Por Texto/fotos/vídeo: Lene De Costa - lenedecosta@engeplus.com.br
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Há uma expressão muito comum em Criciúma, ouvida com humor por quem é de fora e pede informação aqui: “vai reto toda vida”. Para ir de carro à Cordilheira dos Andes, no Chile, cabe exatamente esta orientação. São retas e mais retas durante vários dias.
Até Mendoza, última grande cidade argentina antes da fronteira com o Chile, são mais de 2.000km de estradas praticamente alinhadas, sem curvas. Estradas de excelente qualidade e pouco movimento e que raramente cortam áreas urbanas. A maioria do trajeto é costeado por campos de trigo e para animar a paisagem só alguns estranhos e solitários monumentos à beira da estrada.
A passagem por Mendoza, a terra do vinho argentino, é rápida, só para dormir. Mas se não há tempo de ir a uma das inúmeras vinícolas, as uvas vêm até nós. No meio da cidade é possível ver pequenas parreiras lotadas da fruta, uma amostra do que a região reserva para seus turistas.
BOM MOMENTO ECONÔMICO
Para nós brasileiros, por sinal, é um bom momento para fazer turismo na Argentina. Com a valorização do real, a cotação do peso argentino no interior do país fica acima dos 2,20. Dá para saborear ótimos pratos por 20, 30 pesos (menos de R$ 15) com destaque para as carnes, realmente saborosas. Arroz não existe por lá e o acompanhamento oficial são as papas - as nossas batatas – fritas, souté ou purê.
A hospedagem é realmente barata se comparada ao Brasil. Os hotéis de categoria turística oferecem quartos grandes, a maioria contendo cama de casal e duas ou três camas de solteiro, por menos de 180 Pesos por diária. Cabe a família toda, e muitos têm cozinha. O preço da gasolina é o atual problema argentino, mas ainda assim fica um pouco abaixo do valor praticado no Brasil, com a vantagem de ter várias classificações de aditivadas.
Para não ser pego de surpresa, não conte com o cartão de crédito. Mesmo em Buenos Aires muitos estabelecimentos ainda não aceitam cartões. Alguns só aceitam operadoras nacionais, até mesmo em regiões tipicamente turísticas, e as máquinas com leitura de chip ainda não são comuns, favorecendo a clonagem.
O melhor é ter sempre em mãos moeda local ou dólar. O real, pela valorização, também tem boa aceitação na capital. E o câmbio deve ser feito preferencialmente em bancos pois até casas de câmbio passam notas falsas aos turistas. Ah, e peça sempre notas menores, de 50 pesos para baixo, mais difíceis de serem falsificadas ou trocadas pelos taxistas em um golpe bem comum em Buenos Aires: ele recebe a nota de 100, troca rapidamente por uma falsa e devolve acusando o turista de estar tentando passar dinheiro falso.
AS MONTANHAS
De volta à estrada, de Mendoza já dá para ver os primeiros sinais da Cordilheira. As montanhas começam a aparecer e a empolgar quem está há dias rodando para vê-las. A cada quilômetro as paisagens montanhosas vão ganhando mais destaque, até que a civilização começa a ficar para trás.
Diante dos olhos, só os paredões rochosos em cores fascinantes. Todas as cores, é impressionante. Pequenos túneis preservam as formações naturais e os únicos sinais urbanos são Uspallata, a insólita comunidade instalada no meio da Cordilheira, e as estruturas montadas para as estações de esqui, em dezembro totalmente abandonadas.
São quase 250 km atravessando um verdadeiro espetáculo da natureza. Em dezembro, a região vira um deserto, com rios completamente secos e até cactos nas margens da estrada.
No ponto mais alto, a 3.175 metros de altitude, fica o Túnel del Cristo Redentor, a fronteira entre Argentina e Chile. O túnel tem 3.080 metros de extensão, 1.516 em território argentino e 1.564 no lado chileno. Olhando a altura da montanha que está acima do túnel é difícil criar coragem para atravessá-lo. Ao redor, em pleno dezembro, montanhas com picos ainda cobertos de neve e temperatura de 13 graus.
BUROCRACIAS
A empolgação de chegar, finalmente, ao solo chileno, só é quebrada pela burocracia. Logo depois de cruzar o túnel os veículos são direcionados ao Complejo Fronterizo Los Libertadores, a imigração Argentina-Chile. É o tipo de lugar que merecia fotos para registrar, mas câmeras não são bem-vindas em órgãos internacionais.
O lugar não perde em nada para as fronteiras mostradas naqueles filmes de fuga de países em guerra. Em meio ao calor (aqui a temperatura volta para os 30 graus ou mais) e poeira alta, carros e ônibus são parados por oficiais fardados que não oferecem explicações, apenas alternam entre ásperos “pare” e “siga”.
Dentro da imigração é preciso descobrir o que fazer entre a multidão que se aglomera. Não há como pedir informação. Finalmente se entende que são vários passos: imigração para carimbar a saída da Argentina, imigração para carimbar a entrada no Chile, aduana da Argentina para declarar saída do carro, aduana do Chile para declarar entrada do carro, pagamento de pedágio. Todos com longas filas.
Depois de quase duas horas de papéis e uma coleção de carimbos, achei que estávamos liberados. Nada. Faltava a vistoria da vigilância sanitária, com direito a cão farejador com as patas em cima dos bancos e oficial revirando até o lixinho preso na marcha do carro. Sem lembrar da proibição, tínhamos no carro cerejas compradas no caminho, motivo para um auê, já que em um dos formulários afirmávamos que não transportávamos itens perecíveis. Afinal, quem lê todas as linhas de um formulário??
Ameaça de multa, confisco das cerejas, fila para preencher um novo formulário, entrega o formulário novamente para o oficial, mais carimbos e, aí sim, a liberação. Mais cansativo passar por isso que rodar de carro até ali.
Vencida a imigração, nossa recompensa são os cenários do vídeo e da galeria de fotos ao lado, com montanhas ainda mais inusitadas e a incrível estrada em caracol. E nenhuma palavra daqui em diante pode descrever com exatidão a beleza daquele lugar sem igual.
No próximo capítulo: as águas do Pacífico marcam o final da viagem. Até lá!


































