Fui a Londres e não vi o Big Ben!

Por Texto/fotos: Lene De Costa - lenedecosta@engeplus.com.br

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Estou em Londres e não quero perder um minuto. Mesmo tendo ficado pendurada com a operadora por preciosos minutos para programar meu celular antes da viagem, descubro que ele não reconhece o Reino Unido e procuro uma das famosas cabines vermelhas para ligar para um antigo colega criciumense que mora lá e vai me levar para um preview.

Não me acerto com a dita cuja. Minhas moedas são engolidas e a ligação não é completada. Prevendo a confusão telefônica, o colega está à minha espera na recepção do hotel. É só o tempo de vestir o uniforme de turista criciumense – a camisa do Tigrão - e começar a percorrer os pontos mais tradicionais, a pé, e, infelizmente, sem câmera na mão. As dez horas de estrada me impediram de carregar as baterias consumidas em Paris, e o primeiro contato com Londres vai ficando registrado apenas na memória.

Já começa a escurecer quando finalmente estou bem embaixo do grande relógio e, como a maioria dos turistas, penso estar vendo o Big Ben. Só na volta, lendo mais sobre os lugares em que estive, descobri que o que vejo da rua é, na verdade, a Tower Clock, a torre do relógio do Palácio de Westminster. O Big Ben, especificamente, é o sino de 13,5 toneladas instalado dentro da torre em 1859, a 106 metros de altura, em local não aberto à visitação. Além dos funcionários da BBC que subiram até lá para montar o microfone da emissora que transmite diariamente as badaladas anunciando a hora certa, só alguém com binóculo ou uma câmera de muito zoom vai ver o sino. A olho nu, sem chance.

A torre não é tão pequena quanto alguns exigentes me disseram mas, comparado ao tamanho das obras que vi até ali, não chega a ser colossal. Se considerarmos só o relógio, não me pareceu ser esmagadoramente maior que o da Assembléia de Deus da Avenida Centenário. Mas se considerarmos o conjunto, com toda a extensão do Parlamento, pode-se dizer que é bem grande. Como boa parte das construções em Londres, é feito de tijolos escuros, amarelados, realçados no topo pelos detalhes em dourado e pelos precisos ponteiros. Encaro a torre mais conhecida da Europa e não quero dizer nada. Quero apenas ficar ali, contemplando a imagem que, por muitos anos, sonhei ver. Não consigo explicar a sensação. Estou feliz, estou triste, estou encantada. E como quem pretende me acordar da letargia, o escondido Big Ben responde disparando suas estrondosas badaladas: são nove horas da noite. Posso não ter visto o Big Ben, mas ouvi muito bem.

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O OLHO
Do outro lado da ponte está a segunda imagem que despertou meu interesse por Londres, o London Eye. Até poucos meses atrás, era a maior roda gigante do mundo, e não me importa se perdeu seu pódio no ranking, pra mim o Olho de Londres será sempre o maior, o mais espetacular. Caminho lentamente para observar cada canto do cenário. Passo embaixo da imensa roda, já fechada para visitação. Atravesso por uma segunda ponte, páro no meio dela, apóio os braços no parapeito e esqueço do tempo, olhos fixados no cartão-postal formado pelo iluminado London Eye em primeiro plano e Westminster ao fundo. Ainda não quero falar, talvez por quase não acreditar que estou mesmo ali.

Passo por Picadilly Circus para ver o iluminado painel promocional, vejo os autênticos pubs da Covent Garden e atravesso a Leicester Square, praça onde cinco dias antes um tapete vermelho foi estendido para receber Sarah Jessica Parker, Kristin Davis, Kim Cattrall e Cynthia Nixon na premier do filme Sex and the City.

Fico observando as pessoas pelas ruas. Não é tão expressivo quanto imaginei, mas algumas são realmente bem estranhas. Tribos de Emos, gente de cabelos coloridos, e não sei se estavam indo a alguma festa à fantasia, mas vejo um grupo de meninas com roupas estranhíssimas e que até asas usavam. Diante dos imensos painéis de cinema e do vai-e-vem frenético das pessoas, somado ao barulho ensurdecedor das sirenes de polícia e do helicóptero que sobrevoa o local, fico em dúvida se não estou no meio de um filme de ação. A impressão é de que o Homem Aranha ou o Batman podiam descer de um prédio a qualquer momento.

É hora de voltar para o hotel. Pego o metrô e continuo a observar as pessoas, quero entender como é viver em Londres. Ouço pela primeira vez o aviso que vai soar em várias linhas, várias vezes por dia: mind the gap. Significa algo como “tenha cuidado com o buraco”, o vão que separa o metrô da plataforma. E pela insistência no aviso, imagino que muitos distraídos já devem ter caído ali.

Sempre ouvi falar da frieza dos ingleses mas, olhando-os em casa, me parecem apenas cuidando de suas próprias vidas, sem se importar com o que acontece ao redor. Reservados, não frios. Enquanto atravessam de uma estação do metrô para outra, aproveitam o tempo para acessar arquivos no celular, ler os jornais, ouvir distraidamente o mp3. Outra mensagem não tão freqüente mas também bem comum nos metrôs de Londres é o adesivo “Keep clear” nas portas. Ou seja: se não vai descer, saia da porta – as pessoas têm pressa aqui.

Perto das onze da noite, entro no hotel e encontro parte do grupo sentado no saguão, esperando ainda por notícias dos colegas que ficaram em Callais. Para nossa surpresa, enquanto discutimos o que estaria acontecendo, os dois surgem na porta-giratória. Cansados, não escondem a alegria de nos reencontrar, e a felicidade é recíproca, estamos aliviados por vê-los na Inglaterra. Ainda nervosos, contam por alto sobre os interrogatórios e a pressão psicológica a qual foram submetidos por várias horas, até que fosse comprovado que eram apenas turistas. Todos se abraçam e sobem para o merecido descanso. A programação do dia seguinte será longa.

TEM SOL
Contrariando a fama da cidade, o dia amanhece com um lindo sol em Londres. O city tour é guiado por uma inglesa com um espanhol horrível, quase incompreensível, que desestimula o interesse pelas histórias da cidade. Mal humorada, não quer que tiremos fotos enquanto ela fala, como se fosse possível entender o que resmungava. A primeira parada é na Torre de Londres, às margens do Rio Tamisa, de onde se avista também a Tower Bridge, foto obrigatória no álbum de todo turista. Os modernos prédios de vidro também são vistos dali. Seguimos pelas ruas, e pelo pouco que consigo entender descubro que estamos passando por uma área reconstruída depois que um gigantesco incêndio provocado por um padeiro dorminhoco destruiu parte do centro. Felizmente visitei Westminster na noite anterior, porque o city tour, inacreditavelmente, não nos leva ao relógio.

A tarde é dedicada a dois passeios excelentes, mas estes relatos ficarão para a próxima semana. No fim da tarde, nosso roteiro inclui uma visita a China Town, o bairro oriental no centro de Londres. Pode ser curioso para alguns, mas não vi nada de interessante lá, pelo contrário. O vento gelado que substituiu o sol, associado às vitrines de açougues que exibiam os mais estranhos animais esquartejados me trouxeram um certo mal estar e graças à programação imposta pela operadora européia, somos obrigados a rodar duas horas pelas ruas próximas ao bairro até que nosso ônibus venha nos buscar.

Acabamos caminhando até Picadilly, bem mais animado, e como é noite de sábado, vários artistas vestindo seus figurinos tentam nos vender entradas para os espetáculos da noite. Amo teatro, mas nessa hora nem me animo. Tremendo de frio, tudo que quero nesse momento é um banho quente.

Mais uma vez exaustos, estamos de volta ao hotel, o estrelado Hilton Paddington. O hotel está anexado a Paddington Station, uma estação de metrô com várias lojas, supermercados, fast foods e uma série de outros serviços. Ainda curiosa com o modo de vida londrino, arrisco um passeio pelo supermercado e fico maravilhada com a quantidade de comida pronta que se encontra nas prateleiras, mais um indício de que ninguém tem tempo nem pra comer naquelas bandas.

Não é raro encontrar pessoas devorando lanches ou porções para viagem enquanto caminham, no metrô, nas escadarias em frente aos prédios. Como se só os desocupados se prestassem a fazer uma refeição confortavelmente acomodados.

Depois dos dias em Paris, estou com saudade de sal e escolho saborosas azeitonas, enormes, degustadas como entrada da opção escolhida para o jantar, Burger King. Não dá pra ir a Londres e não comer comida não-saudável. Comprovo que os argumentos nesse ramo são os mesmos em todo o mundo: peço o lanche sem batatas e o atendente tenta me empurrá-las com aquela história de que vou pagar pouco mais para levá-las. Aceito a Fanta, que lá é amarela e meu cérebro entende como Laranjinha, mas agradeço as batatas e reafirmo que só quero o sanduíche. Se ele soubesse que chego de Paris, entenderia que a última coisa que quero comer são batatas.

E TAMBÉM TEM CHUVA
O tour por Londres só é completado no dia seguinte, quando o grupo sai com o guia criciumense. E se queremos ver tudo que há de típico, não poderia faltar a chuva. Nessa hora me arrependi de ter ignorado a sugestão de levar capa de chuva, acessório muito comum por lá. O jeito é encarar o aguaceiro gelado da primavera européia e me preparar para rir das fotos em que vou aparecer ensopada.

Estou no famoso ônibus vermelho, sentada no andar de cima, rumo a Westminster. Em poucos minutos estou na frente da catedral, mas é horário de missa e durante a celebração não são permitidas visitas; o turista até pode entrar, mas aí precisa assistir até o final. Optamos por seguir a caminhada até o Big Ben. Finalmente posso fotografar o relógio e tenho o privilégio de vê-lo marcar exatamente meio-dia. Mais badaladas. Olho o London Eye ao longe e, por falta de tempo, não vamos poder pegar a fila para subir na roda gigante. Tinha prometido não voltar sem fazer isso, mas acabo me conformando, pois a chuva nos dá uma trégua mas o dia continua fechado e, nestas condições, pouco se veria lá de cima.

Caminhamos por Covent Garden e paramos para assistir uma apresentação de ópera na praça. Teoricamente parecia de graça, mas um dos participantes passa recolhendo doações nada espontâneas, e ainda reclama se o turista cede apenas poucas moedas. Um pouco mais à frente, uma procissão segue pelas ruas e, em meio a tantas crenças, é difícil saber a que religião pertence. A pausa para o almoço é curta, e mais uma vez escolho massas, um pouco mais temperada que na França, mas ainda longe do sabor da comida brasileira. Ao final do almoço, o garçom nos oferece um café e um dos colegas pergunta se é uma cortesia da casa. O garçom ri, e num inglês pausado nos lembra: vocês estão na Inglaterra e aqui nada é de graça. Nenhuma novidade, eu já tinha percebido isso.

Ainda preciso contar sobre o espetáculo da troca da guarda no Buckingham e da viagem a Windsor. São os destinos do próximo capítulo.

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