Por Texto/fotos: Lene De Costa - lenedecosta@engeplus.com.br
EmTexto postado no dia 8 de setembro de 2008 / Já é noite quando piso pela primeira vez em território alemão. Estamos em Bremen, cidade sem nenhum atrativo turístico em que vamos apenas dormir. O máximo que consigo é uma rápida caminhada pelos arredores do hotel, e só o que vejo são ruas desertas, muito limpas, casas silenciosas e com jardins floridos. É cedo, mas não há quase ninguém pelas ruas. De volta ao hotel, a melhor pedida para aproveitar o tempo livre parece ser o bar anexo, uma pequena ilha com algumas banquetas, alguns petiscos e, opa! três tipos de cerveja típica!
Na recepção descubro uma coisa que até este ponto da viagem parecia irreal: internet grátis para os hóspedes. Até Samuel, o guia, faz cara de espanto ao ouvir o “free” da atendente. Todos os hotéis até ali cobravam, e bem cobrado, coisa de 10 Euros para míseros 15 minutos. Olho para o computador, a tela do Google em alemão, olho para o bar... quem precisa ver e-mails? Quero saber é que gosto tem aquela cerveja.
Antes da partida para Hamburgo, divido com um simpático e animado casal de terceira idade um café da manhã básico na Alemanha, com generosas porções de salsichas, lingüiça, bacon, omelete, pães, geléias, tortas. Mesas impecavelmente ajeitadas, com flores, aroma agradável do café, tudo muito organizado. Sempre ouvi dizer que os alemães são metódicos, primam pela perfeição, e deu pra ver que não é lenda, tem fundamento. Tudo está sempre muito bem arrumado, pronto, exato.
Depois de algumas horas de estrada, Hamburgo surge com praças e monumentos gigantes, contrastando história e modernidade. A parada é breve, apenas uma visita à área central e pouco menos de duas horas para rodar pela poderosa Saturn, quatro andares de tecnologia pura. Qualquer coisa que tenha botões, faça barulho, pisque ou se mexa, é vendido lá.
Como não sabia antes que iria visitar o local, não pesquisei nada que pudesse ser comprado facilmente sem tantas explicações técnicas. Percorro os corredores de câmeras fotográficas e acessórios, namoro alguns itens que ainda nem chegaram no Brasil e parto em busca de um vendedor que fale espanhol, já que não me atreveria a comprar algo caro negociado com o meu inglês barato. Mas alguém que fale espanhol deve ser a única coisa que não tem na Saturn. Vários setores e nada, no máximo consigo um alemão que arrisca um “falar quase nada”. Desisto. Se eu quisesse um Playstation 3 teria sido fácil e barato, 299 Euros com devolução de 40 Euros na dedução de imposto no aeroporto. Bem menos que no Brasil.
Caminho pela área onde estão concentradas as lojas esportivas e vejo dentro da loja da Adidas o casal com o qual tomei café da manhã. Sozinhos, tentam explicar ao vendedor alemão que querem duas camisas de determinado time, em tamanhos diferentes. Não falam uma palavra em inglês, e o vendedor não sabe o que fazer. Definitivamente, o espanhol não serve para muita coisa na Alemanha. Meu inglês que não serve pra comprar um acessório pra câmera serve muito bem em lojas, e ajudo o casal a finalizar a compra. Antes de seguir para o ônibus ainda paramos para comprar um pedaço de pizza, o almoço do dia. O local é pequeno, as pizzas estão na vitrine, e quando escolhemos nossa fatia vemos a moça pega-la com guardanapo. Nada de mãos. Viva a Alemanha!
É fim de tarde quando chegamos a Berlim. Vamos direto ao Zoológico onde pegaremos a guia alemã que narrará o city tour da vez (que ponto de referência mais infame pra se pegar uma pessoa, não?). O nome também não consigo gravar, mas a mulher é baixinha, cabelos escuros num corte reto, usa um taier alinhado e cada vez que olho pra ela tenho a sensação de estar vendo a Edna, aquela estilista que fez os uniformes dos Incríveis no desenho.
O primeiro ponto visitado é o Portão de Brandemburgo, atualmente um símbolo da unidade entre o lado Oriental e o Ocidental. Durante 30 anos o portão permaneceu bloqueado tanto para veículos quanto para pessoas. Foi reaberto em dezembro de 1989 e hoje une o centro histórico de Berlim à Potsdamer Platz, uma bela praça para uma caminhada de final de tarde. A guia nos conta toda a história do local, mas depois de mais um dia de estrada meu poder de concentração já não me permite gravar tantos detalhes. Fico com a impressão de turista: é uma praça ampla, arejada, movimentada pelo fluxo de carros, e o portão fica fantástico contra o sol no fim de tarde.
Sempre tive curiosidade para saber como os alemães falam de Hitler, e no city tour descubro que eles simplesmente não falam. Em nenhum momento a guia cita o nome do líder nazista. Pouco a frente do portão está o prédio onde funcionava a sede do governo Hitler, mas a informação é dada por colegas do ônibus que já estiveram ali, não pela alemã. Próximo a Brandemburgo fica o Memorial ao Holocausto, uma área maior que a Praça do Congresso onde estão 2711 lápides de várias dimensões simbolizando os judeus assassinados. Pela guia, ele é apresentado rapidamente, de dentro do ônibus mesmo, com nome e um breve “construído em homenagem aos mortos do Holocausto”. Só isso. Assunto encerrado.
O city tour de Berlim tem uma aura negra, pois cada ponto turístico visitado esconde uma história da qual os atuais habitantes não se orgulham. É, com toda certeza, a parte mais pesada da viagem, com relatos tristes a cada parada. Estamos agora na Opernplatz, a Praça da Ópera, uma praça belíssima, mas conhecida principalmente pelo fato infeliz que abrigou. Em maio de 1933, Hitler mandou que fossem queimados ali cerca de 20 mil livros, a maioria retirados de bibliotecas públicas e escritos por autores que ele considerava “pouco alemães”. No local há um monumento subterrâneo, visto pelos turistas apenas quando se chega ao centro da praça. Um quadro de vidro revela uma sala branca com estantes vazias suficientes para acomodar todos os exemplares queimados. Uma inscrição em alemão diz algo como “onde se queimam livros, se queimam também pessoas”.
Com o final de tarde e o sol se escondendo, o que restou do Muro de Berlim parece ainda mais sombrio. Não há como caminhar próximo a ele sem se influenciar pelas angústias vividas ali, sem pensar nas dezenas de pessoas que morreram tentando trocar de lado para trocar de vida. As marcas da divisão da cidade ainda são facilmente vistas, e em alguns pontos recebe placas com o letreiro “Berliner Mauer – 1961-1989”. O pedaço que se mantém de pé tem partes destruídas, pichações, é cercado por uma grade e guardado pela polícia para evitar que cada visitante leve um pedacinho, um obscuro mimo, para casa. Tiro fotos em cima da marca do muro e encostada na grade que protege o restante dele. Não sei se acontece com todo turista, mas não consegui sorrir para as fotos nesses locais. Estou séria, talvez por absorver os dramas escondidos naquele concreto. Eu tinha 10 anos quando assisti pela Globo os alemães derrubando o muro na noite de 9 de novembro de 1989. O repórter era o Pedro Bial, e hoje em dia, cada vez que passo em frente à TV quando ele está apresentando o tal Big Brother, tenho a impressão que a carreira dele foi mais derrubada que o muro.
A série de locais históricos termina com a visita ao Checkpoint Charlie, posto militar entre a Alemanha Ocidental - capitalista, controlada pelos Estados Unidos, Reino Unido e França - e a Alemanha Oriental - socialista, controlada pela União Soviética - durante a Guerra Fria. Sacos de areia ainda protegem a guarita e é mantida a placa com o aviso “Você está deixando o setor norte-americano”.
Depois de tanto conteúdo pesado, preciso de um pouco de alegria, afinal, estou na Alemanha, a terra da cerveja. O Schleusenkrugs, ponto escolhido para renovar as energias, fica próximo do hotel, e sigo caminhando com alguns colegas criciumenses por um arborizado parque até a entrada do biergarten/café/bar/restaurante. Ainda não está escuro, mas já há muita gente.
O lugar lembra uma quermesse de igreja, com mesas grandes de madeira, sem toalhas ou enfeites, e lâmpadas penduradas por todo lado. Não é preciso conhecer o sujeito que já está na mesa para ocupar os lugares vagos, basta sentar. Uma banda (só pra lembrar, alemã) faz um animado show e o clima é descontraído. Canecos de chope circulam por todo lado, um chope relativamente quente, mas forte, e há gente sorrindo, contando histórias, cantando.
O primeiro prato provado, um pãozinho com uma temperadíssima lingüiça é pedido na base do dedão, apontando mesmo, porque é impossível tentar ler o imenso nome no cardápio com tantas consoantes e tremas. “iá”, o sim alemão, é tudo que consegui decorar nesse idioma antes da viagem. Mas depois que descubro um garçom português, tudo fica fácil.
Minhas fotos da primeira noite no Schleusenkrugs não saem com foco exato. Mas juro, é incompatibilidade da luz do ambiente com a câmera semi-profissional. Nada a ver com os canecos.
Para o nosso grupo, a festa termina cedo. Voltamos devagar pelo iluminado parque, fazendo planos para o dia seguinte, quando vamos sair sozinhos para conhecer os pontos turísticos mais modernos de Berlim.
RELEMBRE COMO COMEÇOU O TOUR
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