras fugiram. Foram 10 ou 12 pontos na canela do André, roxos pelo corpo, celular destruído e uma revolta e um medo em nós. Ainda treinamos na rua, até porque o André, como treinador, não tem muita opção, mas sempre temos medo e aquela lembrança”, admite Cácia Maria Corrêa de Oliveira Braga Sodré, de 39 anos. São Paulo.

Assédio é um crime previsto em lei

O advogado criminal e professor universitário Diego Pablo de Campos Maciel explica que assédio é diferente de importunação e que o crime de assédio está previsto em lei. “O assédio está previsto no art. 216-A do código penal e afirma que ‘constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função’, ou seja, somente haverá tal prática delitiva quando existir o constrangimento entre chefes e subordinados ou até mesmos professores e alunos”, afirma.

“Já importunação, que está prevista no art. 215 do código penal afirma que ‘praticar contra alguém e sem a sua anuência ato libidinoso com o objetivo de satisfazer a própria lascívia ou a de terceiro’, ou seja, não existe relação entre agressor e vítima de hierarquia ou ascendência. Incluem-se aqui as pessoas desconhecidas e podemos citar de exemplo aqueles abusos que infelizmente acabam acontecendo contra as mulheres dentro de ônibus, por exemplo”, explica.

O advogado relata que existe diferente entre os casos. “Atualmente o crime de importunação possui a pena mais severa, com reclusão que pode variar de um a cinco anos, enquanto que o assédio sexual possui pena que varia de um a dois anos, sendo agravada se a vítima for menor de 18 anos”, acrescenta.

Após a pessoa sofrer assédio ou até mesmo importunação, a vítima deverá ir a uma delegacia e registrar o fato. “Se for possível estar com o máximo de informações possíveis e, se possível, com testemunhas”, ressalta.

Maciel ainda conta que, se possível, é importante gravar os atos. “Por se tratar de um crime que normalmente acontece de modo prolongado, ou seja, agrava-se com o passar do tempo ou dias e quase sempre sem testemunhas presenciais, recomenda-se que se a vítima desconfiar de algo, que comece cedo a buscar capturar provas para auxiliar em eventual ação penal contra o agressor e salientamos, também, que é de extrema importância a utilização da tecnologia que está disponível ao alcance da vítima”, relata.

“Caso haja uma prisão em flagrante de alguém praticando estes crimes de importunação ou assédio sexual, o juiz criminal poderá determinar que o agressor não entre em contato com a Vítima, diretamente ou indiretamente, além do afastamento de tantos metros de distância”, lembra.

Para conhecer o perfil “Só quero treinar” clique aqui.

Compartilhar:
Leia a seguirPrefeitura arrecada mais de R$ 170 mil em leilão
Publicidade