Sem limites
Um amor que sobrepõe barreiras
Catarina e Vinícius são amigos desde que nasceram e se cuidam como se fossem irmãos
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Numa época em que a tecnologia conquista cada vez mais as crianças e celulares estão sempre em suas mãos, ter alguém para dividir a infância é fundamental para o desenvolvimento dos pequenos. Catarina Matias Henrique e Vinícius Sebastião Serafim, ambos de 3 anos, se conhecem desde que nasceram e convivem diariamente superando os limites, preconceito e descobrindo novas aventuras juntos.
Vinícius nasceu com mielomeningocele, uma doença que pode acontecer de uma a dez pessoas a cada mil nascimentos, segundo a Sociedade Brasileira de Neurocirurgia. Trata-se de uma malformação congênita da coluna vertebral da criança em que as meninges, a medula e as raízes nervosas estão expostas. Ele não sente nada dos joelhos para baixo e não caminha. Ou seja, utiliza uma cadeira de rodas para se locomover. Isso poderia ser um empecilho para as duas crianças, não é mesmo? Poderia, mas não é, e está longe de ser.

Catarina consegue enxergar Vinícius além da cadeira de rodas. Mesmo com 3 anos, a pequena o ajuda e está sempre ao seu lado buscando compreender e auxiliar Vinicíus. Existe briga entre a dupla? Existe, como entre todas as crianças, mas ao mesmo tempo os dois se reconciliam e se entendem da própria maneira.
A história das famílias
Rafaela Sebastião, de 30 anos, é mãe de Vinícius e Silvana Matias da Silva, de 47, é a mãe de Catarina. Elas se conheceram em 2010 quando estudaram juntas no Centro de Educação de Jovens e Adultos (CEJA). Há uma década elas convivem e uma acompanhou a gestação da outra. Além disso, atualmente são mães solteiras. Com isso, a ligação das famílias aumentou ainda mais.
Por serem amigas há dez anos, as crianças começaram a conviver juntas e Silvana acompanhou todo o processo de Rafaela com Vinícius. “A malformação na coluna do Vinícius apareceu no último ultrassom. Meu parto foi de 36 semanas e, assim que ele nasceu, já foi para Florianópolis realizar uma cirurgia de reparação na coluna e o procedimento ocorreu tudo bem, tanto que ele não precisou ficar na Unidade de Terapia Intensiva [UTI]”, explica Rafaela.
“Os médicos apontaram que ele seria uma criança acamada, pois não sentaria e não conseguiria se desenvolver, o que não aconteceu por um milagre. Atualmente, ele não caminha, mas tem toda uma autonomia de uma criança de 3 anos. Ele vai para escola, brinca e tem amigos”.
Rafaela Sebastião
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Rafaela ainda explica que a criança realiza fisioterapia, porém não é intensiva, o que faz com que ele não tenha ainda mais autonomia. “Não tenho condições de pagar uma fisioterapia para ele. Fazemos o procedimento na Universidade do Extremo Sul Catarinense [Unesc], o que nos ajuda muito também. Porém, precisávamos que apenas um profissional pudesse acompanhar ele para que a evolução fosse mais rápida e dinâmica”, analisa.
Vinicius é filho único e todas as atenções de Rafaela são voltadas a ele. A mãe trocou de profissão para poder acompanhá-lo diariamente. “Trabalhava como agente comunitária de saúde na Unidade Básica de Saúde do bairro Santa Augusta. Neste ano iniciei o curso de Pedagogia na Faculdade Uniasselvi para que eu possa atuar como estagiária de professora e estar mais próxima dele na escola”, conta.
“Os primeiros dias de vida do Vinícius foram difíceis. Recebi a notícia de que ele poderia ser uma criança acamada. Ele era meu primeiro filho, era um sonho de qualquer mãe. Mas nunca deixei de amá-lo. Hoje, lutamos diariamente para que ele tenha uma vida normal e ele está tendo”.
Rafaela Sebastião
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Silvana conta que as duas acompanharam a gravidez uma da outra e as dificuldades impostas pela vida. “O casamento das duas terminou após a gravidez. Acompanhamos as batalhas diárias uma da outra e acredito que essa nossa ligação fez com que nossos filhos pudessem se unir também. Esperamos que os dois cresçam com esse amor lindo que criaram um pelo outro”, projeta.
Gilmar da Silveira Serafim é pai de Vinícius e comenta que percebe a evolução do filho diariamente. “Gosto muito do Criciúma e já levei meu filho ao jogo do Tigre o que era um desejo antigo. Sou muito feliz em tê-lo em nossas vidas e espero que essa amizade entre os dois continue”, comenta.

Um amor sem limites
Catarina frequenta o Centro de Educação Infantil (CEI) Professor Lapagesse e Vinícius o Bairro da Juventude, ambos em Criciúma. Apesar de não frequentarem a mesma escola, os dois estão sempre juntos.
Por Vinícius estar sempre de cadeira de rodas, Catarina acaba se adaptando para que os dois possam brincar. Os dois jogam bola, apostam corrida da maneira deles, pintam desenhos. O importante para eles é estarem juntos.
“Vinícius é cadeirante e negro. Teria tudo para a Catarina ver ele como uma criança diferente, mas não. Isso comprova que o racismo e as diferenças não nascem com as pessoas e somos nós que adquirimos o preconceito ao longo dos anos”
Rafaela Sebastião
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Adaptação
Apesar de os dois serem crianças, as mães se preocupam com o futuro e explicam que aos poucos vão conversar sobre as diferenças dos dois. “Catarina ainda não entende que a cadeira de rodas do Vinícius é uma necessidade. Ela acredita que seja uma brincadeira. Aos poucos precisamos tratar desse assunto, sim”, explica Silvana.
“Enxergo os dois como irmãos. Irmãos de alma, da vida. Não consigo mais imaginar eles separados. Um chora pelo outro. Se isso não for amor verdadeiro, o que é?”
Silvana Matias da Silva
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Rafaela conta que Vinícius tem mais confiança em Catarina do que em outras crianças. “Ele não vai brincar com qualquer criança. Já com ela, ele não aparenta ter medo ou receio. Isso mostra o quão os dois são ligados um ao outro”, observa.
Futuro
Durante a reportagem, as crianças brincaram, se divertiram e até discutiram, mas logo se entenderam e foram jogar bola. “Esperamos que os dois cresçam unidos e que um possa ajudar o outro. Quem sabe eles possam ainda estudarem na mesma escola para que se aproximem ainda mais. Sabemos que são crianças que estarão sempre unidas de alguma forma e a infância dos dois sempre terá o registro dessa amizade”, afirma Rafaela.

“Assim como as famílias são amigas há anos, esperamos que os dois cresçam juntos e tenham sempre um ao outro. Os dois brincam em todos os lugares, amam ir aos parques de Criciúma e assim continuarão. Se a amizade deles faz bem a eles, é isso que importa”, completa Silvana.



