Entrevista: Meynardo
Entrevista: Meynardo Rocha de Carvalho
Por Redação Engeplus
5 min de leitura
Meynardo Rocha de Carvalho é natural do estado do Rio de Janeiro, mestre em História social pela UFRJ, superintendente acadêmico da Fundação Educacional de Macaé e professor na Faculdade de Filosofia, onde leciona Metodologia e Prática de pesquisa em História. Centrou sua pesquisa em estudos sobre religiosidade no Brasil Colônia.
Entrevista realizada por Dayana Rampinelli *
O que o levou, como historiador, a focar suas pesquisas na religiosidade do período colonial?
Durante a minha graduação em História na Universidade Federal de Juiz de Fora tive a influência direta de alguns professores que trabalhavam com esse tema. Não pude deixar de me influenciar pelas leituras dos livros de Laura de Mello e Souza que, na época, foram balizas para um início tímido de um trabalho encantador na área da História Cultural.
Quais as características mais marcantes da questão religiosidade na cultura brasileira? Podemos denominar o povo brasileiro como religioso?
Na minha opinião o povo brasileiro possui uma religiosidade muito forte. Veja bem que religiosidade não é exatamente religião, algo definido, estruturado numa postura litúrgica que busca se afirmar sobre outras semelhantes. Religiosidade, nesse caso brasileiro, faz parte do próprio imaginário estruturado na formação desse povo que, acima de tudo, é o fruto de vários encontros culturais e, conseqüentemente, religiosos.
Assim, ainda que muitas pessoas neguem ou não percebam, a religiosidade se faz presente em práticas cotidianas de nossas vidas e, apesar de fugirem ao nosso controle, estão muito presente entre nós.
A religiosidade, sem dúvida, foi um fator de suma importância para o cotidiano dos colonos portugueses. Sabemos que através dela a sociedade era persuadida a servir o rei. A religião então era uma forma de persuasão e domesticação da população?
Sem dúvida. A persuasão exercida pela religião era e, ainda hoje em certos âmbitos, é muito forte. Seu efeito é avassalador à medida que o homem se afasta da razão para se servir do dogma como diretriz. Mas é importante perceber as especificidades de cada tempo. No Império Português, a religião estava diretamente imbricada à estrutura política, podemos mesmo dizer que, através do padroado régio – a “união entre a Cruz e a Coroa” – a Igreja Católica desenvolvia ações que, fundidas com os interesses de El Rei, unificavam a diversidade do império sob a “amarração da vontade divina”.
Qual a importância da religiosidade na cultura brasileira?
Tem uma colocação de um historiador italiano chamado Carlo Ginzburg, que acho bastante interessante. Em um de seus vários estudos envolvendo o tema, ele diz que a “cultura é uma jaula flexível”. Levando-se em consideração a importância da religião no nosso processo colonizador e, conseqüentemente a extensão no tempo por gerações e gerações de marcas como as religiosas, creio que ela seja de suma importância na construção do que é ser brasileiro. Um povo marcado acima de tudo pela indefinição, ou melhor, pela interpenetração de variadas culturas que, apesar de se preservarem de alguma forma, aderiram ao encontro que teve gênese no próprio processo colonizador gerador de multiplicidade.
Aliada ao reino português, a Igreja Católica lançou-se à tarefa da colonização do Brasil com eficácia e se transformou numa das mais sólidas e rígidas instituições de poder no país. Como você analisa esse processo?
A Igreja era muito mais forte na Idade Média. Durante a Idade Moderna, o que ocorre é a adaptação de um modelo religioso aos interesses dos Estados Absolutistas e que naturalmente tem sua força alimentada pela simbiose política e econômica.
Nesse sentido, a estruturação do poder da Igreja sobreviveu em boa parte à decadência dos Impérios, especialmente porque apesar de arraigada aos dogmas antigos, um de seus pilares principais, ela talvez tenha sabido melhor do que todas as demais instituições de poder adaptar-se aos interesses de cada tempo sucedido. Assumindo assim uma espécie de “resiliência” feita com algum talento e muitas contradições.
A população brasileira é majoritariamente cristã (89%), sendo sua maior parte católica. O catolicismo foi a religião oficial do Estado até a Constituição Republicana de 1891, que instituiu o Estado laico. As religiões afro-brasileiras instituídas pelos escravos, que trouxeram suas próprias práticas religiosas, sobreviveram à opressão dos colonizadores. Nos dias atuais, várias são as religiões que despontam como novas alternativas. Essa não seria uma maneira de persuasão e domesticação da população como fez a Igreja Católica no período colonial?
Num mundo de desigualdades gritantes como o atual, eu sou obrigado a repetir Marx quando afirmou que “a religião é o ópio do povo”. Não há dúvidas quanto ao papel de persuasão e do que você chama de domesticação.
No entanto, é preciso tomar cuidado com as generalizações porque, em tudo que olhamos ou analisamos com muita abrangência, corremos o risco de perder o foco. Isso porque a capacidade do “olho humano” é pouco abrangente. E, ainda, porque o foco é muito guiado pelas nossas próprias experiências de vida, algo que como historiador eu chamaria de experiências históricas.
Assim, à própria percentagem apontada no início da pergunta cabe um questionamento: o que é ser cristão no Brasil? Por outro lado, há que se valorizar através do olhar mais laico e, ao mesmo tempo mais focado, as experiências individuais em relação às religiões. Nesse contexto, seja a partir da visão não-religiosa ou pelo prisma da fé, há sempre um espaço na História no qual cada postura se encaixa perfeitamente.
* Jornalista, especialista em Opinião Pública, Mídia e Estratégia de Comunicação Política - IUPERJ – RJ; mestranda em Gestão e Planejamento das Cidades UCAM – RJ; pesquisadora da área de Desenvolvimento Regional e assessora acadêmica da Fundação Educacional de Macaé – Funemac / dayanarampinelli@hotmail.com
