Amsterdam, aquela da novela das 8. Ou será que não?

Por Texto/fotos: Lene De Costa - lenedecosta@engeplus.com.br

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O percurso entre Bruxelas e Amsterdam é longo, por isso fazemos uma parada em Delft, já em território holandês. Pela janela do ônibus começo a ver uma infinidade de moinhos, enormes, com suas hélices deslizando quase em câmera lenta pelo vento. Deve ser a saudação: bem-vindo à Holanda.

Apesar de minúscula, Delft é visitada por dois motivos. É a terra da porcelana azul, famosa no mundo todo, e do diamante gigante, também azul, na entrada da praça. O céu, no entanto, está bem cinza, prestes a mandar água sobre nós. Páro para comprar umas pecinhas azuis e outro item característico chama minha atenção: os tamancos holandeses, um sapatão de madeira, bicudo, que não imagino combinando com nada do guarda-roupa brasileiro. Parece o sapato da Minnie Mouse. Pode até ser típico, mas bonito não é. E não é só no pé que dá para levar o tamancão. Ele é vendido em miniaturas em todos os materiais imagináveis. Em miniatura, até vai.

Delft tem muitos canais e por aqui aparecem as primeiras bicicletas. Um ponto que precisa ser visitado é a catedral, mas ao contrário de outras igrejas, a maior atração está em apreciá-la de longe. A torre está inclinada dois metros, cedendo dia a dia pela falta de firmeza do solo. A Holanda é um grande aterro, foi construída sobre a água e, em vários locais isso fica bem visível.

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A cara de cidade em que o tempo não passou fica pra trás quando se procura um banheiro público em Delft. Não vi nada igual. É uma caixa de metal no canto da praça, perto do diamante, e a porta é acionada por moedas para abrir. Lá dentro, tudo funciona por botões. O problema é que as poucas instruções estão em holandês. Desisti de tentar baixar a tampa do vaso depois de apertar vários botões errados, e comemorei quando consegui destravar a porta e sair daquela caixa. Recomendo tentar um banheiro em algum restaurante, deve ser menos tecnológico, e menos traumático para claustrofóbicos.

Uma foto na frente do diamante azul debaixo de uma chuvinha fina e estamos de novo na estrada. É fim de tarde quando passamos pelo local que eu sempre quis ver, os diques que seguram o mar no alto da estrada. Estamos passando aqui embaixo e um barco pode surgir lá em cima a qualquer momento. Infelizmente não vejo os barcos, mas deu pra ter uma noção de como é estar abaixo do nível do mar. Em alguns campos cortados por pequenos rios esse desnível fica ainda mais evidente, e é curioso ver o gramado mais baixo que o rio.

MUITA ÁGUA, MUITOS DIQUES
A terminação dam das cidades holandesas vem dos diques. Dam quer dizer dique, comuns em Roterdam e Amsterdam. Mônica, a guia, nos fala ainda da adoração da Holanda pelas pedras. Não há pedra em solo holandês, e as poucas construções que utilizam o mineral são consideradas riquíssimas. “Amsterdam és una aranha”, diz no seu portunhol, explicando como é a capital: as patas da aranha são os canais, e o corpo é a parte aterrada. Muito mais água que terra. Muito mais. Contabilize aí nada menos que 165 canais e 1281 pontes. O aquecimento global é acompanhado com maior preocupação pelos holandeses. Pelas contas deles, o derretimento das geleiras pode acabar com o país.

Não deve haver outro lugar no mundo como Amsterdam. Imagine todas as bicicletas do mundo, amontoadas. Em Amsterdam tem o dobro. Adaptadas a todas as situações: para uma única pessoa, com cestinha para levar o cachorro, com cabine para carregar duas crianças, e por aí vai. Bicicletas de todos os tamanhos, todas as cores, novíssimas ou caindo aos pedaços, amarradas em qualquer lugar. E elas têm preferência, o turista que se atrever a atrapalhar seu caminho leva buzinada. É melhor sair da frente, porque elas não vão parar.

A área central é formada por casas de alguns andares, muito estreitas, coloridas, contornando os canais. As portas são pequenas, por isso todas as casas têm um gancho instalado no topo, por onde são puxados os móveis nas mudanças. O colorido também está no comércio, com suas fachadas animadas e descontraídas. O Museu de Van Gogh divide espaço com o Museu da Vodka e o Museu do Sexo. É o clima da cidade.

A CHEGADA A AMSTERDAM
Assim que desço do ônibus, faço uma reverência ao local onde estamos, a porta da fábrica da Heineken, a cervejinha local. Do outro lado está o barco que Mônica nos sugere para o passeio pelos canais, incluindo uma visita à Red Light, por 40 Euros. Dispenso o opcional e, com alguns colegas criciumenses, caminho mais alguns passos até o cais e pego um barco que não inclui os petiscos e cantores do primeiro, mas que fará o mesmo roteiro. Por 7 Euros. O passeio pelo canal já serve de city tour, narrado divertidamente pelo comandante em inglês e espanhol. Avistamos museus, casas históricas, pontos turísticos, belos cenários. Mas não tão belos quanto os que apareciam em Páginas da Vida. Amsterdam ao vivo não é tão perfeita quanto a da Globo. Tem problemas como toda cidade de 750 mil habitantes. Bicicletas são freqüentemente roubadas. Fotografo lixo no canal e alguns locais com pontes mal-cuidadas e água nada limpa. E as flores não estão por toda parte como eu imaginava. Mas esses detalhes não diminuem em nada minha satisfação de estar ali. É fantástico. Diferente de tudo, impressionante.

Mas as coisas realmente mais impressionantes de Amsterdam, infelizmente, não são fotografáveis. O guia criciumense nos sugere utilizar óculos escuros para caminhar nas ruas, assim poderemos disfarçar nossa curiosidade ao olhar para situações não muito comuns em Criciúma. Encarar qualquer coisa diferente em Amsterdam é confusão certa. Numa cidade onde tudo é liberado, dirigir olhares por muito tempo pode configurar invasão de privacidade, ferir os direitos conquistados e outros tantos problemas que nenhum turista quer ter. Tento fotografar um casal bastante estranho sentado no chão da praça tocando um instrumento aparentemente fabricado com longos canos de PVC, e que emitia um som horrível. Mesmo puxando o zoom da câmera de longe, a moça percebeu a direção da lente e me despeja uma dúzia de pragas. Me desculpo, mas não apago a foto. Porém, melhor não publicar.

Como não paguei pelo passeio com Mônica, ela não nos permite acompanhá-la a pé à Red Light, a zona de prostituição liberada que fica bem perto do centro. Para evitar confusões, decidimos esperar para ir no dia seguinte. O hotel da vez não fica exatamente em Amsterdam, e ainda teremos uma hora de estrada até ele, um hotel em um campo de golfe, lindo, mas no meio do nada. No caminho, só campos e vacas (vacas holandesas, as originais). Aproveitamos para garantir a janta numa pizzaria na frente do local marcado para esperar o ônibus. Belas pizzas, mas perderam a graça assim que o atendente enfiou as mãozonas direto na fatia. O negócio é torcer para que a Coca-cola seja forte o bastante para matar os germes.

RIVALIDADE BRASIL X HOLANDA
O café da manhã no hotel holandês equivale a um almoço completo. Minha tranqüilidade ao saborear tantas delícias só foi perturbada pelo barulho ensurdecedor do sujeito da mesa ao lado que assoava o nariz sem nenhuma cerimônia enquanto esperava o cereal inflar. Assoou o nariz duas vezes, com tanta força que fico na dúvida se o cérebro não foi parar no lenço. Absolutamente normal para eles, acontece o tempo todo, em todo lugar, inclusive nos restaurantes. E ninguém olha atravessado, aparentemente faz parte da cultura deles. Particularmente, meu estômago não aceitou muito bem este costume. Viagem pela Europa tem disso: às vezes é preciso fechar os olhos, às vezes é melhor tapar os ouvidos.

A manhã começa com um city tour não muito diferente do que vimos durante o passeio pelos canais. Quem nos conta sobre a cidade é uma holandesa de cabelos avermelhados, muito simpática e com um espanhol excelente, mas que jamais vou conseguir relembrar o nome, algo bem típico. Apesar de ter passado férias nas praias brasileiras em duas ocasiões, tem a pele tão branca que parece nunca ter visto um raio de sol. Assim que entra no ônibus, pede para que os brasileiros levantem a mão. Maioria absoluta. Nos avisa que será boazinha conosco apesar da birra que os holandeses têm com os brasileiros. Segundo ela, somos sempre nós os responsáveis pelas eliminações da Holanda das Copas do Mundo. Lembrei na hora de um chutasso do Branco, algumas copas atrás, que mandou os holandeses pra casa. Sorry.

O tour com a holandesa inclui um rápido passeio pelo mercado de flores. Agora sim, estou na Amsterdam dos cartões postais. Flores por toda parte, das mais coloridas, das mais exóticas. Tulipas, uma imensidão de tulipas. Tive que ir à Holanda para descobrir que a tulipa é, na verdade, uma flor turca. Mas foi adotada pelos países baixos e o cultivo ganhou fama. Compro vários pacotes de sementes, única encomenda da minha mãe quando soube que eu ia à cidade da novela. Sementes baratíssimas, dá vontade trazer um pacote de cada tipo. E mesmo com clima tão diferente, florescem no Brasil.

A holandesa nos fala, então, das famosas casas-barco. São três mil delas espalhadas ao longo dos canais, disputadas quase a tapa pelos moradores. Há uma lista de outros três mil interessados em habitar um endereço flutuante. E pelo que conseguimos ver através das janelas, são completas: televisão, internet, tudo. Uma vida alternativa, mas com todas as mordomias modernas.

CHOQUE DE CULTURAS
Encerrado o city tour, temos tempo livre para percorrer a cidade, e o grupo de criciumenses se une para ir à Red Light. Câmeras, nesta área, devem permanecer nas bolsas para evitar abordagens da polícia. Escolhemos uma das ruelas e começamos a caminhar, e os primeiros passos são dados lentamente para acostumar os olhos a uma realidade normal em Amsterdam. É meio-dia e o bairro vermelho está em pleno funcionamento. Em espremidas vitrines estão expostas prostitutas das mais variadas idades, pesos, alturas, biotipos. Encarnando o papel de produto, instalam-se atrás do vidro na posição que possa chamar mais a atenção do cliente. Não estão nuas, mas vestem apenas curtíssimas peças, geralmente só lingerie. A maioria das cabines são minúsculas, uma pequena cama e um mini-banheiro. Contratado o cliente, a cortina é fechada e o “serviço” inicia-se. As prostitutas emitem, inclusive, nota fiscal ao cliente. E o governo cobra, além dos tributos, uma bateria de exames a cada três meses, provando a capacidade de trabalhar sem oferecer risco à saúde do contratante.

A maioria dos colegas do grupo sai horrorizada do local. Diria que fico impressionada, com uma certa angústia. Não era surpresa, eu já havia lido sobre o bairro, eu sabia como funcionava. Mas nada como ver com os próprios olhos. É um choque cultural e tanto.

No final das ruelas, à margem do canal, estão os coffeshops. Turistas em busca de um simples cafezinho devem procurar os estabelecimentos escritos com K, Koffee. Estes vendem café. Os coffees também, porém a especialidade da casa nos cafés com C é outra. A venda de algumas gramas de cannabis é legalizada nestes locais, e a erva pode ser consumida dentro do estabelecimento ou na rua, sem qualquer problema. Para os adeptos do tabaco a situação não é tão favorável, nem pense em fumar um cigarro dentro de um Coffee. Vai entender.

PEDRINHAS PRECIOSAS
O tour por Amsterdam inclui uma visita ao Museu do Diamante. Quem nos acompanha desta vez é Samuel, o guia que irá conosco até a Alemanha. Brasileiro, baixinho, ar de malandro, 20 e poucos anos e ex-morador de Florianópolis. A essa altura da viagem, encontrar alguém que conhece a Lagoa da Conceição dá ao sujeito passaporte de amigo de infância.

No museu somos atendidos em português e convidados a ver como as pedras são lapidadas, uma verdadeira aula sobre brilhantes, quilates, formatos. A exibição das pedras mais caras do mundo é feita em uma sala-cofre, provavelmente cravada até os rodapés de câmeras e alarmes. Claustrofóbicos também não são bem-vindos nesta parte da visita, já que a sala é pequena e trancada por sistema, com horário determinado para abrir novamente. Os diamantes vão surgindo, passam em frente aos olhos de todos. Em seguida, são apresentadas as jóias. É permitido contemplar, fotografar, provar. Ponho no dedo um anelzinho básico, coisa de R$ 15 mil. Praticamente o preço do meu carro. Não sei porquê, mas não gostei muito dele.

Vistos os diamantes, aproveito para conhecer o parque em frente ao museu. Claro, bonito, parece uma praia, um convite natural para caminhar entre as árvores secas que contornam uma pequena rua cercada por cafés.

De volta ao centro de Amesterdam, depois de engolir mais um Big Mac de pé num dos milhares de Mc’s europeus, é hora de caminhar pela praça. As figuras estranhas não param de surgir, e até Batman e A Morte estão lado a lado.

Fecho a visita a Amsterdam posando para fotos na frente de bicicletas alheias, e lamento não ter tempo suficiente para alugar uma delas e passear pelas ruas. Deixo a capital holandesa com a sensação de “quero mais”. Em menos de 24 horas não dá pra ver muita coisa. Mas as malas já estão no ônibus, e estou de novo na estrada. Tempo para um cochilo, e quando eu acordar, estarei na Alemanha.

RELEMBRE COMO COMEÇOU O TOUR
Voilà! A criciumense está em Paris

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