Por Texto/fotos: Lene De Costa - lenedecosta@engeplus.com.br
EmÉ minha única noite na Bélgica e precisa ser bem aproveitada. Depois de um banho rápido para deixar pra trás a sensação de cheirinho de cavalo trazida de Bruges, sento na recepção do hotel para pegar carona no programa de algum integrante do grupo. Dois deles, pai e filho, aparecem em seguida e os acompanho. O pai já esteve na cidade e sugere conhecer um ponto famoso: as galerias.
A recepcionista do hotel explica - em português, maravilha – onde ficam, e nos dá um mapa. Algumas ruas depois já não temos certeza se estamos na direção certa, e o negócio é apelar para quem encontramos no caminho. Em Buxelas o idioma volta a ser o francês, o que torna o pedido de informação um pouco mais difícil. Apontamos no mapa a Grande Praça, e a explicação vem mais por gestos que por palavras, mas serve. Um dos abordados nos pergunta de onde somos, e ao ouvir Brasil, responde com Ronaldo e futebol. É assim o tempo todo lá fora. E na hora de agradecer a ajuda já nem sei mais o que dizer. Pulamos tanto de língua em língua que já confundo onde vale o thank you e onde vale o merci.
Um imenso jardim aparece. De início penso que é o famoso tapete de flores que estampa os cartões postais da cidade, mas depois percebo que o local não é o mesmo. A noite começa a cair e o jardim está deserto. Como não sabemos se estamos ainda longe das galerias, deixamos as flores e continuamos o percurso.
ROYALES
Com um imenso sorriso, o senhor que lidera nosso passeio noturno reconhece uma das entradas das Galeries Royales St. Hubert, uma animada reunião de lojas, bares e restaurantes. Primeiro, uma visita às deliciosas vitrines de lojas de chocolate. Todos os tipos, tamanhos, formatos, cores, sabores. Engorda só de olhar. Sempre achei que a terra do chocolate fosse a Suíça, mas os guias nos dizem que é a Bélgica a produtora do melhor chocolate do mundo. E não deve ser exagero. São fantásticos.
São tantos os restaurantes que não sabemos direito qual escolher. Acabamos optando por um de boa localização, uma esquina movimentada, e que exibia uma elegante mesa de todas as espécies de frutos do mar. Devia ter entendido o recado, aqueles frutos do mar não estavam ali sem motivo.
Confortavelmente instalados, decidimos comemorar nossa aventura com la pression, chope pedido em francês. Senti mais restrição ao idioma em Bruxelas que em Paris. O garçom que nos atende não faz nenhum esforço para nos atender em inglês, e mesmo sem falar francês percebo o tom de deboche. Peço um chope escuro e ele me olha com cara de espanto, pergunta se tenho certeza. Tenho, pode acreditar que sei o que estou pedindo.
Servidas as bebidas, meu colega gentilmente pede ao garçom uma sugestão de aperitivo. Com o constante sorrisinho debochado, ele nos pergunta se queremos carne. Inocentemente respondemos que sim. Uma bandeja é colocada na nossa mesa pouco depois, com não mais de dez pedaços de carne, branca e vermelha. O sal, só para variar, não passou nem perto. Mas as batatas, de novo elas, estavam ali em grande quantidade. Como o chope era ótimo, na média, estamos bem servidos. A surpresa veio na conta. Nosso pequeno aperitivo saiu pela bagatela de 92 Euros, algo em torno de R$ 260. E não dá para reclamar, afinal, a Europa não ser expressiva na agropecuária é um fato. Há vitrines de frutos do mar porque a especialidade lá é essa, bem mais barato. Lagostas teriam custado menos que o picadinho. Valeu a experiência. Mas não recomendo investir tanto em carne. Os 92 Euros dariam um bom barril de chope. E o chope, esse sim vale a pena.
Felizes, fazemos o caminho de volta ao hotel debaixo de uma fina chuva. É quase uma da manhã, as ruas estão desertas e cada ponto de referência encontrado vira uma festa. Bruxelas vai deixar excelentes lembranças.
CONHECENDO BRUXELAS
A manhã que inclui um breve city tour começa com um confuso café. O hotel é bom, mas não consegui identificar as estrelas que deram a ele o tal padrão Hilton. Móveis antigos, paredes finas que me permitiram ouvir a conversa alheia (e eram brasileiros no quarto ao lado, entendi tudo), um salão de café com mesas grandes sem prévia arrumação, talheres ou xícaras. Não que eu seja exigente, mas comparado aos demais e pelo preço da diária, o hotel de Bruxelas deixou a desejar.
Algumas partes de Bruxelas lembram bastante São Paulo, com prédios grandes, ruas modernas, trânsito intenso (com a diferença que o trânsito em Bruxelas flui). Outras assumem a forma européia e reúnem comércio colorido, trem elétrico e um emaranhado de fios para manter o transporte em funcionamento. Há ainda o palácio da família real e a Universidade de Bruxelas instalados em prédios em estilo medieval, parecidos com o Louvre. E muitos, muitos monumentos estranhos.
Passamos novamente pelo jardim da noite anterior e seguimos para a Grande Praça. É aí que descubro que o tapete de flores que vejo nos cartões postais é montado. A praça que o abriga é de lajotas, e as flores não estavam lá. Somente alguns vendedores. O tapete belga toma a praça apenas durante três dias a cada dois anos. Só. Devia ter lido mais sobre a Bélgica antes de ir.
MANNEKEN PIS
Mas a falta de flores não chega a comprometer a beleza do ponto. Da Grande Praça, Mônica, a guia, nos leva a uma pequena esquina para conhecer a figurinha mais famosa de Bruxelas, o Manneken Pis. Em bom português, garoto fazendo xixi. A fonte em bronze exibe a estátua do menininho de 30cm, a única estátua vestida que devo ter visto na vida. O guarda-roupa do bonequinho soma mais de 600 modelitos. Bem mais que o meu.
A estátua original foi colocada na fonte em 1619, mas a que vemos agora é uma réplica. Sim, a original foi roubada. Diversas lendas tentam explicar o bonequinho. A que Mônica nos conta é a de que o filho de um duque, perdido, foi encontrado fazendo xixi. É o ponto turístico mais sem nexo que visitei. Centenas de turistas se espremendo pra tirar foto na fonte do xixi. Cada país com as suas tradições, mas me incluam fora deste mico.
No caminho de volta à Grande Praça, um dos colegas do grupo aponta uma entrada que preciso parar para fotografar. Orgulhosa, clico a vitrine do cinema com o cartaz de O ano em que meus pais saíram de férias. É o nosso cinema ganhando o mundo.
Visitado o bonequinho, quero saber dos chocolates. Mônica nos deixa numa rua com várias lojas do doce, todas com uma infinidade de amostras para provar. Dois quilos a mais só para me decidir quais trazer. Não há nada igual. Saio da loja com o máximo de caixas que consigo carregar. Trufados, brancos, pretos, com frutas e recheios que nem conheço. Derretem na boca. Incríveis. Melhor não falar mais deles.
WAFFER COM SORVETE
O tempo que me resta na cidade é gasto numa das tarefas que mais gosto: sentar num café e observar o movimento normal da população. Mesmo com todas as demais cadeiras do estabelecimento vazias, o proprietário rosna por estarmos sentados ali sem consumir nada. Aproveito a gentil sugestão para provar um doce típico no local, waffer coberto com sorvete. Delicioso, porém o waffer é meio duro e deve ser comido em mordidas, o que não é muito prático para quem usa aparelho. Mas nem por isso sobrou.
Um passeio de escola chama minha atenção. Na fila devem estar cerca de 30 crianças, todas loiras de olhos claros. Enquanto observo as crianças, uma senhora vestida mais ou menos como os ciganos que conhecemos se aproxima para pedir ajuda, e o dono do estabelecimento mais uma vez mostra suas ferraduras, espantando a mulher. Pouco depois uma confusão se arma perto da cozinha. Uma turista tem a bolsa roubada de uma das mesas do nosso lado. Tive dúvidas se o dono do local já é estressado pela quantidade de vezes que essas coisas acontecem, ou se eu deveria dizer: bem-feito.
Pouco depois do almoço, uma fina chuva marca nossa despedida de Bruxelas. A parada seguinte será em Delft, uma pequena cidade já na Holanda. E a Holanda é simplesmente extraordinária! Não recomendo perder o próximo capítulo.
RELEMBRE COMO COMEÇOU O TOUR
Voilà! A criciumense está em Paris
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