Enquanto vejo soldadinhos, Elizabeth II curte aviões

Por Texto/fotos: Lene De Costa - lenedecosta@engeplus.com.br

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É meio-dia em Londres e pelo menos cinco mil pessoas estão diante dos portões do Palácio de Buckingham, a residência oficial da família real britânica. Estou entre eles, disputando uma vaguinha o mais próximo possível das altas grades que circundam o local. Na porta do palácio, a Troca da Guarda, cerimônia diária durante a primavera, já iniciou.

Nos primeiros 15 minutos não consigo ver nada, nem me aproximar da grade. Aos poucos consigo me infiltrar no meio da multidão e vejo, a alguns metros, a guarda real vestindo seus tradicionais uniformes vermelhos e chapeuzinhos peludos. São todos iguais, como soldadinhos de chumbo, e parecem não ter rosto, de tão enterrados que os chapeuzinhos ficam.

Como a guia inglesa que nos acompanhou pela manhã (a do espanhol quase incompreensível) pouco nos falou da guarda, me instalo entre os pilares para tentar deduzir o que acontece. Enfileirados, os soldados cumprem o ritual de marcha, cumprimentam pessoas à paisana e a banda começa sua apresentação. Surgem soldados com bandeiras e armas marchando até encontrar o grupo. Pelo que consigo entender, o ato da troca se dá quando as duas filas de soldados se posicionam frente a frente, e invertem solenemente as posições.

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NERVOSINHA
Em frente ao Palácio, uma policial tenta manter a rua vazia e os turistas além das barras de proteção. Loira, olhos claros, deve ter pouco mais de 20 anos, mas um gênio terrível. Movimenta os braços o tempo todo e apita cada vez que um grupo tenta cruzar a rua. Na tentativa de ver os soldados, os turistas sobem nas barras próximas ao meio-fio, e despertam imediatamente a ira da policial, que corre na direção deles berrando sabe lá Deus o quê. Pela cara dela, é melhor não discutir e descer dali.

O público aguarda o final da cerimônia, marcado por um desfile pelas ruas em frente ao Palácio e que inclui banda, cavalaria e marcha. Pela semelhança com a parada brasileira, saio dizendo que a Troca da Guarda é o 7 de Setembro de Londres. A diferença é que eles têm um 7 de Setembro por dia.

Para quem vive num país presidencialista, estar diante de um palácio onde vivem reis e rainhas “de verdade” é uma experiência estranha, diria até engraçada. Pra mim, castelos eram coisas de histórias infantis, habitados por lindas princesas de vestidos bufantes e belíssimos príncipes em cavalos brancos. Diante de Buckinghan, os rostos que me vem à mente são os de Charles e Camilla Parker-Bowles. Melhor nem comparar. Mas, pelo que dizem, a família real pouco fica em Buckinghan. Se sobram turistas, falta privacidade.

WINDSOR: O PREFERIDO DE ELIZABETH
De Buckingham o tour segue para Windsor, o que dizem ser o palácio preferido da rainha Elizabeth II. A viagem dura cerca de uma hora e nos consome mais 25 Euros. Pelo caminho vemos casas mais parecidas com as do Brasil: ainda escuras, mas com pequenos jardins e até espaço para carros. No centro de Londres praticamente nenhuma casa tem garagem, já que foram construídas bem antes da invenção dos veículos. As ruas até Windsor parecem tranqüilas e os ingleses aproveitam os parques próximos ao castelo para tomar sol.

Estamos nas redondezas do castelo. Na frente do estacionamento há alguns cafés e uma área de comércio popular, com todo tipo de bugiganga estampada pela bandeira do Reino Unido. Comprovo, inclusive, que o apelo do “quase dois” também é universal: há lojinhas de 1,99 em Windsor. E só pra lembrar: 1,99 de lá significam R$ 10 nossos.

Subimos algumas escadas e estamos em uma antiga estação da locomotiva que já transportou personalidades reais. Todo o espaço ao redor da estação é tomada por restaurantes e cafés cuidadosamente decorados, cada um com um estilo diferente, e todos de muito charme. Passamos por eles e estamos no asfalto que nos leva aos arredores do castelo.

Antes de conhecer a residência da rainha, uma parada rápida no Pizza Hut para conhecer a pizza de peperone. Pura pimenta. O excesso de tempero faz com que a Coca-Cola seja consumida em segundos. Coca, por sinal, sem gás e praticamente sem gosto. E servida em copo com mancha de batom. A essa altura já não me concentro mais nestes detalhes, apenas pego o guardanapo, limpo a mancha e pronto: finjo que tenho um copo limpo.

A antipática guia inglesa nos oferece o adicional de 15 Euros para entrar no castelo. Achei que entrar no castelo significava circular pelas salas e aposentos, e decido ficar na rua e conhecer melhor os jardins. Só depois de dispensar a visita guiada descubro que, sem o adicional, não posso circular nem pelos jardins, nem próximo ao castelo. Nas entradas, policiamento armado até os dentes não permite nem mesmo que o turista se aproxime para uma inocente foto na frente do portão. Se não pagou para entrar, não tira foto nem da saída.

O jeito é fotografar o castelo por fora, e conhecer os arredores. Dezenas de lojas de comércio popular oferecem praticamente os mesmos produtos. Mas os souvenir em Londres são mais diversificados, nem sempre o turista encontra os mesmos itens comercializados em outro ponto turístico. A menos, claro, que o souvenir procurado seja uma miniatura do ônibus vermelho ou das cabines telefônicas; estes têm em qualquer loja, em todos os tamanhos.

ÁLBUM DE CASAMENTO
No caminho para o castelo passamos por uma igreja onde uma grande família posava para uma foto na escadaria. Enquanto estamos na porta do castelo, um calhambeque branco se aproxima lentamente até o ponto mais alto. Dele desce um casal de noivos, provavelmente vindos do casamento que avistamos. Os noivos descem do carro e fazem pose na frente do castelo.

Os turistas aglomeram-se para ver a sessão de fotos, divididos entre achar muito emocionante e muito brega. Puxo a câmera e clico o casal, afinal, se foram até um movimentado ponto turístico, com certeza não se incomodariam por ser registrados por pessoas de várias partes do mundo. Meu presente foi trazer parte do book para Criciúma. E mais de uma vez olhei as fotos com calma pra ver se o noivo não era mesmo o Bruce Willis.

Sento num dos cafés da estação e peço um café com leite, pequeno. O conceito de pequeno dos ingleses em Windsor é um pouco diferente do nosso, e meu pequeno café tem mais de 200ml. Vem numa taça enorme e tem uma cor horrível. E o sabor não é dos melhores, o que me faz abandonar boa parte no copo.

UM AVIÃO A CADA 30 SEGUNDOS
Volto para a área de comércio popular onde há alguns bancos, quero aproveitar o sol do final da tarde. Um dos guias nos chama a atenção para o número de aviões passando por ali, um a cada 30 segundos. E não é maneira de falar, é o tempo exato. Controlados no relógio, às vezes surgem em intervalos até menores que isso. Quando uma aeronave passa por cima de nossas cabeças, outra já entra no nosso campo de visão. E como estão praticamente pousando, o barulho é constante. Elizabeth II, pelas minhas contas, está com 82 anos. E para ter preferência pela residência em Windsor, com todo aquele barulho, já não deve ter a audição tão perfeita.

Mesmo sem ter entrado nos jardins, acho a visita a Windsor maravilhosa. Até porque a melhor foto do castelo é feita a alguns quilômetros dele, e tenho que ser precisa no gatilho da máquina para clicar o angulo perfeito de dentro do ônibus em movimento. Pego o imenso parque verde tomado pelos ingleses que aproveitam o sol para correr. No final da estrada está o acesso principal ao castelo. A alguns metros dali, uma pequena entrada passaria despercebida se a guia não nos alertasse que é por aquele minúsculo portão que passam os membros da família real e seus convidados. Ou seja, as pessoas mais poderosas de Londres só saem de casa pela porta dos fundos.

Antes de nos despedir de Londres, os dois últimos passeios: vamos à National Gallery ver Monet e à Backer Street abraçar Brad Pit, Leo Di Caprio e Tom Cruise.

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