Indústria ou
Indústria ou serviços: o falso dilema em Criciúma
Por Redação Engeplus
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Ademar José Fabre*
A divulgação recente de índices menos favoráveis sobre o setor industrial de Criciúma tem suscitado o debate sobre se teria sido vantajoso optar pela terciarização da economia, com prejuízo do crescimento industrial, que tem pautado a economia do município nas três últimas décadas.
A respeito, cumpre lembrar que o criador dos conceitos de primário, secundário e terciário, o economista australiano Colin Clark, ainda que tenha dado um sentido temporal a esses três setores, não previa essa espécie de permuta inter-setorial, em dado momento, mas imaginava uma ocorrência seqüencial dessas atividades, à medida que fossem consolidadas essas três fases de desenvolvimento de uma economia nacional.
Trazendo o debate para o nível municipal, observa-se que Criciúma teve um razoável setor primário (agricultura, pecuária) antes de emancipar seus três distritos, mas sua história econômica registra quase 50 anos de pleno domínio da indústria extrativa mineral (carvão), com uma diversificação industrial iniciada nos anos sessenta, do século passado.
Nos dias de hoje, o município registra o crescimento do setor de serviços, com certa estagnação do setor industrial. Daí surge o questionamento se vale a pena ter o setor de serviços crescendo, enquanto o industrial marcha a passos lentos.
A questão que se tem levantado é de uma eventual opção inadequada pelo setor de serviços (terciário), nos últimos anos, em detrimento da expansão industrial. Entende-se que a discussão não deve ser colocada nesses termos e que se está criando um falso dilema.
Senão, vejamos: o setor de serviços (terciário) não deve substituir e sim complementar o setor industrial o qual, à medida que se expande, passa a demandar mais serviços. Outro fator de crescimento do terciário é o papel de pólo micro ou mesmo mesorregional que a cidade passou a exercer, nos últimos anos, função esta desempenhada, sobretudo, pelo comércio e por uma gama de serviços do terciário.
Entenda-se, um pólo de serviços não é necessariamente um pólo industrial, mas a recíproca costuma ser verdadeira, isto é, à medida que se consolida o pólo industrial, este passa a demandar serviços, condicionando a transformação do núcleo urbano em pólo comercial e de serviços. Isto vem ocorrendo em Criciúma, especialmente nas duas últimas décadas, a exemplo de outros centros industriais do estado, como Joinville, Blumenau, Jaraguá do Sul, Brusque e São José.
Quanto à retomada do crescimento industrial, ela pode e deve ocorrer, mas isto não implica frear o crescimento do setor terciário, que constitui, no presente momento, uma tendência irreversível, pelas razões expostas. Aliás, a terciarização da economia é um fenômeno mundial.
Na verdade, a par de algumas carências estruturais (escassez de terrenos, de investimentos) e infra-estruturais (BR-101, aeroporto) houve, também, um certo grau de acomodação, para não dizer relaxamento do poder público, que não tem tido uma política forte de industrialização, com leis de incentivos fiscais e econômicos para atrair investimentos de fora, haja vista que os excedentes econômicos internos acham-se um tanto comprometidos pelo estágio de pouco crescimento dos setores tradicionais, que lideraram a economia municipal nas três últimas décadas.
Deve-se lembrar, ainda, que, se Criciúma não tem uma localização privilegiada em face do grande mercado do sudeste do país conta, certamente, com importantes economias externas e de aglomeração, proporcionadas por setores tradicionalmente fortes, como cerâmica, vestuário, plásticos, químicos, cujos aglomerados, com clusters em formação, apresentam vantagens locacionais que permitem o adensamento das respectivas cadeias produtivas.
Com a duplicação da BR-101, o retorno das linhas aéreas e, principalmente, uma política firme e objetiva do poder público municipal, a revitalização do setor secundário é perfeitamente viável, pois, além dos itens favoráveis citados, existe um fator importante chamado “griffe Criciúma”, que certamente ajuda a atrair novos empreendimentos industriais para o município.
* Economista, MSC em Desenvolvimento Regional
