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Em primeira pessoa: E aí, presidente Temer?

Minutos depois de aberto o impeachment, as primeiras impressões do futuro governo

Por Redação Engeplus

5 min de leitura

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Foto: Divulgação

Ele queria era falar pro presidente
Pra ajudar toda essa gente que só faz
Sofrer

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O arremate de “Faroeste Caboclo”, aquele sucesso de quase dez minutos do Legião Urbana, retumbava na memória no início da madrugada de 18 de abril de 2016. Fazia pouco que o presidente Eduardo Cunha (PMDB-RJ) havia encerrado a sessão histórica que aprovava a abertura do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT). Antes de mais nada, longe de ser tietagem, a foto que ilustra estas linhas é a recordação da conversa com o então vice-presidente da República. Vamos adiante.

Encontrei o deputado Ronaldo Benedet (PMDB-SC), em um dos corredores da Câmara. Naturalmente, o conheço. Agradeci, atendi e encarei de pronto um convite insólito que atiçou a veia do jornalista curioso e, quando percebi, já estava no carro que ele usa em Brasília. Após tomar duas ou três avenidas, sob o céu limpo e o ar surpreendentemente fresco da Capital Federal, passamos por uma guarita. Segundos depois, desembarcávamos à porta do Palácio do Jaburu. Estava eu, menos de duas horas depois de concluída a votação do impedimento de Dilma, diante de Michel Temer (PMDB), o vice que já se preparava para presidir o Brasil.

Se fui o primeiro,
pouco importa

“És o primeiro jornalista com quem converso nas últimas horas”, disse-me Temer, prenunciando a façanha e, talvez, em um exagero de cortesia. Protocolar e simpático no cumprimento que me dirigiu, voltou-se ao deputado Benedet, a quem abraçou afetuosamente. Naquela fração de segundo, com Legião Urbana mixando um compacto vivo do que acabara de testemunhar nas últimas horas do Salão Verde da Câmara, pensei na extensa pauta que desenvolveria ali. Mas o tempo me ensinou, ou tentou, a necessária cautela diante da notícia. Ouvir, para então elaborar. E no caminho, ainda desconhecendo o que estava por vir, recebi de Benedet a profética orientação: “o presidente é um homem discreto. Vá devagar”.

Sem refrigerante,
nem torta de chocolate

Henrique Eduardo Alves (PMDB), o poderoso potiguar que havia sido ministro de Dilma, seria ministro de Temer depois, estava no mesmo ambiente. Uma sala de estar ampla, metade coberta, metade aberta, com uma mesa retangular enorme com quitutes e bebidas. “Quer um refrigerante?”, ofereceu-me Temer. Agradeci. “E uma torta de chocolate?”. Confesso que a fome e o cansaço me inclinavam ao “sim”, mas recordei da dica do deputado Benedet, minutos antes, e dispensei a oferta. Henrique Alves, Pastor Everaldo (aquele do PSC, candidato a presidente da República em 2014) e mais uns dois ou três, que não identifiquei de pronto, cochicavam em um canto, próximos a uma piscina muito limpa, ampla e bem iluminada, enquanto quatro garçons iam e vinham com bandejas bem recheadas. Passava os olhos por tudo que a mente pudesse gravar e ouvia Benedet contar a Temer um pouco do pesado dia no Congresso, do antes e do depois da votação do impeachment. Ao perceber o primeiro flanco, atirei-me à conversa.

“Não terei qualquer declaração pública antes que o Senado vote”, alertou-me Temer, firme sem ser rude, vestindo camisa branca e terno preto. Perguntei se Benedet, que demonstrava muita proximidade, poderia ser ministro em um futuro governo. Ambos riram. Senti-me sutilmente censurado, e compreendi. Não havia governo ainda. Cumpri a obrigação de perguntar. A resposta, veio do deputado. “Se houver o governo Temer, quero estar na Câmara ajudando”. Intrigado com a complexa união de forças políticas que viabilizavam a primeira batalha do impeachment de Dilma, comentei com Temer como seria acomodar tantos e tão variados na Esplanada dos Ministérios. “O Brasil precisa de união nacional para vencer as crises política e econômica”, sentenciou o ainda vice. “Esses partidos estão aliados em uma disposição republicana para ver o Brasil melhor”, teorizou Temer, com o ar solene que o caracteriza.

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E dona Marcela,
presidente?

Olhando aquele homem baixo, mais baixo que eu, cujos traços não escondem a idade, com um olhar sério e atento com seus interlocutores mas sereno nos gestos, pensei em quebrar o gelo com uma questão particular. “E dona Marcela?”, não resisti, vasculhando o palácio com os olhos em busca de mais impressões e de saber onde andava a futura primeira-dama. Vi o relógio, 1h12min da madrugada. “Ela já se recolheu. Estava cansada”, respondeu Temer, com sorriso nos lábios.

Temer disse:
“Pode deixar”

A torta de chocolate, consumida com reluzentes talheres - pareciam de prata -, estava vencida. O robusto copo de água, também. Os nossos dez minutos acabando, e os gestos já indicavam para o instante da nossa saída do Palácio do Jaburu. Dali a quatro meses e meio, em 31 de agosto, Temer assumiria de fato a presidência, ultrapassado o desgastante processo sofrido por Dilma. Sem saber deste prazo, e de volta com Legião Urbana em mente, lembrei-me daquele pedido, na despedida. “Se o senhor vier a ser presidente, não esqueça do nosso povo. O povão precisa de atenção”, disse. “Pode deixar”, respondeu Temer.

Hoje, FGTS
e Moreira Franco

Daquele encontro, quase dez meses se passaram. Michel Temer ingressa hoje no dia 168 do seu atribulado governo. Terá como pauta principal da terça-feira o anúncio do calendário do saque das contas inativas do FGTS. E na véspera justificou em quais circunstâncias afastará ministros investigados, depois de conferir foro privilegiado ao amigo Moreira Franco entregando-lhe uma pasta de um homem só. No meio disso tudo, fiquei pensando na nossa conversa de abril de 2016, naquela madrugada no vasto e arejado Palácio do Jaburu. Será que vou “conseguir o que queria, quando fui para Brasília... pedir para o presidente ajudar toda essa gente, que só faz sofrer?”. Não sei. Só sei que os últimos “sofridos” que ele vem ajudando são seus amigos ministros. Estou confiando no seu “pode deixar”, presidente.

Nota da Redação: o jornalista Denis Luciano esteve em Brasília nos episódios da cobertura do impeachment, em 2016, enviado pela Rádio Eldorado e para reportagens especiais no Jornal da Manhã.

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